Moody’s projeta estabilidade para o sistema bancário brasileiro até 2027, mesmo com cenário político incerto
O sistema bancário brasileiro mantém-se como um dos mais sólidos entre as economias emergentes, segundo avaliação da agência de classificação de risco Moody’s. A instituição reafirmou sua perspectiva estável para o setor nos próximos 12 a 18 meses, citando lucros robustos, capitalização adequada e controles prudenciais que equilibram os riscos de crédito e o crescimento econômico mais lento previsto para o período.
A análise da Moody’s indica que, apesar das incertezas eleitorais de 2026 e da expectativa de juros ainda em dois dígitos até o fim do ano, o sistema bancário brasileiro deve resistir sem grandes pressões estruturais. O Produto Interno Bruto (PIB) nacional tende a crescer em torno de 2,0% entre 2026 e 2027, um ritmo moderado mas suficiente para sustentar a rentabilidade dos bancos.
Lucros e capital fortalecem estabilidade do sistema bancário brasileiro
De acordo com o relatório, a geração consistente de lucros e capital deve compensar o ambiente macroeconômico menos dinâmico. Os bancos mantêm níveis elevados de provisões para perdas e continuam expandindo reservas regulatórias, prática que reforça a confiança no setor.
A Moody’s observa que o sistema bancário brasileiro opera sob uma arquitetura prudencial robusta, resultado de décadas de aperfeiçoamentos nas regras de supervisão. Essa solidez contribui para manter a nota de crédito do setor em território estável, mesmo em um cenário de volatilidade política e riscos fiscais persistentes.
Em termos de governança, as principais instituições ampliaram a eficiência de seus controles internos, o que sustenta o perfil de crédito. A conjunção entre lucratividade, capitalização e liquidez torna o ambiente bancário brasileiro comparativamente mais seguro que o de diversas economias latino-americanas.
Ano eleitoral e desafios econômicos
O ano eleitoral de 2026 tende a introduzir volatilidade ao ambiente econômico. A agência afirma que o ambiente operacional dos bancos pode sofrer impacto temporário sobre a confiança empresarial e nas decisões de investimento.
Mesmo assim, a Moody’s não antevê deterioração estrutural, destacando que o sistema bancário brasileiro possui resiliência para absorver eventuais choques. A originação de crédito, embora com leve desaceleração, seguirá suportada pela ampla liquidez e pelos níveis saudáveis de capital acumulados nos últimos ciclos.
A inadimplência, entretanto, continuará no radar: os empréstimos em atraso (NPLs) devem se manter elevados, sobretudo entre pequenas e médias empresas, pressionando a rentabilidade de curtíssimo prazo.
Inadimplência e taxas de juros: o equilíbrio delicado do crédito
A inadimplência elevada e os juros ainda altos constituem o principal ponto de atenção para o sistema bancário brasileiro em 2026. A manutenção da Selic em dois dígitos prolonga o custo do crédito, limitando a expansão de novos empréstimos.
Segundo analistas, os bancos vêm priorizando concessões com garantias reais e apostando em produtos de menor risco. Esse movimento reflete uma postura prudente frente ao endividamento das famílias e de setores empresariais de menor porte.
A Moody’s salienta ainda o impacto das novas regras do IFRS 9, que exigem maior rigor na contabilização de créditos duvidosos e ampliam o prazo de baixa de ativos problemáticos. Essa medida, embora aumente a transparência, tende a intensificar a percepção de risco sobre o balanço das instituições.
Perspectivas para a rentabilidade bancária
Mesmo sob um cenário de crescimento econômico moderado, a rentabilidade das instituições financeiras deve continuar resiliente. O controle rigoroso de despesas operacionais e a diversidade das fontes de receita — especialmente provenientes de tarifas e operações de mercado de capitais — ajudam a mitigar os efeitos de um ciclo monetário prolongado.
Para 2026 e 2027, a Moody’s estima que o sistema bancário brasileiro manterá retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) estável, mesmo em meio ao desaquecimento da originação de crédito. A combinação de receitas recorrentes e gestão eficiente do risco de crédito forma o pilar central dessa estabilidade.
Outro fator relevante é a capitalização sólida. A geração interna de capital segue fortalecendo os colchões regulatórios, assegurando margem de segurança adicional diante da alta de inadimplência, sem comprometer o cumprimento das exigências prudenciais.
Liquidez e captação: alicerces do sistema bancário brasileiro
No campo da liquidez, o diagnóstico da Moody’s é amplamente positivo. O avanço dos pagamentos eletrônicos e instantâneos tem impulsionado depósitos de baixo custo, reduzindo a dependência de fontes de captação mais caras. Essa dinâmica favorece a rentabilidade e garante estabilidade ao funding.
O relatório acrescenta que as recomposições no Fundo Garantidor de Créditos (FGC) não representam ameaça relevante à liquidez até 2026. Os grandes bancos nacionais seguem com margens confortáveis, alavancadas pela confiança sustentada de investidores institucionais e clientes corporativos.
Participação do governo e riscos fiscais
Apesar do elevado apoio governamental aos bancos sistêmicos, a Moody’s ressalta que a frágil posição fiscal do país pode limitar a capacidade de intervenção em um cenário de estresse severo.
Ainda assim, o sistema bancário brasileiro mantém vantagem estrutural: sua importância estratégica para o financiamento público e privado assegura um alto grau de suporte implícito. Os bancos de grande porte continuarão desempenhando papel essencial na estabilidade financeira e no equilíbrio das políticas econômicas.
Macroeconomia moderada e inflação sob controle
A perspectiva macroeconômica reforça o diagnóstico de estabilidade. A inflação projetada em torno de 4,3% em 2026 aproxima-se do centro da meta, possibilitando cortes graduais de juros. O desemprego segue em patamar historicamente baixo — cerca de 5,2% até o final de 2025 — mantendo o consumo doméstico relativamente firme.
Apesar disso, o elevado ônus tributário e a incerteza política tendem a restringir investimentos produtivos de longo prazo, o que impede um avanço mais acelerado do PIB. Mesmo assim, a Moody’s observa que o sistema bancário brasileiro consegue equilibrar rentabilidade e prudência nesse cenário, com foco crescente em eficiência operacional e digitalização.
O papel estratégico do sistema bancário brasileiro na transição econômica
A força do sistema bancário brasileiro vai além da estabilidade conjuntural: ele atua como eixo da transição para um ambiente econômico mais digital, integrado e sustentável. A Moody’s prevê que o país será destaque regional no mercado de financiamento sustentável, impulsionado por políticas verdes e inovação tecnológica.
Bancos têm ampliado linhas de crédito voltadas para projetos ambientais, sociais e de governança (ESG), o que reforça a imagem do sistema como agente de transformação econômica. Essa agenda, segundo a agência, posiciona o Brasil como líder latino-americano em sustentabilidade financeira até 2027.
Em suma, a Moody’s entende que o sistema bancário brasileiro reúne fundamentos sólidos, governança consistente e margens adequadas para resistir aos ciclos políticos e econômicos de curto prazo. A resiliência fiscal e a modernização tecnológica sustentam a confiança internacional no setor, consolidando o país entre os principais players financeiros emergentes.






