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STF condena irmãos Brazão como mandantes do assassinato de Marielle Franco após oito anos

por Júlia Campos
25/02/2026 às 13h35
em Política
Irmãos Brazão - Gazeta Mercantil

Chiquinho Brazão - Foto: Reprodução

STF condena irmãos Brazão como mandantes do assassinato de Marielle Franco e amplia responsabilização por crime político

A decisão histórica do Supremo Tribunal Federal (STF) que condenou os irmãos Chiquinho Brazão e Domingos Brazão como mandantes do assassinato de Marielle Franco redefine os marcos jurídicos de um dos crimes políticos mais emblemáticos da história recente do país. O julgamento, concluído com formação de maioria na Primeira Turma da Corte, consolida o entendimento de que a execução da vereadora foi motivada por interesses ligados à atuação de milícias e à disputa territorial no Rio de Janeiro.

Com votos firmes dos ministros Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Cármen Lúcia, o colegiado reconheceu a responsabilidade dos réus na articulação do atentado que vitimou Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes, em março de 2018. A decisão ainda não produziu efeitos imediatos quanto à execução das penas, que serão fixadas ao término da votação, mas representa um marco jurídico e político no enfrentamento à infiltração de grupos paramilitares nas estruturas do Estado.

Leia também: IBGE aponta inflação em outubro de 0,09%, a menor em 27 anos.

Julgamento no STF reforça tese de crime político

O julgamento no STF consolidou a classificação do assassinato como crime político. Para os ministros que formaram maioria, a morte da parlamentar foi uma retaliação direta à sua atuação contra interesses ligados à grilagem de terras e à expansão das milícias na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Ao votar pela condenação, a ministra Cármen Lúcia destacou o impacto institucional do caso e afirmou que o assassinato de Marielle Franco “feriu o Brasil inteiro”, mas não comprometeu a democracia. A leitura predominante na Corte foi a de que o crime teve como objetivo silenciar uma voz política ativa, com atuação consistente na fiscalização de práticas ilegais e no enfrentamento de grupos armados.

O ministro Alexandre de Moraes, relator do processo, sustentou que os elementos reunidos ao longo da investigação permitiram identificar a cadeia de comando responsável pelo atentado. Ele também destacou que o contexto do crime revela a tentativa de captura do Estado por organizações criminosas com atuação política e territorial.

Quem foram os condenados

Além dos irmãos Brazão, foram condenados:

  • Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro;

  • Chiquinho Brazão, ex-deputado federal;

  • Rivaldo Barbosa, delegado da Polícia Civil do Rio;

  • Ronald Paulo de Alves, conhecido como “Major Ronald”, ex-policial militar;

  • Robson Calixto Fonseca, o “Peixe”, ex-assessor no TCE.

No caso do delegado Rivaldo Barbosa, o STF entendeu que não houve provas suficientes para confirmar sua participação no planejamento do assassinato de Marielle Franco. Contudo, ele foi condenado por obstrução das investigações, sob a acusação de ter utilizado o cargo para direcionar apurações e dificultar a responsabilização dos envolvidos.

A maioria dos ministros considerou que houve atuação coordenada para garantir impunidade e proteger interesses ligados às milícias.

Assassinato de Marielle Franco e o contexto das milícias

O assassinato de Marielle Franco ocorreu em um momento de intensa disputa territorial na capital fluminense. A vereadora, eleita pelo PSOL, havia se tornado uma das principais vozes no combate à violência policial e à expansão de grupos paramilitares na Zona Oeste do Rio.

Segundo os ministros, a atuação parlamentar da vereadora atingiu interesses econômicos estruturados em torno da grilagem de terras e da exploração imobiliária irregular. O STF reconheceu que o assassinato de Marielle Franco foi uma resposta direta a essa atuação.

Durante o julgamento, ministros também destacaram que fatores como racismo, misoginia e discriminação social compuseram o cenário do crime. A condição de mulher negra, oriunda da periferia e com projeção política nacional, foi apontada como elemento simbólico que intensificou a motivação dos mandantes.

Impacto institucional e repercussão política

A condenação dos irmãos Brazão pelo assassinato de Marielle Franco representa uma resposta institucional após oito anos de investigações, denúncias e questionamentos públicos sobre a elucidação do caso.

Especialistas em direito constitucional avaliam que o julgamento consolida a atuação do STF em processos envolvendo autoridades com foro privilegiado e amplia o entendimento sobre responsabilidade penal em crimes com motivação política.

A decisão também reforça o debate sobre a infiltração das milícias em estruturas do poder público. Durante o julgamento, ministros classificaram o cenário fluminense como alarmante, apontando sinais de captura institucional por organizações criminosas.

Para analistas políticos, o desfecho do caso tem potencial de impactar o cenário eleitoral e o debate sobre segurança pública, governança e integridade institucional.

Próximos passos e possibilidade de recursos

Embora a maioria já tenha sido formada, as penas ainda serão definidas após a conclusão da votação. As defesas poderão apresentar embargos de declaração, recurso destinado a esclarecer pontos da decisão, mas que, em regra, não altera o mérito do julgamento.

Juristas consultados consideram remotas as chances de reversão da condenação, dado o estágio processual e a robustez do conjunto probatório reconhecido pela maioria da Corte.

O significado histórico da decisão

O assassinato de Marielle Franco tornou-se símbolo internacional da luta por direitos humanos e do enfrentamento à violência política no Brasil. A condenação dos mandantes pelo STF estabelece precedente relevante sobre responsabilização em crimes dessa natureza.

Ao classificar o assassinato de Marielle Franco como crime político e reconhecer a motivação ligada à atuação parlamentar, o Supremo sinaliza que atentados contra representantes eleitos não serão tratados como crimes comuns desvinculados do contexto institucional.

O julgamento também reafirma o papel do STF como guardião da Constituição e como instância decisiva em casos que envolvem autoridades com prerrogativa de foro.

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