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Rating do BRB é rebaixado pela S&P sob risco reputacional e incertezas do Caso Master

por Alice Nascimento - Repórter de Negócios
30/01/2026
em Business, Destaque, News
Rating Do Brb É Rebaixado Pela S&Amp;P Sob Risco Reputacional E Incertezas Do Caso Master - Gazeta Mercantil

S&P rebaixa rating do BRB e mantém viés negativo diante de risco reputacional e incertezas sobre capital

O cenário financeiro para as instituições públicas estaduais brasileiras enfrenta um novo capítulo de tensão e reavaliação de riscos. Em um movimento que reverbera fortemente no mercado de crédito e entre investidores institucionais, a agência de classificação de risco S&P Global Ratings anunciou uma revisão drástica na nota de crédito do Banco de Brasília. A decisão resultou no rebaixamento do rating do BRB, refletindo uma deterioração nas perspectivas de capitalização e, sobretudo, o agravamento do risco reputacional que cerca a instituição financeira.

Esta alteração na nota de crédito não é apenas um ajuste técnico; ela sinaliza ao mercado que a percepção de segurança sobre os ativos do banco mudou. O rating do BRB serve como uma bússola para investidores que compram títulos da dívida do banco, como CDBs, LCIs, LCAs e Letras Financeiras. Quando essa nota cai, o custo de captação tende a subir, pressionando as margens da instituição e exigindo uma gestão de passivos muito mais rigorosa. A manutenção da observação negativa (CreditWatch negative) indica que o fundo do poço pode ainda não ter sido alcançado, dependendo dos desdobramentos das investigações em curso.

O Rebaixamento: Entendendo os Novos Níveis

A S&P foi enfática em sua análise técnica. Os ratings de emissor de longo e curto prazo na Escala Nacional Brasil sofreram cortes significativos. A nota de longo prazo despencou de ‘brBBB-‘ para ‘brBB’, enquanto a de curto prazo foi ajustada de ‘brA-3’ para ‘brB’. Essa mudança retira o rating do BRB de um patamar de grau de investimento local mais confortável e o coloca em uma zona de maior especulação, onde a capacidade de honrar compromissos financeiros é vista como mais vulnerável a condições adversas econômicas ou operacionais.

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O rebaixamento do rating do BRB é uma resposta direta e imediata aos eventos deflagrados em novembro de 2025, especificamente a Operação Compliance Zero da Polícia Federal. A investigação, que apura supostas fraudes envolvendo ativos adquiridos pelo BRB junto ao Banco Master, lançou uma sombra de dúvida sobre a qualidade do balanço da instituição estatal. Para as agências de risco, a incerteza é o pior dos venenos. Não saber a extensão real do “buraco” ou a qualidade dos ativos comprados impede uma precificação justa, forçando a agência a adotar uma postura conservadora e punitiva em relação à nota de crédito.

Operação Compliance Zero: O Epicentro da Crise

A Operação Compliance Zero não é apenas um caso policial; é um evento de risco corporativo com potencial de contágio sistêmico para o banco. A investigação da Polícia Federal sugere que operações complexas de compra de carteiras e ativos do Banco Master podem ter sido realizadas sem a devida diligência ou, pior, em condições fraudulentas. Isso afeta diretamente o rating do BRB porque coloca em xeque a governança corporativa da instituição.

O risco reputacional, citado exaustivamente pela S&P, é um ativo intangível que, quando danificado, tem efeitos financeiros muito tangíveis. Bancos vivem de confiança. Quando essa confiança é abalada por investigações de fraude, parceiros comerciais, investidores de atacado e até depositantes institucionais tendem a revisar suas exposições. A persistência desse risco reputacional foi um dos principais vetores para a decisão da S&P de manter o banco em observação negativa. Enquanto não houver clareza sobre o desfecho das investigações e a real integridade dos ativos adquiridos, o rating do BRB continuará sob pressão severa.

Pressão sobre o Capital Regulatório

Um dos pontos nevrálgicos levantados pela S&P para justificar o corte no rating do BRB é a pressão sobre o capital regulatório (Índice de Basileia). Se as investigações confirmarem que os ativos adquiridos do Banco Master são “podres” ou valem substancialmente menos do que o registrado contabilmente, o BRB terá que realizar provisões para devedores duvidosos (PDD) ou dar baixa desses ativos (write-off). Isso impacta diretamente o lucro líquido e, consequentemente, o Patrimônio Líquido do banco.

Com um patrimônio menor, o índice de capitalização cai. Se cair abaixo dos mínimos regulatórios exigidos pelo Banco Central, a instituição entra em desenquadramento, o que pode levar a intervenções ou restrições operacionais severas. A S&P antecipa esse cenário em sua análise do rating do BRB, alertando que a cobertura de perdas potenciais pode exigir medidas drásticas e imediatas para recomposição de capital.

Entre as alternativas na mesa para tentar sustentar o rating do BRB e a solvência do banco, estão a venda de carteiras de crédito performadas (o que reduz a capacidade futura de gerar receita), a alienação dos próprios ativos sob investigação (se houver mercado para eles), ou a busca por suporte externo.

O Dilema do Suporte Governamental

O Governo do Distrito Federal (GDF) detém 53,71% do capital social do BRB. Em teoria, ser um banco estatal confere uma camada de proteção implícita, pois espera-se que o controlador (o Estado) não deixe o banco quebrar. A S&P considera essa possibilidade de “suporte extraordinário” em seu cenário-base para a definição do rating do BRB. A relevância histórica e estratégica do banco para o desenvolvimento regional do Centro-Oeste é inegável.

No entanto, a agência de classificação de risco é pragmática. O apoio governamental não é automático. Ele depende de vontade política e, mais importante, de aprovações legislativas na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Aporte de capital com recursos do Tesouro distrital em um banco sob investigação policial é uma manobra politicamente custosa e burocraticamente lenta. A S&P ressalta que esse apoio pode não ocorrer de forma tempestiva, ou seja, o dinheiro pode não chegar na velocidade necessária para estancar uma crise de liquidez ou solvência, o que mantém o rating do BRB em zona de perigo.

Além do aporte direto, especula-se sobre uma linha de financiamento com o Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Embora seja uma ferramenta disponível para dar liquidez, o uso de recursos do FGC por um banco desse porte seria um sinal de estresse agudo, o que, paradoxalmente, poderia pressionar ainda mais a percepção de risco e o rating do BRB no curto prazo.

Funding e Liquidez: A Resiliência Testada

A estrutura de funding (captação de recursos) do BRB é um dos poucos pilares que ainda oferecem alguma sustentação, embora não sejam imunes à crise. Em junho de 2025, o banco reportava R$ 67,3 bilhões em recursos captados. A composição desse passivo é crucial para entender a estabilidade do rating do BRB frente a uma corrida bancária ou retirada de investidores.

Cerca de 35% desse montante está em CDBs (Certificados de Depósito Bancário) e expressivos 28,9% em depósitos judiciais. Os depósitos judiciais são considerados uma fonte de funding estável e de baixo custo, pois dependem da morosidade da justiça e não da vontade de um investidor de sacar o dinheiro amanhã. Essa “gordura” de liquidez ajuda a mitigar o impacto imediato das más notícias sobre o rating do BRB.

Além disso, a agência notou que mais de 85% dos depósitos a prazo não possuem cláusula de resgate antecipado (liquidez diária). Isso significa que o dinheiro está “travado” no banco até o vencimento, dando à tesouraria do BRB tempo para gerenciar o fluxo de caixa. A S&P observa que, apesar das pressões, o banco manteve relacionamento com plataformas de distribuição de investimentos, essencial para rolar as dívidas que vencem. Contudo, qualquer fechamento dessas “torneiras” de captação devido ao risco reputacional teria um efeito devastador sobre o rating do BRB.

Impactos Estratégicos e Operacionais

O rebaixamento do rating do BRB para o nível ‘brBB’ tem consequências que vão além do financeiro; elas afetam a estratégia de longo prazo. Segundo a S&P, o foco da alta administração, que deveria estar na expansão, inovação e ganho de market share, agora é forçosamente desviado para a gestão de crise e defesa legal.

O “contexto atual pode comprometer o foco estratégico do banco”, afirma o relatório. Em um mercado bancário altamente competitivo, com fintechs e grandes bancos privados investindo pesado em tecnologia, um banco estatal paralisado por investigações e com o rating do BRB rebaixado perde competitividade. A tendência é de redução do portfólio de crédito (desalavancagem) para preservar capital, o que limita a geração de novos negócios e comprime a rentabilidade futura. Menos lucro significa menos capacidade de gerar capital organicamente, criando um ciclo vicioso negativo para a nota de crédito.

A incerteza sobre a qualidade dos ativos no balanço é o “elefante na sala”. Enquanto auditorias independentes ou a própria Polícia Federal não esclarecerem o valor real do que foi comprado do Banco Master, o mercado aplicará um deságio (haircut) implícito sobre o valor patrimonial do banco, mantendo o rating do BRB deprimido.

O Significado do CreditWatch Negativo

A manutenção do CreditWatch negativo (observação negativa) pela S&P é um aviso claro: o pior pode não ter passado. Essa sinalização indica uma probabilidade de um novo rebaixamento do rating do BRB no curto prazo, especificamente nos próximos 90 dias.

As condições para esse novo corte são claras. Se surgirem “informações adicionais da investigação” que impactem a geração de negócios, ou se houver uma deterioração mais rápida do capital e da liquidez, a nota cairá novamente. O mercado financeiro odeia o fluxo de notícias negativas “a conta-gotas”, e a Operação Compliance Zero tem potencial para revelar novos fatos a qualquer momento.

A S&P foi transparente ao afirmar que só retirará o rating do BRB da observação negativa quando houver “maior previsibilidade sobre a extensão dos efeitos do caso”. Traduzindo do “economês”: a agência precisa saber o tamanho exato do prejuízo financeiro e jurídico antes de estabilizar a nota. Até lá, a volatilidade será a regra para os títulos do banco.

Governança e o Futuro do BRB

Este episódio serve como um duro teste de estresse para a governança de bancos públicos no Brasil. A facilidade com que operações, agora sob suspeita, foram aprovadas levanta questionamentos sobre os comitês de risco e de crédito que antecederam a crise atual do rating do BRB.

A recuperação da nota de crédito exigirá mais do que apenas aportes financeiros; exigirá uma reformulação profunda nos controles internos e, possivelmente, na gestão. O mercado exigirá transparência absoluta para voltar a confiar nos papéis da instituição. O rebaixamento do rating do BRB é um sintoma de uma doença que precisa ser tratada na raiz: a qualidade da gestão de ativos e a blindagem contra operações de alto risco não condizentes com o perfil de um banco de fomento regional.

O rebaixamento do rating do BRB pela S&P Global Ratings é um evento divisor de águas para a instituição em 2026. Ao cortar a nota para ‘brBB’ e manter a perspectiva negativa, a agência chancela a gravidade da situação envolvendo a Operação Compliance Zero e o Banco Master. A pressão sobre o capital, a ameaça à liquidez e, acima de tudo, o risco reputacional persistente, colocam o Banco de Brasília em uma posição defensiva delicada.

Para investidores, a mensagem é de cautela extrema. O suporte do Governo do Distrito Federal é provável, mas não garantido no tempo e na magnitude necessários. Os próximos 90 dias serão cruciais. O mercado observará lupa cada movimento da Polícia Federal, cada decisão legislativa no DF e cada balancete mensal do banco. A estabilidade do rating do BRB depende agora de uma limpeza de balanço rápida e de uma demonstração inequívoca de solidez que, no momento, permanece envolta em incertezas. A história do BRB está sendo reescrita, e o capítulo atual é, sem dúvida, um dos mais desafiadores de sua trajetória.

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