Patria conclui saída da Smart Fit e direciona foco para saúde e varejo alimentar
O Patria, gestora brasileira de private equity, finalizou sua participação na Smart Fit, marcando o encerramento de um ciclo de investimento iniciado em 2010, e concentra agora seus esforços em setores estratégicos, como saúde suplementar e varejo alimentar. A operação, que envolveu o fechamento de um bloco de ações avaliado em R$ 890 milhões, é parte de um conjunto de movimentos que permitiram à gestora realizar três block trades desde o IPO da rede de academias, em julho de 2021, totalizando R$ 3,97 bilhões captados.
Segundo Luis Felipe Cruz, sócio responsável pela área de Private Equity do Patria, a decisão de redirecionar investimentos para saúde e varejo alimentar segue critérios de crescimento estrutural, resiliência e alinhamento com tendências seculares, considerando fatores demográficos e padrões de consumo básicos.
Do fitness ao varejo alimentar: nova estratégia do Patria
Com a conclusão da tese de investimento no setor de fitness, o Patria volta seu olhar para segmentos considerados essenciais e com potencial de crescimento de longo prazo. Cruz destacou que saúde suplementar e alimentação atendem a essas características, com demanda impulsionada pelo envelhecimento populacional e pela busca por serviços de qualidade.
No segmento de varejo alimentar, o Patria reforçou sua presença por meio da Plurix, plataforma que consolida redes de supermercados no Sul e Sudeste, e do Atakarejo, no Nordeste, em operação de participação majoritária estimada em R$ 700 milhões. A gestora entende que esses ativos oferecem resiliência, escalabilidade regional e oportunidade de sinergias operacionais.
No setor de saúde, a aquisição da Banmédica — ativos da UnitedHealth no Chile e na Colômbia — por cerca de US$ 1 bilhão reforça a tese da gestora em mercados com demanda contínua, sustentada por envelhecimento populacional e crescimento do setor de planos de saúde suplementares.
Ciclo de investimento na Smart Fit: trajetória e resultados
O investimento do Patria na Smart Fit é considerado exemplar dentro do mercado de private equity brasileiro. Em 2010, a companhia possuía apenas 26 unidades, 45 mil alunos e faturamento aproximado de R$ 70 milhões. Atualmente, a rede opera em 16 países, com mais de 2 mil academias e cerca de 5,2 milhões de clientes, e registra receita superior a R$ 6,8 bilhões.
O ciclo de investimento foi dividido em dois fundos. O primeiro, Fundo 3, de 2010 a 2019, deteve até 40% da companhia, e a participação foi vendida para um consórcio de investidores que incluía o Fundo 5. Este último, ativo entre 2019 e 2025, atravessou a pandemia, período que exigiu fechamento temporário das academias e ajuste nos planos de expansão.
O IPO realizado em julho de 2021, movimentando R$ 2,3 bilhões, funcionou como instrumento principal de liquidez, permitindo saídas graduais do Patria por meio de block trades subsequentes: maio de 2023 (R$ 2,2 bilhões), novembro de 2025 (R$ 875 milhões) e o bloco final de R$ 890 milhões.
Impactos do follow-on e evolução da governança corporativa
O ciclo de saída do Patria coincidiu com mudanças no comando da Smart Fit. A partir de março, o fundador Edgard Corona deixará o cargo de CEO, que será assumido por seu filho Diogo Corona, enquanto Edgard passará à presidência do conselho de administração. Esta transição sinaliza maturidade na governança corporativa, com pulverização do capital e manutenção da família Corona com 15% das ações, em alinhamento com investidores institucionais.
A operação de follow-on e block trades também aumentou a liquidez das ações, criando condições para maior participação de investidores no mercado secundário, fator considerado relevante para avaliação do segmento Novo Mercado da B3, que exige padrão elevado de governança e free float mínimo de 20%.
Perspectivas de alocação do capital obtido
Cruz afirmou que os recursos obtidos com a venda podem ser reinvestidos em operações existentes, usados para quitar obrigações ou distribuídos aos cotistas, mas não há decisão final sobre destinação. O Fundo 5 mantém capacidade para realocação dentro das teses já estruturadas, mas não pode iniciar novos investimentos fora do escopo atual.
Essa abordagem reflete disciplina de alocação de capital e foco em setores com crescimento secular, reforçando a reputação do Patria como gestor estratégico de ativos com retorno consistente.
Relevância para o mercado de private equity no Brasil
A trajetória do Patria na Smart Fit ilustra práticas típicas de private equity: identificação de setores resilientes, execução de expansão operacional, governança estruturada e saída gradual. O caso evidencia a capacidade de gestores brasileiros de criar valor consistente ao longo do tempo, equilibrando crescimento, liquidez e retorno aos investidores.
A atenção a setores como saúde e varejo alimentar demonstra tendência do mercado de private equity em buscar ativos essenciais, com demanda contínua e potencial de expansão regional. O foco em plataformas consolidadas e empresas maduras reduz riscos e fortalece a base acionária, ampliando oportunidades de crescimento sustentável.
Perspectiva estratégica e próximos passos
O Patria mantém atenção voltada para oportunidades que combinem escalabilidade e resiliência. A saída da Smart Fit libera capital e abre espaço para reforço de posições em setores estratégicos, com potencial de gerar valor para cotistas e consolidar presença da gestora em mercados com forte demanda estrutural.
O exemplo da Smart Fit serve como referência para investidores e gestores, destacando a importância de avaliação criteriosa de setores, planejamento estratégico de saídas e governança corporativa robusta, elementos centrais para o sucesso em operações de private equity de grande porte no Brasil e na América Latina.





