Banco Master é investigado por esquema que teria desviado R$ 11,5 bilhões, aponta relatório do BC
O Banco Master tornou-se o centro de uma das mais complexas investigações recentes do sistema financeiro brasileiro. Um relatório sigiloso elaborado pelo Banco Central (BC) e encaminhado ao Ministério Público detalha um suposto esquema de desvio de recursos que pode chegar a R$ 11,5 bilhões, envolvendo empréstimos fictícios, empresas de fachada, fundos de investimento e operações contábeis classificadas pelos técnicos como um verdadeiro “passeio do dinheiro”.
O caso ganhou relevância não apenas pelo volume financeiro envolvido, mas também pela sofisticação das manobras identificadas, que teriam utilizado instrumentos regulados, como CDBs garantidos pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), fundos de investimento estruturados e reavaliações artificiais de ativos sem liquidez. A investigação lança luz sobre fragilidades na governança, nos controles internos e no uso indevido de estruturas financeiras para inflar balanços e simular capitalização.
Como funcionaria o esquema envolvendo o Banco Master
De acordo com o relatório do Banco Central, o núcleo da operação teria sido a concessão de crédito em larga escala pelo Banco Master a pelo menos 36 empresas, muitas delas classificadas como “empresas de papel”. Essas companhias, em sua maioria de pequeno porte, atuariam formalmente em setores como construção civil, mas apresentariam capital social inferior a R$ 1 mil, o que, para os investigadores, não seria compatível com empréstimos que chegavam a centenas de milhões de reais.
O valor médio das operações identificadas foi de R$ 288 milhões por empresa. Um dos casos que mais chamou a atenção dos técnicos foi o da Brain Realty, que teria obtido sozinha R$ 449,36 milhões em crédito. Para o BC, não havia lastro econômico nem capacidade operacional que justificassem tais montantes.
Os recursos utilizados pelo Banco Master para conceder esses empréstimos teriam origem na captação junto ao público por meio de CDBs, instrumentos financeiros que contam com a garantia do FGC dentro dos limites regulamentares. Isso ampliou a preocupação das autoridades, uma vez que o eventual rombo poderia afetar não apenas investidores institucionais, mas também o sistema de proteção ao pequeno poupador.
O “passeio do dinheiro” descrito pelo Banco Central
O relatório do BC descreve um fluxo financeiro circular, no qual o dinheiro saía do Banco Master, transitava por empresas e fundos, e acabava retornando à própria instituição financeira sob a forma de aplicações que simulavam aumento de capital.
O processo, segundo os investigadores, seguia etapas bem definidas. Inicialmente, as empresas de fachada tomavam crédito junto ao banco. Em seguida, esses recursos eram direcionados para fundos de investimento administrados pela REAG, com destaque para os fundos D Mais e Bravo. Posteriormente, o dinheiro era alocado no FIDC High Tower, considerado uma peça central da engrenagem financeira.
Nesse fundo, os recursos eram utilizados para a compra de cártulas do antigo Banco do Estado de Santa Catarina (Besc). Esses papéis, segundo o BC, não possuíam liquidez real no mercado e eram adquiridos por valores reduzidos. A fraude ocorreria no momento da reavaliação contábil: ativos comprados por valores muito inferiores eram registrados nos balanços por cifras bilionárias.
Em um dos exemplos citados no relatório, papéis adquiridos por cerca de R$ 850 milhões teriam sido lançados contabilmente por R$ 10,8 bilhões. Essa reavaliação artificial inflava o patrimônio dos fundos e permitia a divulgação de resultados irreais.
Retornos irreais e simulação de lucros
A consequência direta dessa engenharia financeira foi a divulgação de retornos absolutamente incompatíveis com qualquer padrão de mercado. O FIDC High Tower chegou a reportar, em 2024, um retorno anual de 10.502.205,65%, número classificado pelos técnicos do BC como um indicativo claro de manipulação contábil.
Na prática, segundo a investigação, não havia lucro real. O que existia era o próprio capital extraído do Banco Master, que circulava pelo sistema e retornava à instituição por meio de aplicações em CDBs realizadas em nome de laranjas. Esse mecanismo teria sido utilizado para simular aumentos de capital, melhorar artificialmente indicadores financeiros e sustentar a continuidade da operação.
A atuação da REAG e o papel dos fundos
A investigação atribui papel relevante à REAG na administração de fundos utilizados nas operações. O FIDC High Tower é apontado como o principal elo da estrutura, mas outros fundos também aparecem no relatório como peças importantes do fluxo financeiro.
Além do High Tower, seis fundos da gestora foram citados nominalmente pelo Banco Central: Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Maia 95 e Anna. Para o BC, esses veículos teriam sido utilizados de forma coordenada para movimentar recursos, reavaliar ativos e dar aparência de legalidade a operações sem substância econômica.
A complexidade da estrutura reforçou a dificuldade de detecção inicial do esquema e acendeu alertas sobre o uso de fundos regulados para práticas que, em tese, burlariam o espírito da legislação financeira.
Conexão com outras investigações e o caso BRB
O relatório do Banco Central não se limita às operações internas do Banco Master. As apurações estabeleceram uma conexão direta entre esse esquema e a venda de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito consideradas inexistentes para o Banco de Brasília (BRB).
Segundo os investigadores, controladores do Master e do BRB teriam tentado realizar aumentos de capital utilizando recursos originários das mesmas contas laranjas abastecidas pelo esquema envolvendo os fundos da REAG. Essa interligação ampliou o alcance da investigação e elevou o grau de preocupação das autoridades monetárias.
Além disso, a REAG já figurava em investigações anteriores, como a Operação Carbono Oculto, que apurou suspeitas de lavagem de dinheiro ligada a organizações criminosas. Embora os casos sejam formalmente distintos, o BC destacou a recorrência do nome da gestora em estruturas financeiras sob suspeita.
Medidas do Banco Central e tentativa de ressarcimento
Diante da gravidade das conclusões preliminares, o Banco Central solicitou o congelamento de R$ 11,5 bilhões em ativos relacionados às operações investigadas. O objetivo é preservar recursos para eventual ressarcimento de credores, incluindo fundos de pensão e o próprio Fundo Garantidor de Crédito.
A medida é considerada excepcional e reflete a avaliação de que há risco sistêmico caso os recursos não sejam preservados. Para o BC, a prioridade é evitar que prejuízos se espalhem pelo sistema financeiro e atinjam investidores que não tinham relação direta com as operações.
O outro lado: defesa do Banco Master e da REAG
Em nota, a REAG afirmou que não é alvo de operação policial e que os fundos citados são regulados e supervisionados tanto pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) quanto pelo Banco Central. A gestora sustenta que todos os aportes são homologados pelas autoridades competentes, que verificam a origem dos recursos antes da aprovação.
Já a defesa de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, declarou que não solicitou o envio de operações ao Supremo Tribunal Federal e ressaltou que decisões judiciais anteriores teriam afirmado não haver relação entre Vorcaro ou o banco com outras investigações, como Carbono Oculto, Quasar ou Tank. A estratégia da defesa é desvincular a imagem do banco e de seu controlador das suspeitas em curso.
Impactos para o sistema financeiro e lições do caso
O caso do Banco Master expõe fragilidades importantes na fiscalização e no uso de instrumentos financeiros complexos. A investigação reacende o debate sobre governança, transparência e a necessidade de aprimorar mecanismos de supervisão, especialmente em operações que envolvem fundos estruturados e ativos de baixa liquidez.
Especialistas do mercado avaliam que, independentemente do desfecho judicial, o episódio deve provocar mudanças regulatórias e maior rigor na análise de operações de crédito, reavaliações contábeis e estruturas de capital. O uso indevido de garantias como o FGC também tende a ser alvo de revisão mais profunda.
Para investidores e participantes do mercado, o episódio funciona como um alerta sobre a importância de avaliar não apenas a rentabilidade prometida, mas também a origem dos resultados e a qualidade dos ativos envolvidos.






