Os principais bancos centrais do mundo avançaram nesta quarta-feira (27) em uma nova etapa dos testes do Projeto Agora, iniciativa coordenada pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS) que busca criar uma infraestrutura global de pagamentos digitais capaz de operar 24 horas por dia, sete dias por semana. A nova fase envolve mais de 40 grandes bancos comerciais e autoridades monetárias de economias desenvolvidas e emergentes, em um movimento que acelera a corrida internacional pela modernização do sistema financeiro e pelo domínio da próxima geração de pagamentos transfronteiriços.
O projeto reúne atualmente o BIS, o Federal Reserve Bank de Nova York e bancos centrais da Europa, Japão, Coreia do Sul e México, com a previsão de inclusão futura do Canadá. O foco dos testes está na integração entre reservas tokenizadas emitidas por bancos centrais e depósitos digitais tokenizados mantidos por instituições financeiras privadas, permitindo que transações internacionais sejam processadas de forma contínua, instantânea e com menor dependência dos modelos tradicionais de compensação bancária.
O avanço ocorre em um momento de crescente competição geopolítica em torno das moedas digitais soberanas e da infraestrutura financeira global. Enquanto economias ocidentais buscam construir plataformas interoperáveis para liquidação internacional, China, países do Brics e outras potências emergentes também aceleram projetos próprios voltados à digitalização dos sistemas monetários.
A iniciativa reforça a percepção de que a transformação digital das finanças deixou de ser apenas uma agenda tecnológica e passou a ocupar posição estratégica nas disputas econômicas internacionais.
Projeto Agora busca modernizar transferências internacionais
O sistema atual de pagamentos internacionais continua baseado, em grande medida, em uma rede de bancos correspondentes distribuídos ao redor do mundo. Embora seja uma estrutura consolidada e amplamente utilizada há décadas, o modelo ainda enfrenta desafios relacionados a custos elevados, prazos prolongados de liquidação e limitações operacionais decorrentes de diferenças regulatórias e fusos horários.
Em muitos casos, uma transferência internacional exige a participação de múltiplas instituições intermediárias até que os recursos cheguem ao destinatário final. Esse processo pode levar dias para ser concluído, especialmente quando envolve mercados emergentes ou operações realizadas fora do horário comercial dos principais centros financeiros globais.
O Projeto Agora surge justamente para enfrentar essas limitações.
A proposta consiste em utilizar tecnologia de tokenização para representar ativos financeiros em ambiente digital, permitindo que moedas nacionais sejam utilizadas em uma infraestrutura comum de liquidação sem que os bancos centrais percam o controle sobre suas respectivas jurisdições monetárias.
Segundo o BIS, os testes mais recentes demonstraram avanços importantes na capacidade técnica de conectar reservas emitidas pelos bancos centrais com depósitos digitais administrados por bancos comerciais, criando um ambiente operacional capaz de processar pagamentos internacionais em tempo real.
Andrea Maechler, gerente-geral adjunta do BIS, afirmou que os resultados reforçam a viabilidade de um sistema financeiro baseado em ativos tokenizados e disponível de forma permanente.
Na avaliação da executiva, a evolução da infraestrutura financeira digital permite que a indústria avance para um modelo de pagamentos contínuos, eliminando restrições associadas aos horários bancários convencionais.
Liquidação atômica reduz riscos e elimina atrasos
Um dos componentes centrais avaliados pelos participantes do Projeto Agora é o mecanismo conhecido como liquidação atômica.
Nesse modelo, uma transação somente é concluída quando todas as condições previamente estabelecidas são atendidas simultaneamente. Caso qualquer etapa não seja executada corretamente, a operação inteira é cancelada automaticamente.
A lógica reduz significativamente os riscos de contraparte e elimina situações em que uma das partes entrega recursos enquanto a outra ainda não realizou sua obrigação financeira.
Especialistas do setor financeiro consideram esse mecanismo uma das inovações mais relevantes para o futuro dos pagamentos internacionais.
Além de aumentar a segurança operacional, a liquidação atômica pode reduzir custos associados à necessidade de manter capital imobilizado durante processos de compensação. Também tende a diminuir a dependência de intermediários que atualmente participam das etapas de validação e liquidação das operações transfronteiriças.
Outro aspecto considerado estratégico é a possibilidade de execução instantânea das transações, independentemente do horário ou da localização geográfica dos participantes.
Para empresas multinacionais, instituições financeiras e investidores globais, a redução do tempo de liquidação pode representar ganhos relevantes de eficiência e previsibilidade operacional.
Arquitetura preserva autonomia dos bancos centrais
Embora a busca por integração seja um dos pilares do projeto, os bancos centrais envolvidos enfatizam que qualquer transformação estrutural do sistema financeiro internacional deverá preservar a soberania monetária de cada país.
Por essa razão, os testes utilizam uma arquitetura em camadas que permite a cada autoridade monetária manter controle sobre as regras aplicáveis à sua moeda digital, incluindo aspectos regulatórios, jurídicos e operacionais.
A abordagem procura responder a uma das maiores preocupações dos reguladores em relação às plataformas globais de pagamentos: o risco de perda de autonomia sobre a condução da política monetária e sobre a supervisão dos sistemas financeiros domésticos.
Os participantes defendem que a interoperabilidade entre moedas digitais não deve significar uniformização regulatória ou compartilhamento irrestrito de competências entre diferentes jurisdições.
Na prática, cada banco central continua responsável pela emissão, fiscalização e definição das regras relacionadas à sua moeda, enquanto a infraestrutura comum atua apenas como ambiente de liquidação e integração operacional.
Essa característica é vista como fundamental para ampliar a adesão de novas economias ao projeto nos próximos anos.
China e Brics ampliam disputa pela infraestrutura financeira global
O avanço do Projeto Agora acontece paralelamente ao desenvolvimento de outras iniciativas internacionais voltadas à digitalização dos pagamentos e das moedas soberanas.
Entre elas está o mBridge, plataforma que reúne China, Hong Kong, Tailândia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita em testes relacionados à liquidação internacional baseada em moedas digitais emitidas por bancos centrais.
Embora os responsáveis pelo Projeto Agora evitem apresentar as iniciativas como concorrentes diretas, analistas do mercado financeiro enxergam uma crescente competição pela definição dos padrões tecnológicos que poderão sustentar o sistema financeiro global nas próximas décadas.
A China ocupa posição de destaque nesse processo por meio do avanço do yuan digital, considerado um dos projetos de moeda digital soberana mais avançados entre as grandes economias.
Ao mesmo tempo, os países do Brics também ampliaram as discussões sobre mecanismos de integração financeira capazes de reduzir custos de transações internacionais e ampliar a utilização de moedas locais no comércio exterior.
Recentemente, o banco central da Índia defendeu a criação de mecanismos que permitam a conexão entre moedas digitais dos integrantes do bloco, incluindo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.
A proposta deverá permanecer na pauta das próximas reuniões do grupo e reforça o interesse crescente das economias emergentes em construir alternativas para os fluxos financeiros internacionais.
Embora ainda não exista um modelo consolidado, a convergência de iniciativas mostra que a infraestrutura de pagamentos tornou-se um dos principais campos de disputa estratégica da economia global.
Participação dos bancos comerciais ganha protagonismo
Além dos bancos centrais, a nova etapa do Projeto Agora conta com forte participação do setor privado.
Mais de 40 instituições financeiras comerciais participam dos testes para avaliar o funcionamento dos sistemas tokenizados em ambientes de grande escala e alta complexidade operacional.
Segundo o Instituto de Finanças Internacionais (IIF), os resultados obtidos até o momento demonstram avanços relevantes na capacidade de processamento de transações envolvendo diferentes moedas e jurisdições regulatórias.
Tim Adams, diretor executivo do IIF, afirmou que os testes representam um marco importante para a indústria financeira global ao comprovar a viabilidade operacional de pagamentos internacionais digitais realizados de forma integrada.
O envolvimento dos grandes bancos reflete o interesse crescente do setor em antecipar transformações que podem alterar profundamente os modelos de negócio ligados a pagamentos, tesouraria, câmbio e liquidação financeira.
Instituições financeiras avaliam que sistemas baseados em tokenização poderão reduzir custos operacionais, ampliar a eficiência das transferências internacionais e abrir espaço para novos serviços digitais voltados a empresas e investidores.
Ao mesmo tempo, executivos do setor reconhecem que a adoção em larga escala dependerá da evolução regulatória, da padronização tecnológica e da construção de mecanismos robustos de segurança cibernética.
Avanço das moedas digitais reforça preocupações regulatórias
O crescimento dos projetos de moedas digitais emitidas por bancos centrais ocorre em um contexto marcado pela expansão das criptomoedas privadas e das stablecoins.
Nos últimos anos, diversas autoridades monetárias passaram a avaliar que a digitalização das moedas nacionais pode se tornar necessária para preservar a relevância dos sistemas monetários tradicionais diante do avanço de soluções financeiras baseadas em blockchain.
Ao mesmo tempo, governos procuram garantir que futuras plataformas digitais mantenham instrumentos eficazes para monitoramento de fluxos financeiros, prevenção à lavagem de dinheiro e aplicação de sanções econômicas quando necessário.
Por essa razão, os testes conduzidos pelo BIS incorporam mecanismos de compliance, identificação de usuários e supervisão regulatória compatíveis com as exigências de cada país participante.
Especialistas apontam que o principal desafio será equilibrar eficiência operacional global com preservação das competências nacionais em matéria monetária e regulatória.
A busca por esse equilíbrio tende a definir o ritmo de implementação comercial das futuras plataformas digitais.
Sistema financeiro entra em nova fase de transformação estrutural
O avanço do Projeto Agora reforça a avaliação de que a digitalização da infraestrutura financeira internacional está entrando em uma nova etapa de maturidade.
Embora os testes ainda estejam distantes de uma implementação ampla e definitiva, a participação crescente de bancos centrais e instituições privadas demonstra que o desenvolvimento de sistemas de pagamentos digitais interoperáveis se tornou prioridade estratégica para as principais economias do planeta.
A entrada prevista do banco central canadense e a ampliação contínua da base de participantes indicam que o projeto deverá ganhar escala nos próximos meses.
O tema também ocupa espaço crescente na agenda do G20, que vem defendendo soluções capazes de tornar os pagamentos internacionais mais rápidos, baratos, transparentes e acessíveis.
Nos bastidores do sistema financeiro global, a expectativa é de que a próxima década seja marcada por profundas mudanças na forma como moedas circulam entre países, empresas e instituições financeiras.
Mais do que uma evolução tecnológica, a construção dessas plataformas representa uma disputa por influência econômica e financeira em um cenário internacional cada vez mais digitalizado e competitivo. A velocidade com que bancos centrais e grandes instituições avançam nos testes sugere que a definição da futura arquitetura do dinheiro global já está em curso.








