Selic 2026 pode encerrar o ano em 11% com cortes acelerados, avaliam gestores
SÃO PAULO — Gestores de investimentos passaram a revisar suas projeções para a Selic 2026, sugerindo que a taxa básica de juros brasileira pode encerrar o ano em 11% ao ano, abaixo do consenso de mercado de 12%. A análise foi apresentada nesta quarta-feira (25) em evento do BTG Pactual, refletindo debate sobre inflação, crescimento econômico e política fiscal, com repercussões diretas sobre crédito, mercado de capitais e investimentos no Brasil.
Bruno Serra, ex-diretor de política monetária do Banco Central (BC) e atual gerente de portfólios do Itaú Asset Management, aponta para um ciclo de cortes mais acelerado, sustentado por indicadores de inflação controlada e desaceleração econômica. “A Selic deve terminar o ano em 11%, no mínimo”, afirmou Serra, ressaltando que o primeiro corte pode ocorrer já em maio, seguido por ajustes adicionais de 0,75 ponto percentual a partir de junho.
Cenário de inflação e crescimento econômico
O gestor destacou que a inflação deve permanecer em torno de 3% até outubro e fechar 2026 em 3,5%, enquanto o PIB aproxima-se do potencial, estimado em 2%, impulsionado principalmente pelo agronegócio e pelo setor mineral, com empresas como Vale e Petrobras mantendo desempenho robusto.
“Excluindo agro e minérios, o restante da economia com potencial inflacionário está em 1,5% e desacelerando. O mercado de trabalho também desacelera e os salários, embora ainda fortes, devem ceder à medida que a inflação se aproxima da meta. Mas o juro atual está em 15%”, disse Serra, argumentando que o contexto justifica cortes mais agressivos da Selic.
Juro neutro e política monetária
O conceito de juro neutro é central na análise. Trata-se da taxa real que equilibra crescimento econômico e estabilidade de preços. Estima-se que o juro neutro do BC seja 8,5%, enquanto o mercado calcula 9,5%. Serra projeta que a Selic deve convergir para um nível próximo de 11% ao fim de 2026, permitindo estímulo econômico sem pressionar a inflação.
Christiano Chadad, sócio e gestor do BTG Volt, reforça a necessidade de cautela durante o calendário eleitoral: “Cortar durante o processo eleitoral não faz parte da história do Brasil”, disse, indicando que a trajetória da Selic seguirá critérios técnicos, ainda que com espaço para ajustes.
Perspectiva internacional e comparativo com emergentes
Marco Freire, gestor da Kinea, questiona o patamar de 12% projetado pelo mercado, considerando-o elevado frente a outros emergentes. México opera com inflação de 4% e juros em torno de 6,5%; África do Sul registra 3% de inflação e juros de 6%. “Quando falamos de Selic em 12%, é praticamente o dobro do juro desses países”, disse.
Apesar do endividamento mais elevado do Brasil, a solidez institucional permite que cortes da Selic sejam feitos sem comprometer credibilidade, reforçando a possibilidade de ajustes acelerados.
Política fiscal e risco de gastos
O ritmo de cortes da Selic depende diretamente da política fiscal. Caso o governo adote gastos adicionais, o ciclo de redução do juro básico pode ser comprometido. Chadad alerta que a combinação de despesas elevadas com juros altos é insustentável a médio prazo, podendo levar a um cenário de “dominância fiscal”, em que o BC precisa priorizar a contenção da dívida sobre a inflação.
“O próximo governo, mesmo que seja Lula, terá dificuldades em manter altos níveis de gasto. Vamos bater em um muro de dívida e talvez voltar a falar em dominância fiscal”, disse o gestor.
Evolução da Selic e boletim Focus
O último boletim Focus reduziu a previsão para a Selic terminal de 12,25% para 12,13%, primeira queda em mais de quatro meses. A cautela do BC permanece evidente: o presidente Gabriel Galípolo reforçou que a palavra-chave é “calibragem”, evitando sinalizações que possam gerar volatilidade no mercado.
“Qualquer sinalização prematura corre o risco de ser frustrada e causar mais dano do que ajudar”, disse Galípolo, mencionando incertezas globais, política dos EUA e eleições brasileiras como fatores de risco.
Impacto sobre crédito, investimentos e mercado
A expectativa de cortes mais rápidos na Selic 2026 influencia diretamente crédito, investimentos e mercado de capitais. Redução do juro básico tende a estimular consumo, baratear empréstimos e atrair investimentos privados, enquanto manutenção em patamares altos mantém inflação sob controle, mas restringe crescimento econômico.
Especialistas recomendam atenção constante a dados de inflação, PIB e evolução do mercado de trabalho, reforçando que decisões do Copom permanecerão guiadas pelo equilíbrio entre crescimento e estabilidade de preços.
Cenário político e estabilidade econômica
O debate sobre Selic 2026 evidencia a complexidade da condução de política monetária em um ambiente de inflação controlada, crescimento moderado e instabilidade política. A atuação do Banco Central será determinante para manter a estabilidade econômica e confiança do mercado, com impactos diretos no custo de capital e na atratividade de ativos financeiros.
O consenso de analistas permanece divergente, mas há convergência sobre a necessidade de ajustes graduais e bem calibrados, refletindo a prioridade de alinhar juros, crescimento e responsabilidade fiscal.





