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Tesouro injeta R$ 42 bi em dois dias e realiza maior intervenção em 13 anos

por Camila Braga
18/03/2026 às 09h00
em Economia
Crescimento De Investidores No Tesouro Direto Nas Regiões Norte E Nordeste Supera Média Nacional, Mas Concentração Ainda Está No Sudeste - Gazeta Mercantil

Tesouro injeta R$ 42 bi em dois dias e realiza maior intervenção em 13 anos

O Tesouro Nacional protagonizou nos últimos dois dias a maior intervenção no mercado de títulos públicos dos últimos 13 anos, injetando R$ 42 bilhões em recompras extraordinárias. A movimentação surpreendeu agentes financeiros e ganhou destaque no mercado por sua escala inédita desde março de 2020, quando a diferença entre recompras e ofertas atingiu R$ 33,12 bilhões, no auge da pandemia de covid-19.

A decisão do Tesouro ocorreu em um cenário de forte volatilidade, impulsionada pela escalada do conflito no Oriente Médio e por ordens de stop loss acionadas por investidores para conter perdas em ativos de renda fixa. A combinação de fatores levou a uma deterioração significativa dos juros futuros, tornando a intervenção da autoridade fiscal necessária para restaurar o equilíbrio da curva de títulos públicos.

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Contexto da intervenção: incertezas globais e volatilidade doméstica

O mercado vinha registrando aumentos expressivos nos juros futuros nas últimas semanas, reflexo direto da combinação de fatores externos e internos. Segundo analistas da Warren Investimentos, a escalada do petróleo, em conjunto com resultados econômicos acima do esperado em atividade e inflação, provocou uma reprecificação rápida da trajetória da política monetária no Brasil.

“O problema do mercado não foi causado pelo Tesouro, mas ele percebeu que poderia atuar e corrigir uma disfuncionalidade na curva de juros. É ali que o Tesouro financia a dívida pública e pode entrar de forma mais dinâmica”, afirmou Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren, destacando que a atuação precoce trouxe estabilidade ao mercado em um momento de elevada incerteza.

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A intervenção teve como pano de fundo também a proximidade da decisão do Copom, marcada para esta semana, que deve deliberar sobre a política de juros do Banco Central. O movimento da autoridade fiscal, portanto, surge não apenas como medida corretiva, mas como uma estratégia preventiva para reduzir a volatilidade e evitar impactos excessivos na curva de juros doméstica.


Histórico de intervenções do Tesouro

Segundo levantamento da Warren Investimentos, nos últimos 13 anos, o Tesouro Nacional recorreu a recompras extraordinárias em momentos de estresse financeiro. Entre os eventos mais relevantes, destacam-se:

  • Pandemia de Covid-19 (março de 2020): recompras líquidas de R$ 33,12 bilhões;

  • Greve dos caminhoneiros (maio/junho de 2018): intervenção de R$ 22,04 bilhões;

  • Perda do grau de investimento do Brasil (2015): recompras de R$ 1,37 bilhão;

  • Crises políticas e externas, que geraram instabilidade na curva de juros e necessidade de ação corretiva.

Para o Tesouro, essas intervenções representam ferramentas essenciais de gestão da dívida pública, permitindo ajustes rápidos e mantendo a liquidez adequada no mercado de títulos públicos.


Estratégia e impactos no mercado de juros

A intervenção recente de R$ 42 bilhões seguiu uma estratégia clara: o Tesouro cancelou os certames regulares desta semana, resgatando títulos que sofreram forte pressão e corrigindo distorções na curva de juros futuros. A ação foi elogiada por analistas por sua celeridade, especialmente em um contexto de elevada alavancagem de fundos multimercado que mantinham posições expressivas em títulos domésticos.

“Esses players foram pegos de surpresa tanto pela guerra no Oriente Médio quanto pelos efeitos nos ativos financeiros. A desalavancagem ocorreu de forma rápida e intensa, com o mercado migrando de aposta de corte de 50 pontos-base da Selic para redução de apenas 25 pontos-base”, comentou Eduardo Cohn, gestor de portfólio da Heritage Capital Partners, ressaltando o efeito direto da intervenção na estabilização do mercado.

Além disso, a atuação trouxe calmaria temporária, permitindo que investidores reajustassem suas posições e mitigassem riscos de liquidez em um momento de forte volatilidade. Analistas apontam que a tendência é que o Tesouro continue realizando leilões extraordinários ao longo desta semana, mantendo a curva de juros mais equilibrada e evitando disfunções no financiamento da dívida pública.


O papel do Tesouro na política monetária

Embora o Tesouro Nacional atue de forma independente da política monetária, a intervenção de R$ 42 bilhões reflete também uma preocupação indireta com os efeitos da curva de juros sobre o mercado e a economia. O ajuste nos DIs futuros contribui para uma trajetória de financiamento mais estável e evita que choques externos amplifiquem o custo da dívida pública.

Analistas destacam que a ação não apenas corrige desequilíbrios, mas também garante que o Banco Central possa conduzir o Copom com maior previsibilidade. “Essa gestão é mais ativa e demonstra que o Tesouro está atento ao mercado, utilizando seus instrumentos para manter a liquidez e a estabilidade do sistema de dívida”, observou Vital, reforçando o caráter técnico da intervenção.


Implicações para investidores e fundos

A intervenção tem impactos diretos sobre investidores institucionais, fundos multimercado e investidores de renda fixa. Com a recomposição da liquidez, fundos que estavam sobreexpostos aos DIs futuros puderam reduzir riscos e realinhar estratégias, minimizando perdas potenciais.

Para o mercado, a ação também representa um sinal de comprometimento do Tesouro em atuar preventivamente diante de crises e eventos externos, como conflitos internacionais e oscilações no preço do petróleo, fatores que influenciam diretamente a precificação de juros domésticos e ativos de risco.


Desafios e perspectivas futuras

A intervenção de R$ 42 bilhões destaca a complexidade da gestão da dívida pública em um contexto de volatilidade global e incertezas políticas e econômicas. Com a aproximação da decisão do Copom, a atenção do mercado permanece elevada, e a atuação do Tesouro poderá ser estendida caso novas pressões surjam na curva de juros.

Além do cenário externo, fatores internos, como inflação, atividade econômica e expectativas sobre a trajetória da Selic, influenciam diretamente a necessidade de intervenções extraordinárias. Especialistas acreditam que o Tesouro deve manter uma postura vigilante, ajustando recompras e ofertas conforme a evolução do mercado.


Avaliação de especialistas

Para analistas, a magnitude da intervenção confirma a maturidade do Tesouro na condução da política de dívida pública. “Desta vez, a entrada foi rápida e trouxe calmaria, mas ainda há questionamentos sobre intenções futuras, principalmente em semanas de decisão do Copom”, afirmou Cohn, destacando que o mercado segue atento às ações da autoridade fiscal.

Luis Felipe Vital reforça que a atuação demonstra como o Tesouro pode ser dinâmico, antecipando desequilíbrios e garantindo que a curva de juros não comprometa o financiamento da dívida pública. “O Tesouro entra onde pode corrigir disfunções, mantendo a liquidez necessária para o bom funcionamento do mercado”, concluiu.

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