A J&F Investimentos escolheu Reynaldo Passanezi, ex-presidente da Cemig, para comandar sua nova frente de energia nuclear, em mais um movimento da holding dos irmãos Joesley e Wesley Batista para ampliar sua presença no setor elétrico brasileiro.
A contratação ocorre após a J&F fechar acordo para adquirir a participação da Axia Energia na Eletronuclear, empresa responsável pelas usinas nucleares de Angra 1, Angra 2 e pelo projeto de Angra 3.
A operação prevê o pagamento de R$ 535 milhões pela participação societária e a aquisição de R$ 2,4 bilhões em debêntures emitidas pela Eletronuclear.
Passanezi ainda não possui uma data formal para assumir a função. A J&F, entretanto, já decidiu que a área nuclear terá uma estrutura própria dentro do grupo, separada da Âmbar Energia, responsável pelos demais ativos da holding no setor elétrico.
A decisão mostra que a companhia pretende tratar a energia nuclear como uma frente estratégica específica, com governança própria e interlocução direta com o governo federal.
A atividade nuclear possui regras distintas das demais áreas de geração de energia porque envolve segurança nacional, regulação federal, controle estatal e decisões de política energética de longo prazo.
J&F prepara estrutura própria para energia nuclear
A nova frente será criada para concentrar a participação da J&F na Eletronuclear e organizar as discussões relacionadas às usinas de Angra.
Embora o grupo já mantenha uma presença relevante no setor elétrico por meio da Âmbar Energia, a operação nuclear não será incorporada à estrutura da empresa.
A separação permitirá que a holding adote processos de governança, equipes técnicas e estratégias específicas para o segmento.
A energia nuclear exige uma relação permanente com órgãos públicos, autoridades reguladoras, conselhos governamentais e instituições responsáveis pela segurança das instalações.
A J&F também precisará coordenar suas decisões com o governo federal, que continuará controlando a Eletronuclear mesmo depois da entrada da holding no capital da companhia.
A escolha de um executivo com experiência em empresas reguladas indica que o grupo busca construir uma interlocução técnica e institucional para essa nova fase.
Passanezi deixou a presidência da Cemig
Reynaldo Passanezi chega à J&F depois de permanecer seis anos na presidência da Cemig.
Antes de assumir o comando da companhia mineira, o executivo presidiu a ISA Energia durante sete anos.
Passanezi iniciou sua trajetória na empresa de transmissão como diretor financeiro, antes de chegar à principal função executiva.
Ele também trabalhou no banco BBVA e integrou o Comitê de Privatizações do Estado de São Paulo entre 1995 e 1999.
A experiência reúne passagens pelo setor financeiro, por empresas de energia e por processos relacionados à reorganização de ativos públicos.
Na nova função, Passanezi deverá representar a J&F nas discussões estratégicas envolvendo a Eletronuclear e o governo federal.
Sua atuação deverá incluir temas societários, regulatórios, financeiros e operacionais relacionados às três usinas de Angra.
Compra envolve R$ 535 milhões e debêntures
A entrada da J&F na energia nuclear começou a ser estruturada em outubro de 2025, quando o grupo fechou o acordo para comprar a participação da Axia Energia na Eletronuclear.
A transação envolve R$ 535 milhões pela fatia societária.
Além desse pagamento, a J&F assumirá R$ 2,4 bilhões em debêntures da Eletronuclear que estavam sob controle da Axia.
Com a conclusão da operação, a holding passará a deter 67,95% do capital total da companhia nuclear.
Essa participação confere à J&F uma exposição econômica relevante aos resultados da Eletronuclear, mas não transfere o controle da empresa ao grupo privado.
A União continuará exercendo o comando por meio da Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional, a ENBPar.
A estatal possui 64,10% das ações com direito a voto e mantém o poder de decisão sobre a companhia.
Controle continuará com o governo federal
A estrutura societária da Eletronuclear distingue participação econômica e poder de voto.
Embora a J&F passe a deter a maior parcela do capital total, a maioria das ações com direito a voto permanecerá sob controle da ENBPar.
Esse desenho foi estabelecido durante a privatização da antiga Eletrobras, concluída em 2022.
A separação da Eletronuclear e de outros ativos estratégicos buscou preservar o controle estatal sobre as atividades nucleares.
A Constituição impede que o comando desse tipo de operação seja transferido integralmente ao setor privado.
Na prática, a J&F terá interesse econômico direto no desempenho da Eletronuclear, mas precisará atuar em coordenação com o governo nas principais decisões.
Essa condição torna a relação institucional um dos elementos centrais da nova operação.
Passanezi deverá funcionar como o principal interlocutor do grupo nesse ambiente.
Angra 3 será o maior desafio da gestão
O principal desafio da nova frente nuclear será a definição sobre o futuro de Angra 3.
A construção da usina começou na década de 1980 e passou por sucessivas interrupções.
As obras foram paralisadas em 2015, durante a Operação Lava Jato, e tiveram uma retomada parcial em 2022.
O canteiro voltou a ficar parado e depende de uma decisão do governo federal para avançar.
Até agora, o projeto consumiu aproximadamente R$ 12 bilhões e está 65% concluído.
Um estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social estimou que seriam necessários mais R$ 24 bilhões para terminar a usina.
O valor transforma Angra 3 em uma das decisões mais complexas da política energética brasileira.
Abandono também teria custo bilionário
A discussão não se resume ao custo necessário para concluir a obra.
O encerramento definitivo do projeto também exigiria desembolsos elevados.
Segundo o estudo citado, abandonar Angra 3 custaria entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões.
O cálculo inclui gastos com o descomissionamento das estruturas existentes e a quitação de financiamentos vinculados ao empreendimento.
Esse cenário cria um impasse financeiro.
A conclusão exige novos aportes bilionários, um cronograma de execução e mecanismos para evitar novos atrasos.
O abandono, por outro lado, obrigaria o governo e a Eletronuclear a assumir despesas relevantes sem que a usina passasse a gerar energia.
Para a J&F, o desfecho terá impacto direto sobre a avaliação econômica de sua participação na companhia.
Decisão caberá ao CNPE
A definição sobre Angra 3 deverá ser tomada pelo Conselho Nacional de Política Energética.
O CNPE é formado por ministros e presidido pelo Ministério de Minas e Energia.
O colegiado é responsável por estabelecer diretrizes estratégicas para o setor energético e deliberar sobre projetos considerados relevantes para o país.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, já defendeu publicamente a continuidade da obra.
Apesar dessa posição, o tema teve sua deliberação adiada em reuniões do conselho.
A decisão precisará considerar o custo de conclusão, os riscos de execução, as fontes de financiamento e o papel da energia nuclear na matriz brasileira.
Também deverá avaliar os efeitos sobre consumidores, contas públicas e segurança do sistema elétrico.
Defensores citam segurança energética
Os defensores da conclusão argumentam que Angra 3 poderá ampliar a oferta de energia firme.
Diferentemente de fontes que dependem de condições climáticas, uma usina nuclear pode gerar eletricidade de maneira contínua por longos períodos.
Essa característica pode contribuir para a estabilidade do sistema, especialmente em momentos de menor geração hidrelétrica, solar ou eólica.
A energia produzida também poderia reforçar o abastecimento da Região Sudeste, onde está concentrada uma parcela relevante do consumo nacional.
Os críticos, entretanto, questionam o custo elevado da obra e o risco de novos atrasos.
Também defendem a comparação com alternativas de geração que poderiam ser implantadas em prazo menor e com investimento inferior.
A análise deverá incluir não apenas o custo da construção, mas também as despesas operacionais, os financiamentos e a destinação futura dos resíduos nucleares.
Âmbar concentra outros ativos de energia
A frente nuclear será mantida fora da Âmbar Energia, empresa que concentra os demais investimentos da J&F no setor elétrico.
A Âmbar ampliou sua presença nos últimos anos por meio de aquisições e participação em leilões.
Seu portfólio inclui usinas termelétricas, pequenas centrais hidrelétricas, projetos solares e um gasoduto.
A companhia também controla concessionárias de distribuição de energia no Amazonas e em Roraima.
A expansão colocou a empresa entre os principais braços de infraestrutura da J&F.
O segmento nuclear, porém, possui uma lógica diferente da observada em ativos térmicos, solares, hidrelétricos ou de distribuição.
Além das restrições constitucionais, a atividade exige fiscalização específica, padrões rigorosos de segurança e planejamento de longo prazo.
Separação busca dar clareza à governança
A manutenção de uma estrutura independente poderá facilitar a organização das responsabilidades dentro da J&F.
A operação nuclear terá seus próprios executivos, processos decisórios e canais de relacionamento com o governo.
Essa separação também pode tornar mais clara a avaliação financeira dos ativos.
Os resultados da participação na Eletronuclear poderão ser acompanhados sem mistura direta com o desempenho das usinas e concessionárias controladas pela Âmbar.
A governança própria será especialmente importante nas discussões sobre financiamento de Angra 3.
A J&F precisará definir até que ponto está disposta a aportar recursos, assumir obrigações ou apoiar novas estruturas financeiras.
O governo, por sua vez, continuará responsável pelas decisões de controle e pelas diretrizes de política nuclear.
Eletronuclear opera Angra 1 e Angra 2
A Eletronuclear é responsável pela operação das duas usinas nucleares em funcionamento no Brasil.
Angra 1 e Angra 2 estão instaladas no município de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.
As unidades integram o sistema elétrico nacional e produzem energia de maneira contínua.
A companhia também responde pelo projeto de Angra 3 e pelas estruturas relacionadas à segurança e à operação do complexo nuclear.
Sua atuação exige relacionamento com diferentes órgãos federais e entidades reguladoras.
As decisões precisam observar normas de segurança nuclear, licenciamento ambiental, fiscalização operacional e planejamento energético.
A entrada de um acionista privado com participação econômica majoritária acrescentará uma nova dinâmica societária à empresa.
O controle estatal, entretanto, continuará limitando a capacidade da J&F de decidir sozinha sobre os principais temas.
Participação aumenta peso da J&F no setor elétrico
A aquisição amplia a presença da J&F em uma área considerada estratégica para o país.
O grupo já possui ativos em geração, distribuição e infraestrutura de gás.
Com a Eletronuclear, passa a ter exposição econômica ao único complexo de geração nuclear em operação no Brasil.
A movimentação reforça a estratégia de expansão da holding em energia e infraestrutura.
Ao mesmo tempo, aumenta a exposição do grupo a decisões políticas, regulatórias e fiscais.
O retorno do investimento dependerá do desempenho de Angra 1 e Angra 2, da estrutura financeira da Eletronuclear e da decisão sobre Angra 3.
Também será influenciado pela relação entre a J&F e o governo federal na administração da companhia.
Passanezi assumirá interlocução institucional
A escolha de Reynaldo Passanezi indica que a J&F pretende conduzir essa relação por meio de um executivo com experiência em empresas de grande porte e setores regulados.
Na Cemig e na ISA Energia, ele atuou em ambientes sujeitos a regras governamentais, concessões e decisões de longo prazo.
Essa experiência poderá ser utilizada nas negociações sobre investimentos, governança e planejamento da Eletronuclear.
Passanezi também deverá representar os interesses econômicos da J&F dentro dos limites impostos pelo controle estatal.
Sua função envolverá a construção de consensos com a ENBPar e com autoridades do setor energético.
O executivo assumirá a frente em um momento no qual a principal decisão ainda não foi tomada.
Sem uma definição sobre Angra 3, parte relevante do valor futuro da operação permanece incerta.
J&F prepara atuação de longo prazo
Em 2 de fevereiro de 2026, a escolha de Passanezi mostra que a J&F começa a montar uma estrutura permanente para atuar no setor nuclear.
A criação de uma área separada da Âmbar indica que a participação na Eletronuclear não será tratada apenas como um investimento financeiro.
A holding pretende participar das discussões estratégicas e acompanhar diretamente as decisões sobre as usinas.
O acordo com a Axia dá ao grupo uma parcela relevante do capital total, mas preserva o controle do governo federal.
Essa combinação exigirá coordenação constante entre os acionistas.
O futuro de Angra 3 será o primeiro grande teste da nova estrutura.
Caso o governo decida concluir a obra, a discussão passará a envolver financiamento, cronograma, governança e execução.
Se a decisão for pelo abandono, a Eletronuclear e seus acionistas terão de enfrentar os custos bilionários de encerramento do projeto.
A escolha do ex-presidente da Cemig sinaliza que a J&F se prepara para permanecer no setor e disputar espaço em uma área na qual retorno econômico, interesse público e segurança nacional estão diretamente ligados.








