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J&F escolhe ex-presidente da Cemig para comandar frente de energia nuclear

Reynaldo Passanezi será responsável pela nova estrutura criada após acordo para aquisição da participação da Axia na Eletronuclear.

por João Souza
02/06/2026 às 20h27
em Empresas
J&Amp;F Escala Ex-Ceo Da Cemig Para Liderar Aposta Bilionária Em Energia Nuclear - Gazeta Mercantil

A J&F Investimentos escolheu Reynaldo Passanezi, ex-presidente da Cemig, para comandar sua nova frente de energia nuclear, em mais um movimento da holding dos irmãos Joesley e Wesley Batista para ampliar sua presença no setor elétrico brasileiro.

A contratação ocorre após a J&F fechar acordo para adquirir a participação da Axia Energia na Eletronuclear, empresa responsável pelas usinas nucleares de Angra 1, Angra 2 e pelo projeto de Angra 3.

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A operação prevê o pagamento de R$ 535 milhões pela participação societária e a aquisição de R$ 2,4 bilhões em debêntures emitidas pela Eletronuclear.

Passanezi ainda não possui uma data formal para assumir a função. A J&F, entretanto, já decidiu que a área nuclear terá uma estrutura própria dentro do grupo, separada da Âmbar Energia, responsável pelos demais ativos da holding no setor elétrico.

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A decisão mostra que a companhia pretende tratar a energia nuclear como uma frente estratégica específica, com governança própria e interlocução direta com o governo federal.

A atividade nuclear possui regras distintas das demais áreas de geração de energia porque envolve segurança nacional, regulação federal, controle estatal e decisões de política energética de longo prazo.

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J&F prepara estrutura própria para energia nuclear

A nova frente será criada para concentrar a participação da J&F na Eletronuclear e organizar as discussões relacionadas às usinas de Angra.

Embora o grupo já mantenha uma presença relevante no setor elétrico por meio da Âmbar Energia, a operação nuclear não será incorporada à estrutura da empresa.

A separação permitirá que a holding adote processos de governança, equipes técnicas e estratégias específicas para o segmento.

A energia nuclear exige uma relação permanente com órgãos públicos, autoridades reguladoras, conselhos governamentais e instituições responsáveis pela segurança das instalações.

A J&F também precisará coordenar suas decisões com o governo federal, que continuará controlando a Eletronuclear mesmo depois da entrada da holding no capital da companhia.

A escolha de um executivo com experiência em empresas reguladas indica que o grupo busca construir uma interlocução técnica e institucional para essa nova fase.

Passanezi deixou a presidência da Cemig

Reynaldo Passanezi chega à J&F depois de permanecer seis anos na presidência da Cemig.

Antes de assumir o comando da companhia mineira, o executivo presidiu a ISA Energia durante sete anos.

Passanezi iniciou sua trajetória na empresa de transmissão como diretor financeiro, antes de chegar à principal função executiva.

Ele também trabalhou no banco BBVA e integrou o Comitê de Privatizações do Estado de São Paulo entre 1995 e 1999.

A experiência reúne passagens pelo setor financeiro, por empresas de energia e por processos relacionados à reorganização de ativos públicos.

Na nova função, Passanezi deverá representar a J&F nas discussões estratégicas envolvendo a Eletronuclear e o governo federal.

Sua atuação deverá incluir temas societários, regulatórios, financeiros e operacionais relacionados às três usinas de Angra.

Compra envolve R$ 535 milhões e debêntures

A entrada da J&F na energia nuclear começou a ser estruturada em outubro de 2025, quando o grupo fechou o acordo para comprar a participação da Axia Energia na Eletronuclear.

A transação envolve R$ 535 milhões pela fatia societária.

Além desse pagamento, a J&F assumirá R$ 2,4 bilhões em debêntures da Eletronuclear que estavam sob controle da Axia.

Com a conclusão da operação, a holding passará a deter 67,95% do capital total da companhia nuclear.

Essa participação confere à J&F uma exposição econômica relevante aos resultados da Eletronuclear, mas não transfere o controle da empresa ao grupo privado.

A União continuará exercendo o comando por meio da Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional, a ENBPar.

A estatal possui 64,10% das ações com direito a voto e mantém o poder de decisão sobre a companhia.

Controle continuará com o governo federal

A estrutura societária da Eletronuclear distingue participação econômica e poder de voto.

Embora a J&F passe a deter a maior parcela do capital total, a maioria das ações com direito a voto permanecerá sob controle da ENBPar.

Esse desenho foi estabelecido durante a privatização da antiga Eletrobras, concluída em 2022.

A separação da Eletronuclear e de outros ativos estratégicos buscou preservar o controle estatal sobre as atividades nucleares.

A Constituição impede que o comando desse tipo de operação seja transferido integralmente ao setor privado.

Na prática, a J&F terá interesse econômico direto no desempenho da Eletronuclear, mas precisará atuar em coordenação com o governo nas principais decisões.

Essa condição torna a relação institucional um dos elementos centrais da nova operação.

Passanezi deverá funcionar como o principal interlocutor do grupo nesse ambiente.

Angra 3 será o maior desafio da gestão

O principal desafio da nova frente nuclear será a definição sobre o futuro de Angra 3.

A construção da usina começou na década de 1980 e passou por sucessivas interrupções.

As obras foram paralisadas em 2015, durante a Operação Lava Jato, e tiveram uma retomada parcial em 2022.

O canteiro voltou a ficar parado e depende de uma decisão do governo federal para avançar.

Até agora, o projeto consumiu aproximadamente R$ 12 bilhões e está 65% concluído.

Um estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social estimou que seriam necessários mais R$ 24 bilhões para terminar a usina.

O valor transforma Angra 3 em uma das decisões mais complexas da política energética brasileira.

Abandono também teria custo bilionário

A discussão não se resume ao custo necessário para concluir a obra.

O encerramento definitivo do projeto também exigiria desembolsos elevados.

Segundo o estudo citado, abandonar Angra 3 custaria entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões.

O cálculo inclui gastos com o descomissionamento das estruturas existentes e a quitação de financiamentos vinculados ao empreendimento.

Esse cenário cria um impasse financeiro.

A conclusão exige novos aportes bilionários, um cronograma de execução e mecanismos para evitar novos atrasos.

O abandono, por outro lado, obrigaria o governo e a Eletronuclear a assumir despesas relevantes sem que a usina passasse a gerar energia.

Para a J&F, o desfecho terá impacto direto sobre a avaliação econômica de sua participação na companhia.

Decisão caberá ao CNPE

A definição sobre Angra 3 deverá ser tomada pelo Conselho Nacional de Política Energética.

O CNPE é formado por ministros e presidido pelo Ministério de Minas e Energia.

O colegiado é responsável por estabelecer diretrizes estratégicas para o setor energético e deliberar sobre projetos considerados relevantes para o país.

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, já defendeu publicamente a continuidade da obra.

Apesar dessa posição, o tema teve sua deliberação adiada em reuniões do conselho.

A decisão precisará considerar o custo de conclusão, os riscos de execução, as fontes de financiamento e o papel da energia nuclear na matriz brasileira.

Também deverá avaliar os efeitos sobre consumidores, contas públicas e segurança do sistema elétrico.

Defensores citam segurança energética

Os defensores da conclusão argumentam que Angra 3 poderá ampliar a oferta de energia firme.

Diferentemente de fontes que dependem de condições climáticas, uma usina nuclear pode gerar eletricidade de maneira contínua por longos períodos.

Essa característica pode contribuir para a estabilidade do sistema, especialmente em momentos de menor geração hidrelétrica, solar ou eólica.

A energia produzida também poderia reforçar o abastecimento da Região Sudeste, onde está concentrada uma parcela relevante do consumo nacional.

Os críticos, entretanto, questionam o custo elevado da obra e o risco de novos atrasos.

Também defendem a comparação com alternativas de geração que poderiam ser implantadas em prazo menor e com investimento inferior.

A análise deverá incluir não apenas o custo da construção, mas também as despesas operacionais, os financiamentos e a destinação futura dos resíduos nucleares.

Âmbar concentra outros ativos de energia

A frente nuclear será mantida fora da Âmbar Energia, empresa que concentra os demais investimentos da J&F no setor elétrico.

A Âmbar ampliou sua presença nos últimos anos por meio de aquisições e participação em leilões.

Seu portfólio inclui usinas termelétricas, pequenas centrais hidrelétricas, projetos solares e um gasoduto.

A companhia também controla concessionárias de distribuição de energia no Amazonas e em Roraima.

A expansão colocou a empresa entre os principais braços de infraestrutura da J&F.

O segmento nuclear, porém, possui uma lógica diferente da observada em ativos térmicos, solares, hidrelétricos ou de distribuição.

Além das restrições constitucionais, a atividade exige fiscalização específica, padrões rigorosos de segurança e planejamento de longo prazo.

Separação busca dar clareza à governança

A manutenção de uma estrutura independente poderá facilitar a organização das responsabilidades dentro da J&F.

A operação nuclear terá seus próprios executivos, processos decisórios e canais de relacionamento com o governo.

Essa separação também pode tornar mais clara a avaliação financeira dos ativos.

Os resultados da participação na Eletronuclear poderão ser acompanhados sem mistura direta com o desempenho das usinas e concessionárias controladas pela Âmbar.

A governança própria será especialmente importante nas discussões sobre financiamento de Angra 3.

A J&F precisará definir até que ponto está disposta a aportar recursos, assumir obrigações ou apoiar novas estruturas financeiras.

O governo, por sua vez, continuará responsável pelas decisões de controle e pelas diretrizes de política nuclear.

Eletronuclear opera Angra 1 e Angra 2

A Eletronuclear é responsável pela operação das duas usinas nucleares em funcionamento no Brasil.

Angra 1 e Angra 2 estão instaladas no município de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.

As unidades integram o sistema elétrico nacional e produzem energia de maneira contínua.

A companhia também responde pelo projeto de Angra 3 e pelas estruturas relacionadas à segurança e à operação do complexo nuclear.

Sua atuação exige relacionamento com diferentes órgãos federais e entidades reguladoras.

As decisões precisam observar normas de segurança nuclear, licenciamento ambiental, fiscalização operacional e planejamento energético.

A entrada de um acionista privado com participação econômica majoritária acrescentará uma nova dinâmica societária à empresa.

O controle estatal, entretanto, continuará limitando a capacidade da J&F de decidir sozinha sobre os principais temas.

Participação aumenta peso da J&F no setor elétrico

A aquisição amplia a presença da J&F em uma área considerada estratégica para o país.

O grupo já possui ativos em geração, distribuição e infraestrutura de gás.

Com a Eletronuclear, passa a ter exposição econômica ao único complexo de geração nuclear em operação no Brasil.

A movimentação reforça a estratégia de expansão da holding em energia e infraestrutura.

Ao mesmo tempo, aumenta a exposição do grupo a decisões políticas, regulatórias e fiscais.

O retorno do investimento dependerá do desempenho de Angra 1 e Angra 2, da estrutura financeira da Eletronuclear e da decisão sobre Angra 3.

Também será influenciado pela relação entre a J&F e o governo federal na administração da companhia.

Passanezi assumirá interlocução institucional

A escolha de Reynaldo Passanezi indica que a J&F pretende conduzir essa relação por meio de um executivo com experiência em empresas de grande porte e setores regulados.

Na Cemig e na ISA Energia, ele atuou em ambientes sujeitos a regras governamentais, concessões e decisões de longo prazo.

Essa experiência poderá ser utilizada nas negociações sobre investimentos, governança e planejamento da Eletronuclear.

Passanezi também deverá representar os interesses econômicos da J&F dentro dos limites impostos pelo controle estatal.

Sua função envolverá a construção de consensos com a ENBPar e com autoridades do setor energético.

O executivo assumirá a frente em um momento no qual a principal decisão ainda não foi tomada.

Sem uma definição sobre Angra 3, parte relevante do valor futuro da operação permanece incerta.

J&F prepara atuação de longo prazo

Em 2 de fevereiro de 2026, a escolha de Passanezi mostra que a J&F começa a montar uma estrutura permanente para atuar no setor nuclear.

A criação de uma área separada da Âmbar indica que a participação na Eletronuclear não será tratada apenas como um investimento financeiro.

A holding pretende participar das discussões estratégicas e acompanhar diretamente as decisões sobre as usinas.

O acordo com a Axia dá ao grupo uma parcela relevante do capital total, mas preserva o controle do governo federal.

Essa combinação exigirá coordenação constante entre os acionistas.

O futuro de Angra 3 será o primeiro grande teste da nova estrutura.

Caso o governo decida concluir a obra, a discussão passará a envolver financiamento, cronograma, governança e execução.

Se a decisão for pelo abandono, a Eletronuclear e seus acionistas terão de enfrentar os custos bilionários de encerramento do projeto.

A escolha do ex-presidente da Cemig sinaliza que a J&F se prepara para permanecer no setor e disputar espaço em uma área na qual retorno econômico, interesse público e segurança nacional estão diretamente ligados.

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