terça-feira, 13 de outubro de 2026
contato@gazetamercantil.com
GAZETA MERCANTIL
GAZETA MERCANTIL
GAZETA MERCANTIL
Home Economia

PicPay (PICS): lucro dobra no 4T25, mas ação despenca 22% na Nasdaq

por Camila Braga
20/03/2026 às 13h31
em Economia
Picpay (Pics): Lucro Dobra No 4T25, Mas Ação Despenca 22% Na Nasdaq — O Que Está Por Trás Do Paradoxo-Gazeta Mercantil

Quando números fortes não são suficientes para segurar uma ação

Há momentos no mercado financeiro em que a lógica aparente se inverte — e o pregão desta quinta-feira, 19 de março de 2026, ofereceu um exemplo particularmente ilustrativo disso. O PicPay (PICS), fintech brasileira que estreou recentemente na Nasdaq, divulgou seu primeiro balanço como empresa listada em Nova York com resultados que, em qualquer cenário de menor turbulência global, seriam celebrados pelos investidores. Lucro mais que dobrado, receita em forte expansão, base de clientes crescendo e carteira de crédito acima do guidance. E ainda assim, as ações PICS despencaram 22,49% no pregão americano, sendo negociadas a US$ 12,27 por volta das 17h.

O paradoxo é real — e tem uma explicação que vai muito além dos fundamentos da companhia.


O cenário global que derrubou o PICS

Para compreender o movimento das ações do PicPay nesta sessão, é preciso olhar para fora do balanço da empresa e observar o ambiente macroeconômico em que esse resultado foi divulgado. O mundo acorda há 20 dias consecutivos sob a pressão crescente de um conflito no Oriente Médio que não dá sinais de arrefecimento — e cujos efeitos sobre os mercados financeiros globais são cada vez mais concretos.

O barril de petróleo Brent chegou a superar os US$ 119 durante a madrugada desta quinta-feira — um nível que, por si só, já seria suficiente para acender alertas nos principais centros financeiros do planeta. Preços do petróleo nessa faixa reacendem temores inflacionários em economias que ainda não concluíram seus ciclos de aperto monetário, complicam o trabalho dos bancos centrais e, inevitavelmente, elevam a aversão ao risco dos investidores institucionais.

Nesse ambiente, ativos classificados como de maior risco — entre eles fintechs emergentes listadas em bolsas americanas — tendem a sofrer de forma desproporcionalmente intensa, independentemente de seus fundamentos imediatos. É o que os operadores de mercado chamam de “risk-off”: uma postura coletiva de fuga para a segurança, onde mesmo boas notícias corporativas são colocadas em segundo plano diante do ruído macroeconômico.

O PICS foi, nesta quinta, uma vítima colateral desse movimento.


O que o balanço do PicPay realmente mostrou

Feita essa contextualização, é fundamental analisar o que os números do PicPay efetivamente revelam sobre o estado da companhia — porque eles são, por qualquer métrica razoável, expressivos.

O lucro líquido ajustado do quarto trimestre de 2025 somou R$ 188,2 milhões, representando uma alta de 136% na comparação com o mesmo período de 2024 e de 78,6% frente ao trimestre anterior. Mais relevante ainda: o resultado ficou 31,5% acima do teto do próprio guidance da companhia — ou seja, o PicPay superou suas próprias projeções com folga considerável.

No consolidado de 2025, o lucro atingiu R$ 502 milhões — praticamente o dobro do registrado no ano anterior. A rentabilidade acompanhou esse movimento: o ROE ajustado chegou a 24,4%, com avanço de 5,4 pontos percentuais na base anual, o que posiciona o PicPay em um patamar competitivo relevante dentro do setor de fintechs brasileiras.

A receita líquida total no trimestre somou R$ 3 bilhões, com crescimento de 69% em um ano e de 10% na comparação sequencial — também acima do guidance. O desempenho foi sustentado por três vetores principais: maior penetração de crédito, crescimento das transações com destaque para o Pix financiado, e expansão na venda de seguros, um segmento que a companhia tem desenvolvido de forma consistente.

Vale registrar que parte do resultado do trimestre foi beneficiada por um crédito tributário não recorrente de R$ 890 milhões, relacionado ao reconhecimento de ativos fiscais diferidos. Esse efeito foi parcialmente compensado por R$ 274 milhões em despesas não recorrentes sem impacto em caixa. A leitura correta do balanço exige que esses itens sejam considerados separadamente da performance operacional recorrente.


A base de clientes que sustenta a tese de crescimento

Um dos números mais estratégicos do balanço do PicPay não está na linha do lucro — está na base de usuários. A fintech encerrou 2025 com 67 milhões de contas abertas, crescimento de 11% em relação ao ano anterior. Os clientes ativos chegaram a 42,7 milhões, ante 39 milhões em 2024.

Esses números são relevantes por uma razão específica: eles representam o substrato sobre o qual toda a estratégia de monetização da companhia está construída. Uma base de 67 milhões de contas é um ativo de distribuição extraordinário no contexto brasileiro — e é justamente sobre esse universo que o PicPay tem executado sua expansão de crédito, cross-sell de produtos financeiros e penetração em seguros.

A lógica é a mesma que sustentou o crescimento de outros grandes players do setor financeiro digital: primeiro constrói-se a base, depois monetiza-se. O PicPay parece ter chegado à segunda fase dessa equação.


Crédito como motor — e o alerta da inadimplência

A estratégia do PicPay para 2026 está claramente articulada em torno do crédito. A expectativa é que essa vertical represente cerca de 60% da receita total, com produtos garantidos respondendo por aproximadamente 25% desse mix. Trata-se de uma aposta deliberada em linhas de menor risco relativo dentro do portfólio de crédito — e a transição já está em curso.

Um dos movimentos mais importantes nesse sentido foi a aceleração do consignado privado, que hoje concentra boa parte das novas concessões da companhia. Essa mudança foi motivada, em parte, pelas restrições regulatórias que impactaram as originações ligadas ao saque-aniversário do FGTS — um produto que havia sido relevante para o crescimento da carteira em períodos anteriores.

Atualmente, cerca de dois terços das novas originações do PicPay vêm de produtos garantidos, enquanto o restante está concentrado em linhas sem garantia, como cartões de crédito. Analistas de mercado enxergam essa transição como positiva do ponto de vista estrutural: menor dependência de um único produto, maior diversificação e foco em linhas com melhor retorno ajustado ao risco.

Há, porém, um ponto de atenção que o próprio PicPay não esconde. O índice de inadimplência acima de 90 dias subiu de 6,0% em setembro para 7,2% em dezembro de 2025. André Cazotto, diretor de Relações com Investidores da companhia, afirmou em entrevista que a inadimplência deve subir “um pouco” nos próximos meses, refletindo a maturação natural da carteira e as mudanças no mix de produtos.

Esse movimento era esperado e, em certa medida, já estava precificado pelos analistas mais atentos. A aceleração do consignado privado exige um período de adaptação — e as provisões para devedores duvidosos, que vieram 10% acima do esperado no trimestre, refletem exatamente essa dinâmica de transição.


O que Bank of America e Citi dizem sobre o PICS

Mesmo diante da queda expressiva das ações nesta sessão, os dois grandes bancos que cobrem o PicPay mantiveram suas recomendações de compra — e os argumentos de ambos merecem atenção.

O Bank of America (BofA) avaliou que os resultados do quarto trimestre de 2025 reforçam a confiança na capacidade de execução da companhia. Para o banco americano, o desempenho apresentado e o guidance divulgado para o primeiro trimestre de 2026 indicam que o PicPay está no caminho para entregar um plano ambicioso — que inclui crescimento de aproximadamente 100% no lucro líquido ao longo de 2026. A recomendação de compra foi mantida.

O Citi, por sua vez, classificou o balanço como um início sólido da fintech como empresa listada, com resultados acima das expectativas tanto em lucro quanto em expansão de carteira. O banco destacou que a qualidade dos ativos “parece sob controle” e que o índice de eficiência ajustado segue abaixo de 50% — um indicador de produtividade operacional relevante no setor financeiro. A tese de investimento do Citi está ancorada em um modelo de negócios com spread relevante entre retorno e custo de capital, o que justificaria, na visão do banco, um valuation mais elevado para os papéis. Os múltiplos projetados são de aproximadamente 21,1 vezes lucro para 2026 e 9,1 vezes para 2027.

A convergência de visão entre dois bancos de primeira linha sugere que a queda desta quinta-feira está mais relacionada ao ambiente externo do que a qualquer deterioração dos fundamentos do PicPay.


O guidance para o primeiro trimestre de 2026

A companhia também apresentou suas projeções para o primeiro trimestre de 2026, e os números sinalizam continuidade do crescimento. O lucro líquido projetado é de R$ 140 milhões — ou R$ 155 milhões em termos ajustados. A carteira de crédito deve alcançar R$ 26,5 bilhões, ante R$ 24,1 bilhões ao final de 2025, representando uma expansão de aproximadamente 10% em um único trimestre.

A receita total esperada é de R$ 3,15 bilhões, com margem financeira líquida de R$ 1,65 bilhão. O lucro bruto deve alcançar R$ 1,09 bilhão, enquanto o resultado antes de impostos (EBT) é estimado entre R$ 215 milhões e R$ 235 milhões.

Se entregues, esses números colocam o PicPay em trajetória consistente com as projeções de crescimento de 100% no lucro para o ano completo — o que transformaria 2026 em um ano definitivo para a consolidação da tese de investimento da companhia.


Os riscos que o mercado não pode ignorar

Nenhuma análise honesta sobre o PicPay pode ignorar os fatores de risco que cercam a tese de investimento. A própria companhia e os analistas que a cobrem são explícitos a esse respeito.

Entre os principais pontos de atenção estão: a execução da expansão do crédito com manutenção da qualidade dos ativos, possíveis mudanças regulatórias que afetem produtos específicos — como já ocorreu com o saque-aniversário do FGTS —, exigências adicionais de capital, aumento da concorrência em um setor que atrai novos entrantes com frequência, e o impacto cambial.

Este último merece atenção especial: o PicPay reporta seus resultados em reais, mas negocia suas ações em dólar na Nasdaq. Isso significa que a percepção de valor pelos investidores americanos é diretamente influenciada pela taxa de câmbio — e em um cenário de pressão sobre o real, como o que os mercados enfrentam atualmente, esse descasamento pode amplificar movimentos de queda nos papéis, mesmo quando os resultados operacionais são sólidos.


PICS, Nasdaq e o teste real de uma fintech brasileira no mercado global

A queda de 22% nas ações do PicPay nesta quinta-feira não conta a história completa da companhia — e os investidores com horizonte de médio e longo prazo sabem disso. O que o pregão desta sessão revela, na realidade, é o grau de exposição ao qual fintechs emergentes estão sujeitas quando estreiam em mercados globais em momentos de elevada volatilidade macroeconômica.

O PicPay chegou à Nasdaq com fundamentos que seus pares internacionais gostariam de apresentar: crescimento acelerado de receita, rentabilidade em expansão, base de clientes robusta e estratégia clara de monetização. Esses elementos não desapareceram com a queda de hoje — eles simplesmente foram temporariamente eclipsados por forças maiores do que qualquer balanço trimestral.

O verdadeiro teste da companhia começa agora: entregar, ao longo dos próximos trimestres, a consistência que seus números mais recentes prometem.

LEIA MAIS

Dinheiro Esquecido - Gazeta Mercantil
Economia

Dinheiro esquecido em bancos chega a R$ 5,8 bilhões; veja como sacar

O Banco Central (BC) informou nesta terça-feira (13) que ainda há R$ 5,79 bilhões em dinheiro esquecido em bancos e outras

Leia MaisDetails
Motos (Foto De Paulo Pinto, Abr)
Economia

Produção de motos tem melhor setembro desde 2011 e cresce 10,4%, diz Abraciclo

No mês de setembro, a indústria brasileira de motocicletas cresceu 10,4% em relação ao ano anterior, com 186.758 unidades produzidas

Leia MaisDetails
Lula - Gazeta Mercantil
Economia

Governo anuncia Pix de até R$ 5 mil para MEIs e propõe perdão de dívidas

A menos de duas semanas para o segundo turno das eleições, o governo federal anunciou nesta terça-feira (13) o “Prospera MEI”, um pacote de medidas

Leia MaisDetails
Boletim Focus: Mercado Corta Projeção Da Inflação De 2026 Para 5,30% - Gazeta Mercantil
Economia

Boletim Focus: inflação de 2026 sobe para 5,22% e Selic projetada cai a 13,25%

Índice apresentou alta de 0,21 ponto percentual, indo par 5,22%; Selic e câmbio registraram queda nos resultados desta semana com estimativa de encerrar o ano em 13,25% e...

Leia MaisDetails
Plano Econômico De Flávio Bolsonaro Levanta Suspeitas De Estelionato Eleitoral - Gazeta Mercantil - Economia
Economia

Plano econômico de Flávio Bolsonaro levanta suspeitas de estelionato eleitoral

O programa econômico de Flávio Bolsonaro (PL) para um eventual governo a partir de 2027 passou a ser questionado pela falta de detalhamento sobre como o candidato pretende...

Leia MaisDetails

GAZETA MERCANTIL ENCERRADO

20:12:42
IBOV

IBOVESPA

B3
Consultando... buscando última cotação
$

DÓLAR

USD/BRL
Consultando... buscando última cotação
€

EURO

EUR/BRL
Consultando... buscando última cotação
₿

BITCOIN

BRL
Consultando... buscando última cotação
Gazeta Mercantil · dados de mercado
Sênior Sistemas Sênior Sistemas Sênior Sistemas
PUBLICIDADE

Veja Também

Taxa De Juros - Gazeta Mercantil
Mercados

Juros futuros sobem mais de 20 pontos-base após pesquisas eleitorais

Leia MaisDetails
Nunes Marques - Gazeta Mercantil
Política

Advogados acusam Nunes Marques de favorecer Flávio Bolsonaro em decisões do TSE

Leia MaisDetails
Lula - Gazeta Mercantil
Política

MDB: dez diretórios declaram apoio a Lula, enquanto outra ala se alinha a Flávio Bolsonaro

Leia MaisDetails
Dinheiro Esquecido - Gazeta Mercantil
Economia

Dinheiro esquecido em bancos chega a R$ 5,8 bilhões; veja como sacar

Leia MaisDetails
Brasileiros Conservadores - Gazeta Mercantil
Política

Conservadorismo no Brasil atinge maior nível desde 2018, aponta Ipsos-Ipec

Leia MaisDetails

EDITORIAS

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco
Gazeta Mercantil Logo White

contato@gazetamercantil.com

Gazeta Mercantil — marca jornalística fundada em 1920, com continuidade editorial contemporânea no ambiente digital por meio do domínio oficial gazetamercantil.com.

EDITORIAS

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco

Veja Também:

Juros futuros sobem mais de 20 pontos-base após pesquisas eleitorais

Advogados acusam Nunes Marques de favorecer Flávio Bolsonaro em decisões do TSE

MDB: dez diretórios declaram apoio a Lula, enquanto outra ala se alinha a Flávio Bolsonaro

Dinheiro esquecido em bancos chega a R$ 5,8 bilhões; veja como sacar

Conservadorismo no Brasil atinge maior nível desde 2018, aponta Ipsos-Ipec

Dólar hoje (13/10): moeda fecha a R$ 5,02, sobe 0,74% e contraria queda no exterior após pesquisas eleitorais

  • Anuncie Conosco
  • Política de Correções
  • Política Editorial
  • Política de Privacidade
  • Termos de Uso
  • Sobre a Gazeta Mercantil
  • Expediente
  • Política de Conflitos de Interesse

© 2026 GAZETA MERCANTIL - Marca jornalística fundada em 1920. Site oficial: gazetamercantil.com - Todos os direitos reservados. - ISSN 1519-0129 - contato@gazetamercantil.com - Grupo SMEdit - Av.Paulista 777 - Bela Vista - São Paulo - SP

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco

© 2026 GAZETA MERCANTIL - Marca jornalística fundada em 1920. Site oficial: gazetamercantil.com - Todos os direitos reservados. - ISSN 1519-0129 - contato@gazetamercantil.com - Grupo SMEdit - Av.Paulista 777 - Bela Vista - São Paulo - SP