Risco de Exclusão do Brasil do SWIFT Gera Alerta no Mercado Financeiro
Nas últimas semanas, o mercado financeiro brasileiro tem vivido um cenário de instabilidade e atenção redobrada diante da possibilidade — ainda que remota — de exclusão do Brasil do sistema SWIFT, a principal rede de comunicação financeira internacional. Embora o país ainda não esteja formalmente na mira de sanções que justifiquem essa medida extrema, os efeitos de um possível afastamento do SWIFT já se manifestam no comportamento de instituições financeiras, investidores e autoridades do setor econômico.
O que é o sistema SWIFT?
O SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication) é uma rede de comunicação internacional que conecta mais de 11 mil instituições financeiras em mais de 200 países. Sediado na Bélgica, o SWIFT funciona como uma linguagem universal segura para a realização de transações financeiras, como transferências internacionais, pagamentos interbancários, operações cambiais e emissões de cartas de crédito.
Mais do que apenas um meio de envio de mensagens, o SWIFT é considerado a espinha dorsal das transações financeiras globais. Sem ele, bancos e empresas enfrentam grandes dificuldades para operar em escala internacional.
SWIFT é controlado pelos EUA?
Diferente do que muitos imaginam, o SWIFT não é controlado unilateralmente pelos Estados Unidos. A organização é supervisionada por reguladores europeus e atua como uma entidade independente. No entanto, como boa parte das transações globais envolve o dólar americano, sanções impostas pelos EUA podem afetar indiretamente o uso do sistema SWIFT, especialmente por instituições financeiras que temem retaliações ao manter relações com países sancionados.
Por que surgiu o risco de exclusão do Brasil do SWIFT?
O temor de que o Brasil possa ser retirado do SWIFT ganhou força após um endurecimento diplomático entre o governo brasileiro e os Estados Unidos. As tensões aumentaram especialmente após a aplicação de sanções contra autoridades brasileiras com base na Lei Magnitsky, que prevê punições a envolvidos em violações de direitos humanos e corrupção.
Embora essas sanções tenham sido direcionadas a indivíduos específicos, o clima de incerteza levou a especulações sobre a possibilidade de medidas mais abrangentes. Especialistas avaliam que, mesmo sem exclusão formal do sistema, o Brasil pode estar sofrendo um processo de isolamento financeiro silencioso, algo que já ocorreu com países como Irã e Rússia antes de sua retirada oficial do SWIFT.
Casos anteriores: Rússia e Irã
A exclusão da Rússia do SWIFT, em 2022, ocorreu como parte de uma resposta internacional à invasão da Ucrânia. Bancos russos foram desconectados do sistema, o que dificultou severamente suas operações financeiras internacionais, resultando em fuga de capitais e desvalorização da moeda local.
Já o Irã enfrentou a exclusão do SWIFT em duas ocasiões: 2012 e 2018, por conta de seu programa nuclear. A medida causou colapso nas importações, escassez de produtos e isolamento comercial.
Esses dois precedentes evidenciam que o SWIFT pode ser usado como uma ferramenta de pressão geopolítica. Contudo, é importante frisar que as situações de Rússia e Irã envolviam violações graves de acordos internacionais e ameaças à segurança global — o que não se aplica ao Brasil neste momento.
O cenário brasileiro é diferente
O Brasil não está envolvido em conflitos armados, tampouco possui programas nucleares questionados pela comunidade internacional. Não há, até agora, movimentações formais da União Europeia, ONU ou EUA para aplicar uma sanção multilateral contra o país. Por isso, a exclusão do SWIFT ainda é considerada um risco remoto.
Porém, o problema não está apenas em sanções formais. O mercado já começa a sentir os reflexos de um boicote informal por parte de instituições financeiras internacionais, que evitam transações com entidades brasileiras para não se expor a possíveis sanções secundárias.
Sanções secundárias e seus efeitos
As chamadas sanções secundárias são punições aplicadas a empresas ou bancos estrangeiros que fazem negócios com entidades sancionadas pelos EUA. A mera suspeita de envolvimento já basta para que muitas instituições passem a adotar postura preventiva, recusando transferências, limitando acesso ao dólar ou encerrando relações comerciais.
Bancos brasileiros, como Itaú, Bradesco e BTG Pactual, já vêm revisando suas políticas de compliance para garantir que não sejam penalizados por ligações com autoridades ou instituições alvo de sanções. Essa cautela, embora compreensível, cria um ambiente de insegurança jurídica e financeira que afeta diretamente o fluxo de capitais.
Como isso afeta o mercado brasileiro?
O clima de incerteza tem efeitos concretos:
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Dificuldade no acesso a crédito internacional
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Desvalorização do real diante da menor entrada de dólares
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Redução no investimento estrangeiro direto
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Cautela por parte de empresas multinacionais
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Complicações em importações e exportações
Empresas que dependem de operações internacionais já relatam atrasos em pagamentos, exigência de novas garantias e aumento de custos para realização de transferências.
O que o governo pode fazer?
Para afastar o risco e restaurar a confiança no Brasil como player global, especialistas recomendam ações imediatas em duas frentes:
1. Segurança jurídica
É necessário garantir que regras sejam claras, previsíveis e respeitadas. A segurança institucional é um dos principais fatores observados por investidores internacionais.
2. Diálogo diplomático
Restauração das relações com os EUA e demais aliados, por meio de canais diplomáticos ativos, pode evitar que a crise escale para medidas mais graves.
O que os bancos estão fazendo?
Diante do cenário, as principais instituições financeiras brasileiras adotaram as seguintes medidas:
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Fortalecimento de políticas de compliance
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Monitoramento reforçado de operações com entidades públicas
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Revisão de contratos internacionais
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Análise de risco geopolítico nas carteiras de crédito
Essas ações buscam evitar envolvimento com qualquer operação que possa violar restrições impostas por países como os Estados Unidos.
O que as empresas devem fazer?
Empresas com atuação internacional ou que dependem de insumos importados devem:
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Diversificar fontes de financiamento
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Ampliar relações com bancos fora dos EUA
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Investir em estrutura de compliance e auditoria
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Acompanhar com atenção os desdobramentos diplomáticos
O risco de exclusão do Brasil do sistema SWIFT ainda é considerado baixo, mas os impactos já sentidos no mercado financeiro acendem um sinal amarelo. O temor de sanções secundárias e o isolamento informal podem comprometer a confiança internacional no país, afetando o fluxo de investimentos e o crescimento econômico.
Manter o Brasil plenamente integrado ao sistema financeiro global exige ação coordenada entre setor público, bancos e iniciativa privada. É hora de atuar com firmeza para proteger a economia e garantir estabilidade em meio às turbulências geopolíticas.






