UE e Japão firmam aliança estratégica para enfrentar práticas comerciais desleais e fortalecer cadeias globais
Em um cenário global marcado por disputas comerciais, tensões geopolíticas e busca por maior autonomia estratégica, a União Europeia (UE) anunciou, nesta quarta-feira (23), uma aliança estratégica com o Japão para enfrentar práticas comerciais desleais e fortalecer as cadeias de suprimentos em setores sensíveis. A iniciativa foi apresentada pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, durante a 30ª Cúpula Japão-UE, realizada em Tóquio, e recebeu apoio direto do primeiro-ministro japonês, Shigeru Ishiba.
A parceria, batizada de Aliança para a Competitividade, tem como pilares a proteção da segurança econômica, o reforço da competitividade global e o desenvolvimento de tecnologias limpas e digitais. Segundo Von der Leyen, esse acordo reforça os valores compartilhados entre os dois blocos: justiça, abertura de mercado, respeito às regras internacionais e resiliência econômica frente a ameaças externas.
A decisão de unir forças vem num momento em que países como China e Rússia intensificam suas estratégias de coerção econômica, com práticas como subsídios ocultos, dumping, restrições de exportação e manipulação de cadeias produtivas. A UE e o Japão, que juntos representam aproximadamente 20% do Produto Interno Bruto (PIB) global, agora se posicionam como protagonistas na construção de uma nova ordem econômica baseada em regras transparentes.
Práticas comerciais desleais: alvo da nova estratégia entre Japão e UE
A crescente preocupação com práticas comerciais desleais tem sido um dos focos centrais das ações recentes da União Europeia. Tais práticas incluem desde a manipulação de preços e subsídios governamentais até a imposição de barreiras não tarifárias para dificultar o acesso a mercados estratégicos. Tendo a China como o principal alvo implícito, a nova aliança com o Japão visa combater essas ações por meio da diversificação de parceiros comerciais, fortalecimento da legislação antissubsídios e reforço da presença em fóruns multilaterais como a OMC.
A presidente da Comissão Europeia destacou que a resposta às ameaças econômicas deve ser coordenada e robusta. E é exatamente nesse ponto que o Japão se torna um aliado essencial: o país asiático já sofre há anos com distorções comerciais, principalmente no setor tecnológico, e tem buscado maneiras de se proteger sem fechar suas fronteiras econômicas.
Cadeias de suprimento: foco em terras raras e segurança econômica
Um dos pontos mais estratégicos do novo acordo está relacionado ao fortalecimento das cadeias de suprimentos, em especial no que diz respeito às terras raras – elementos essenciais para a fabricação de semicondutores, baterias, turbinas e tecnologias de energia limpa. A escassez desses materiais e a dependência excessiva da China na produção e exportação desses insumos têm colocado governos e empresas em estado de alerta.
A Aliança para a Competitividade entre UE e Japão pretende acelerar investimentos conjuntos em mineração, reciclagem e desenvolvimento de tecnologias alternativas para minimizar a vulnerabilidade em setores-chave. Com essa iniciativa, os dois blocos esperam criar uma rede de fornecimento mais estável e resiliente, essencial para garantir autonomia estratégica e segurança econômica no médio e longo prazo.
Tecnologia limpa e digital: eixo de inovação e competitividade
Outro pilar do acordo está na aceleração de projetos em tecnologia limpa e digital, com foco no combate às mudanças climáticas e na transformação digital das economias. A inovação conjunta entre UE e Japão será promovida por meio de centros de pesquisa compartilhados, investimentos cruzados e harmonização de padrões regulatórios para facilitar a cooperação entre empresas dos dois lados.
A intenção é posicionar Japão e União Europeia como líderes globais em transição energética e digitalização de infraestrutura, enfrentando a concorrência de países que utilizam práticas comerciais desleais para avançar seus interesses no mercado global sem respeitar regras ambientais e trabalhistas.
Parceria baseada em valores: justiça, abertura e multilateralismo
Durante a cúpula, Von der Leyen ressaltou que a aliança entre UE e Japão é guiada por valores comuns. Ambos defendem justiça, abertura e respeito às normas internacionais. Esses princípios, segundo ela, são cada vez mais desafiados por regimes autoritários e por nações que promovem coerção econômica como ferramenta de pressão política.
Ao adotar uma postura conjunta, os dois blocos pretendem não apenas se proteger de ameaças, mas também moldar os resultados globais, definindo novos padrões para o comércio internacional com foco em transparência, equidade e sustentabilidade. Com isso, pretendem recuperar o protagonismo perdido em um mundo cada vez mais multipolar e competitivo.
Acordos bilaterais fortalecem frente comum contra abusos comerciais
A Aliança para a Competitividade não está isolada. Ela se soma a uma série de acordos comerciais bilaterais que Japão e UE têm assinado com outras potências econômicas. Durante a cúpula, Von der Leyen elogiou o acordo recente entre Japão e Estados Unidos, classificando-o como um exemplo de cooperação bem-sucedida.
Esses movimentos articulados demonstram o esforço de construir uma rede global de parcerias confiáveis, reduzindo a dependência de regimes instáveis e fortalecendo a capacidade de reação a abusos econômicos. A estratégia é clara: criar um sistema internacional baseado em confiança mútua e não em chantagens comerciais.
Geopolítica, economia e o futuro do comércio internacional
A iniciativa entre União Europeia e Japão é mais um reflexo da interseção crescente entre geopolítica e economia. em um ambiente global cada vez mais volátil, parcerias estratégicas como essa são fundamentais para proteger interesses nacionais e ao mesmo tempo promover prosperidade compartilhada.
A luta contra práticas comerciais desleais não é apenas uma questão de competitividade: é uma batalha por um comércio justo, sustentável e regido por normas claras. O acordo reforça que países democráticos, ao unirem forças, podem resistir a pressões externas e criar uma nova dinâmica para o comércio internacional.






