Caroline de Toni formaliza saída do PL após divergências com cúpula nacional e impasses sobre candidatura ao Senado em Santa Catarina
A deputada federal Caroline de Toni comunicou oficialmente, nesta quarta-feira (4), sua desfiliação do Partido Liberal (PL), consolidando uma ruptura anunciada após semanas de tensão interna.
A política catarinense notificou o presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto, sobre sua decisão irrevogável de deixar a sigla. O movimento ocorre como consequência direta das articulações para a chapa majoritária de 2026 em Santa Catarina, onde a parlamentar foi preterida na disputa pelas duas vagas ao Senado Federal. A direção nacional do partido optou por priorizar uma composição pragmática, selando um acordo que garante as candidaturas de Carlos Bolsonaro, filho do ex-presidente da República, e de Esperidião Amin, atual senador pelo Progressistas (PP) que buscará a reeleição.
A saída de Caroline de Toni representa um revés significativo para a unidade da direita em um dos estados mais conservadores do país. A deputada, que foi a parlamentar mais votada de Santa Catarina em 2022 e presidiu a importante Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, viu seu projeto político colidir com os interesses da realpolitik de Brasília. O acordo costurado entre Valdemar Costa Neto e o senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP, impôs uma lógica de alianças suprapartidárias que sacrificou as aspirações da base ideológica local em prol de uma coalizão nacional visando o pleito de 2026.
O acordo PL-PP e o isolamento de Caroline de Toni
A arquitetura política que resultou na saída de Caroline de Toni não foi construída isoladamente em Santa Catarina, mas é fruto de uma estratégia nacional. O PL e o PP, duas das maiores potências do “Centrão”, desenharam um mapa eleitoral que envolve trocas de apoio em diversos estados estratégicos, como o Rio Grande do Sul e Goiás. Em território catarinense, a fatura desse acordo cobrou a vaga que Caroline de Toni pleiteava legitimamente, dada sua expressiva votação anterior e fidelidade às pautas conservadoras.
Valdemar Costa Neto, operando com a lógica de maximizar o tempo de televisão e a capilaridade eleitoral, firmou o compromisso de entregar uma das vagas ao Senado para o PP, na figura do veterano Esperidião Amin. A segunda vaga, considerada “da casa”, foi destinada a Carlos Bolsonaro, cuja transferência de domicílio eleitoral para Santa Catarina faz parte de uma estratégia da família Bolsonaro para garantir mandatos no Senado e manter a imunidade parlamentar e a relevância política. Nesse cenário de cartas marcadas, Caroline de Toni ficou sem espaço na chapa majoritária principal.
A deputada Caroline de Toni tentou, até o último momento, reverter a decisão da executiva nacional, argumentando que sua candidatura possuía apelo orgânico junto ao eleitorado bolsonarista raiz. No entanto, a rigidez do acordo com Ciro Nogueira tornou a posição de Valdemar inflexível. Para a cúpula partidária, a aliança com o PP é vital para a manutenção da governabilidade nos estados e para a formação de bancadas robustas no Congresso, superando, na visão pragmática dos dirigentes, os projetos individuais, mesmo de quadros de alta relevância como Caroline de Toni.
As ofertas recusadas e a questão da autonomia política
Na tentativa de evitar a perda de um quadro com o potencial de votos de Caroline de Toni, a direção nacional do PL colocou sobre a mesa diversas alternativas de “compensação”. Durante as negociações que precederam o anúncio de saída, Valdemar Costa Neto ofereceu à deputada a posição de vice-governadora na chapa de reeleição de Jorginho Mello. Essa oferta, teoricamente prestigiosa, foi prontamente recusada pela parlamentar.
Aliados próximos relatam que Caroline de Toni interpretou a oferta da vice-governadoria como uma tentativa de neutralizar sua influência e submetê-la a uma posição decorativa, sem poder real de agenda. Aceitar a vice significaria, na prática, abrir mão de um mandato legislativo ativo, onde ela tem se destacado na defesa de pautas de costumes e fiscalização do Executivo, para assumir uma função de expectativa de poder. Para uma política em ascensão como Caroline de Toni, o movimento seria um retrocesso estratégico.
Além da vaga no Executivo estadual, foi ventilada a promessa de que Caroline de Toni assumiria a liderança do PL na Câmara dos Deputados a partir de 2027, caso aceitasse disputar a reeleição como deputada federal. Essa proposta visava manter sua capacidade de puxar votos para a legenda, ajudando a eleger outros deputados através do quociente eleitoral. Contudo, a recusa de Caroline de Toni demonstra que seu objetivo central é, de fato, a mudança para a Câmara Alta (Senado), e que a permanência na Câmara dos Deputados já não contempla suas ambições políticas para o próximo ciclo. A deputada entendeu que chancelar o acordo PL-PP seria trair a expectativa de suas bases, que clamam por uma renovação no Senado e rejeitam alianças com a “velha política” representada, na visão de parte do eleitorado, por figuras tradicionais do PP.
O dilema do Governador Jorginho Mello
A crise que culminou na desfiliação de Caroline de Toni colocou o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), em uma posição delicada. Na terça-feira (3), véspera do anúncio, Jorginho havia declarado publicamente, em um evento em Brasília, que seus candidatos ao Senado seriam Caroline de Toni e Carlos Bolsonaro. O governador defendia a tese da “chapa pura”, argumentando que o PL catarinense tinha força suficiente para eleger os dois senadores sem depender da composição com o PP na majoritária.
Essa declaração de Jorginho Mello foi um último gesto de lealdade a Caroline de Toni e uma tentativa de pressionar Valdemar Costa Neto. No entanto, a resposta da direção nacional foi contundente. Valdemar ameaçou intervir no diretório estadual do PL em Santa Catarina caso o acordo com o PP não fosse respeitado. A ameaça de intervenção – um instrumento drástico onde a executiva nacional destitui a direção local e nomeia uma comissão provisória – esvaziou a autoridade do governador sobre a montagem da chapa.
Ao perceber que o governador não teria força política para bancar sua candidatura contra a vontade de Brasília, Caroline de Toni compreendeu que sua permanência no partido se tornara insustentável. A situação expôs a fragilidade da autonomia dos diretórios estaduais frente ao comando centralizado das legendas brasileiras. Mesmo governando o estado, Jorginho Mello viu-se refém das amarras nacionais, o que acelerou o processo de saída de Caroline de Toni. O episódio deixa cicatrizes na relação entre o governador e sua base mais ideológica, que via na deputada a representante legítima de suas pautas.
O fator Michelle Bolsonaro e a divisão interna
Um elemento que adiciona complexidade à saída de Caroline de Toni é o apoio explícito recebido pela ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Ainda na quarta-feira, Michelle utilizou suas redes sociais para publicar imagens ao lado da deputada e do ex-presidente Jair Bolsonaro, com a legenda “estaremos com você”. Esse gesto público é carregado de simbolismo e indica que a família Bolsonaro não opera em uníssono absoluto com as decisões burocráticas de Valdemar Costa Neto.
O apoio de Michelle sugere que, embora Carlos Bolsonaro seja o beneficiário direto da vaga no PL, existe um reconhecimento do valor e da lealdade de Caroline de Toni por parte do clã. Isso cria uma situação inusitada: a candidata preterida pelo partido do ex-presidente recebe o aval moral da esposa do ex-presidente para buscar seu caminho em outra legenda. Para Caroline de Toni, esse endosso é fundamental, pois permite que ela dispute o Senado por outro partido sem ser rotulada como traidora do bolsonarismo.
A atitude de Michelle também expõe a constante tensão entre a ala ideológica (representada por Caroline de Toni) e a ala pragmática (representada por Valdemar e o Centrão) dentro do PL. Enquanto Valdemar foca em alianças e tempo de TV, a base eleitoral e figuras como Michelle priorizam a coerência ideológica. A saída de Caroline de Toni pode ser lida como um sinal de que a ala ideológica está disposta a buscar novos veículos partidários se o PL continuar a sufocar suas lideranças em nome de acordos tradicionais.
O mercado partidário e o futuro de Caroline de Toni
Com o passe livre no mercado político, Caroline de Toni tornou-se alvo imediato de diversas legendas que enxergam nela um potencial de votos massivo. Antes mesmo de oficializar a saída, a deputada revelou que foi procurada por seis partidos: Avante, Podemos, PRD, Novo, MDB e PSD. A escolha da nova casa será determinante para a viabilidade de sua candidatura ao Senado e para a configuração das alianças em Santa Catarina.
O Partido Novo surge como um destino ideologicamente coerente para Caroline de Toni, dado o alinhamento em pautas econômicas liberais e conservadorismo nos costumes. No entanto, o Novo já possui pré-candidatos, como Gilson Marques, o que exigiria novas composições internas. O MDB e o PSD, partidos com grandes máquinas estaduais, ofereceriam estrutura robusta, mas cobrariam um preço em termos de coerência discursiva, já que muitas vezes compõem com o governo federal do PT em Brasília, algo que a deputada combate ferrenhamente.
A ida de Caroline de Toni para legendas menores, como PRD ou Avante, garantiria a ela total autonomia e a legenda para o Senado, mas com menor tempo de televisão e recursos do fundo partidário. A decisão de Caroline de Toni deverá ser calculada para maximizar suas chances na eleição majoritária, mantendo a narrativa de independência que construiu ao recusar a vice-governadoria. A parlamentar sabe que, em uma eleição para o Senado, a “persona” política muitas vezes pesa mais que a estrutura partidária, especialmente em um eleitorado de opinião como o de Santa Catarina.
Desdobramentos eleitorais e a fragmentação da direita em 2026
A confirmação da candidatura avulsa de Caroline de Toni ao Senado por outra sigla redesenha completamente o cenário para 2026 em Santa Catarina. O estado, que elegerá dois senadores, terá agora uma superoferta de nomes no espectro da direita e centro-direita. A chapa oficial do governador terá Carlos Bolsonaro (PL) e Esperidião Amin (PP). Correndo por fora, mas com força eleitoral comprovada, estará Caroline de Toni. Além deles, nomes como Gilson Marques (Novo) podem estar na disputa.
Essa fragmentação da direita é o pesadelo estratégico que Valdemar tentava evitar, mas que acabou provocando. Com os votos conservadores divididos entre Carlos, Amin e Caroline de Toni, abre-se uma brecha matemática para candidaturas de oposição, como a de Décio Lima (PT) ou de outros nomes da esquerda e centro-esquerda, que podem se beneficiar da dispersão de votos do eleitorado governista. A presença de Caroline de Toni na urna, com o apoio tácito de alas do bolsonarismo e a imagem de “injustiçada” pela máquina partidária, tem potencial para drenar votos tanto de Amin quanto de Carlos Bolsonaro.
Para Esperidião Amin, a candidatura de Caroline de Toni é particularmente perigosa. Ambos disputam o voto conservador tradicional e antipetista. A deputada, com uma retórica mais jovem e agressiva, pode atrair o eleitor que considera Amin parte do “sistema”. Já para Carlos Bolsonaro, o desafio será provar que a transferência de votos do pai é suficiente para elegê-lo em um estado onde ele não construiu carreira, enfrentando uma adversária local com forte recall como Caroline de Toni.
O rompimento de Caroline de Toni com o PL não é apenas uma mudança de sigla; é um sintoma da dificuldade do bolsonarismo em acomodar suas múltiplas correntes dentro de uma estrutura partidária pragmática. A eleição de 2026 em Santa Catarina será o laboratório onde se testará se a fidelidade partidária ao PL de Valdemar Costa Neto é mais forte do que a identificação ideológica direta com representantes como Caroline de Toni. Ao priorizar o acordo de cúpula, o PL pode ter criado uma adversária formidável dentro de seu próprio reduto eleitoral, transformando uma eleição que parecia ganha em uma disputa aberta e imprevisível.







