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CXMT dispara 466% em estreia em Xangai e se torna empresa mais valiosa da China

Fabricante chinesa de DRAM levanta US$ 8,6 bilhões e atinge US$ 487 bilhões em valor de mercado no primeiro dia

por João Souza
27/07/2026 às 18h06
em Empresas,Destaque,Notícias
Cxmt Dispara 466% Em Estreia Em Xangai E Se Torna Empresa Mais Valiosa Da China-Gazeta Mercantil

A fabricante chinesa de memórias CXMT Corp estreou na Bolsa de Xangai nesta segunda-feira, 27 de julho de 2026, com valorização de 466% no fechamento, tornando-se a companhia mais valiosa listada na China continental e redefinindo a escala financeira da indústria de semicondutores chinesa. As ações, precificadas a 8,66 yuans no IPO, encerraram a 49 yuans após tocar 55,03 yuans na máxima intradiária, quando chegaram a subir mais de 500%, segundo a Bolsa de Xangai e registros de negociação divulgados pela Reuters.

O movimento elevou a capitalização da companhia para 3,3 trilhões de yuans, cerca de 487,7 bilhões de dólares pelo câmbio informado nos comunicados, acima do Industrial and Commercial Bank of China, histórico líder do mercado A-share, e acima da americana Intel, cujo valor de mercado era de aproximadamente 464 bilhões de dólares em 24 de julho, conforme dados da plataforma Finnhub. Em Hong Kong, apenas a Tencent mantinha valor superior naquele momento.

A estreia ocorre no STAR Market, segmento da Bolsa de Xangai voltado a empresas de tecnologia, sob o código 688825.SS, e marca o maior IPO do continente asiático em 2026 até o momento e a maior oferta de uma empresa de semicondutores no mercado doméstico chinês.

Estreia com float de 6,7% e giro recorde de 141 bilhões de yuans no primeiro dia

A magnitude da alta foi amplificada pela estrutura da oferta. Apenas 6,73% do capital ampliado estava em livre negociação na listagem, uma vez que a maior parte das ações permanece bloqueada por compromissos de acionistas e regras de lock-up. Com oferta restrita, o volume financeiro disparou. Segundo relatos de mídia local citados pela Reuters, foram negociados cerca de 141,1 bilhões de yuans em ações da CXMT no dia, a primeira vez que um papel A-share superou 100 bilhões de yuans de giro em uma única sessão.

O preço de IPO foi definido de forma conservadora, a 8,66 yuans por ação, equivalente a cerca de 1,28 dólar, segundo comunicados da companhia. Analistas ouvidos pelo Wall Street Journal avaliaram que o desconto embutido refletia incertezas sobre o ciclo de memórias e a estratégia de garantir forte demanda inicial. O mecanismo de alocação por sorteio no mercado chinês também contribuiu para concentrar ganhos entre investidores contemplados.

De acordo com o Wall Street Journal, a avaliação de estreia colocou a CXMT em patamar próximo de 484 bilhões a 485 bilhões de dólares, ainda abaixo de Samsung e SK Hynix e de cerca de metade do valor atribuído à Micron, mas já no topo do ranking doméstico. A Reuters apontou que, no preço de IPO, a empresa valia cerca de 579 bilhões de yuans, aproximadamente 85,5 bilhões de dólares, antes do exercício de opções de lote suplementar.

Captação recorde de 57,9 bilhões de yuans supera SMIC e dobra meta inicial

A CXMT Corp levantou 57,92 bilhões de yuans, cerca de 8,6 bilhões de dólares, com a venda de 6,69 bilhões de ações, conforme fato relevante divulgado pela companhia e noticiado pela Reuters. Se a opção de lote suplementar for integralmente exercida, o montante pode chegar a 66,61 bilhões de yuans.

O valor supera a oferta da Semiconductor Manufacturing International Corp, a SMIC, de 7,5 bilhões de dólares em 2020, até então a maior de uma empresa de chips no mercado continental, e representa o dobro da meta original anunciada em junho, de 29,5 bilhões de yuans, quando a Comissão Reguladora de Valores Mobiliários da China aprovou o registro da operação.

Segundo a Bolsa de Xangai, a operação é a segunda maior da história do STAR Market, inaugurado em junho de 2019 para apoiar setores estratégicos, e a maior do mercado A-share em 2026. Os recursos serão destinados a ampliação de capacidade de fabricação de wafers, modernização de linhas produtivas, pesquisa e desenvolvimento de novas gerações de DRAM e capital de giro, de acordo com o prospecto arquivado na Bolsa.

Fundada em Hefei em 2016, companhia tem 36% de capital nas mãos do Estado

A CXMT foi criada em 2016 na cidade de Hefei, província de Anhui, como parte do esforço de Pequim para reduzir dependência de fornecedores estrangeiros de memória. Segundo o prospecto, a empresa é hoje a maior e mais avançada do país em pesquisa, desenvolvimento, projeto e fabricação de produtos DRAM, usados como memória de curto prazo em smartphones, computadores pessoais, servidores e sistemas de inteligência artificial.

A estrutura acionária reflete o modelo estatal de financiamento a semicondutores. Conforme o prospecto citado pela Reuters e pela Bolsa de Xangai, acionistas estatais detinham 36,29% do capital antes do IPO, incluindo veículos ligados aos governos de Hefei e Anhui e o chamado Big Fund, fundo nacional de investimento em chips. Figura central na formação da empresa, segundo documentos societários, é Zhu Yiming, fundador da GigaDevice Semiconductor, companhia chinesa de projeto de memórias NOR, que trouxe experiência setorial e assumiu a presidência do conselho.

A cidade de Hefei aportou recursos relevantes nos primeiros anos, em um arranjo comum de coinvestimento local e nacional que permitiu à companhia erguer fábricas e contratar talentos internacionais apesar das restrições de acesso a equipamentos de ponta.

Participação de 7,7% no mercado global ainda está longe das três líderes

O prospecto de IPO informa que a CXMT detinha cerca de 7,67% do mercado global de DRAM no quarto trimestre de 2025 em receita, mantendo a quarta posição mundial. A liderança segue concentrada. Segundo a TrendForce, no quarto trimestre de 2025 a Samsung retomou o primeiro lugar com 36% de participação e receita de 19,3 bilhões de dólares, alta de 43% na comparação trimestral, seguida por SK Hynix com 32,1% e 17,22 bilhões de dólares e Micron com 22,4% e 11,98 bilhões de dólares. A indústria total de DRAM faturou 53,58 bilhões de dólares no período, crescimento de 29,4% em relação ao trimestre anterior, impulsionado por alta de 45% a 50% nos preços de contratos de DRAM convencional.

Outras medições convergem para a mesma ordem de grandeza. A Counterpoint Research citada por publicações de mercado estimava cerca de 6% em embarques em 2025, enquanto a própria empresa projeta chegar a cerca de 11% até 2028. A SemiAnalysis, consultoria especializada, prevê que a fatia global da CXMT possa alcançar 12% em 2027, ante cerca de 9% estimado para 2025. Para efeito de comparação, a capacidade mensal de wafers da CXMT deve passar de cerca de 350 mil ao final de 2026 para 500 mil em dezembro de 2028, ante 550 mil da SK Hynix, 650 mil a 700 mil da Samsung e 385 mil da Micron, segundo dados compilados pelo MarketWatch.

A distância tecnológica, porém, permanece. A companhia reconhece no prospecto que seus produtos ainda ficam atrás dos líderes em tecnologias avançadas, especialmente em memória de alta largura de banda, conhecida como HBM, componente caro e essencial para aceleradores de inteligência artificial fornecidos por empresas como a Nvidia.

Receita multiplica por sete e lucro bilionário reverte prejuízo de 2024

O ciclo de alta de memórias turbinou os números. No primeiro trimestre de 2026, a receita alcançou 50,8 bilhões de yuans, cerca de 7,5 bilhões de dólares, avanço de 719% em relação ao mesmo período do ano anterior, de acordo com o prospecto. O lucro líquido no trimestre foi de 33 bilhões de yuans, revertendo prejuízo anterior. A companhia registrou prejuízo líquido de 7,15 bilhões de yuans em 2024 e lucro de 1,88 bilhão de yuans em 2025.

Para o primeiro semestre de 2026, a empresa projeta receita entre 110 bilhões e 120 bilhões de yuans, mais de sete vezes o valor de igual intervalo do ano anterior, e lucro líquido entre 66 bilhões e 75 bilhões de yuans na métrica contábil completa, ou entre 50 bilhões e 57 bilhões de yuans atribuível aos controladores, conforme diferentes trechos do prospecto e comunicados resumidos pela Reuters e pela imprensa asiática. O intervalo praticamente dobra o faturamento anual de 2025, de 61,8 bilhões de yuans.

O desempenho reflete combinação de preços em alta, maior volume de vendas e melhora de mix de produtos. A TrendForce aponta que a expansão de aplicações de inteligência artificial, do treinamento de modelos para inferência, levou provedores de nuvem a ampliar data centers além de servidores de IA para servidores de uso geral, estendendo a procura por memórias convencionais, LPDDR5X e RDIMMs de alta capacidade.

Analistas ponderam que o preço de listagem representava cerca de uma vez o valor patrimonial estimado para 2027 pela Morningstar, ante 2,1 a 2,3 vezes dos pares globais, o que ajudou a criar espaço para valorização. O mesmo relatório alerta para excesso após a disparada, diante da natureza cíclica do setor e de restrições de exportação que limitam acesso a equipamentos avançados.

Apple testa chips para iPhones vendidos na China e faz lobby em Washington

O caso ganhou repercussão adicional no exterior quando reportagens do Financial Times e do Wall Street Journal indicaram que a Apple começou a testar chips DRAM da CXMT para dispositivos vendidos na China, dentro de uma estratégia de diversificação de fornecedores em meio à escassez global de memória.

De acordo com a Digital Trends, que cita o Financial Times, a Apple adquiriu memórias destinadas a smartphones para testes internos focados inicialmente no mercado chinês, como parte de um esforço mais amplo de empresas americanas para obter autorização do governo dos Estados Unidos para uso mais amplo de produtos da CXMT. Segundo o Wall Street Journal, o presidente-executivo da Apple, Tim Cook, e outros executivos apresentaram o plano a autoridades americanas, incluindo o presidente e o Departamento de Comércio, argumentando que o uso de memórias chinesas mais baratas ajudaria a conter custos em um momento de aumento de preços de componentes.

A iniciativa enfrenta resistência. A Micron afirmou que permitir vendas da CXMT para empresas de tecnologia dos Estados Unidos prejudicaria a indústria americana, segundo o mesmo jornal. Analistas da SemiAnalysis citados pela imprensa observam que praticamente toda a produção atual da CXMT já está comprometida e que a companhia deve permanecer com oferta restrita por pelo menos dois anos, mesmo com novas linhas em Hefei, Xangai e Pequim.

O movimento repete, em escala maior, episódio de 2022 envolvendo a Yangtze Memory Technologies, a YMTC, fabricante de memórias NAND, quando a Apple avaliou fornecedores chineses e recuou após pressão política.

Designação no Pentágono e controle de equipamentos impõem barreiras à expansão

A CXMT figura na lista do Departamento de Defesa dos Estados Unidos de empresas ligadas ao setor militar chinês, conhecida como lista da Seção 1260H. Segundo o Tom’s Hardware, a atualização que incluiu a fabricante de memórias, além de CATL e Tencent, elevou o rol para 134 companhias, entre elas SMIC, YMTC, Huawei e Inspur. A inclusão não implica sanção automática, mas traz riscos reputacionais, restrições a contratos federais e potencial limitação a investimentos americanos.

A lista passou por idas e vindas. De acordo com escritórios de advocacia que acompanham o tema, em fevereiro de 2026 o Pentágono chegou a publicar e depois retirar versão que excluía CXMT e YMTC, para em junho manter ambas no cadastro ativo. A Reuters também informou que a CXMT foi aprovada por comitê interagências americano para inclusão na Entity List, o que ainda não havia sido implementado até a data de estreia.

Do ponto de vista tecnológico, as restrições à exportação de equipamentos de litografia avançada, como máquinas da ASML, levaram a companhia a adotar técnicas de múltipla padronização para aumentar densidade de circuitos e a investir em empacotamento avançado, com empilhamento de circuitos. Analistas da SemiAnalysis apontam que essas rotas elevam risco de defeitos e reduzem rendimento, ainda abaixo dos padrões do setor, embora em melhora.

No segmento de HBM, a empresa testa amostras de HBM3, geração que a SK Hynix começou a fabricar há quatro anos, e planeja iniciar produção experimental até o fim de 2026, segundo fontes ouvidas pelo Wall Street Journal. O governo americano restringe exportação à China de alguns chips HBM avançados produzidos pelas três grandes fabricantes.

Estratégia de Pequim para autossuficiência em IA sustenta tese de investimento

O IPO da CXMT é tratado pelo governo chinês como marco da política de autossuficiência em semicondutores. A demanda por memórias para servidores de inteligência artificial, somada à orientação de Pequim para que fabricantes locais priorizem compradores domésticos, criou ambiente de oferta apertada e preços em alta. No início de 2026, autoridades orientaram produtores como a CXMT a dar preferência a clientes locais, segundo o Wall Street Journal.

Para o mercado, a listagem oferece um veículo raro de exposição direta ao superciclo de memórias dentro do mercado A-share. O analista Donnie Teng, da Nomura, citado pela Reuters, afirmou que a oferta não deve drenar liquidez de forma estrutural enquanto a demanda de hyperscalers por infraestrutura de IA permanecer forte. Em relatório divulgado no dia da estreia, o mesmo analista fixou preço-alvo de 116 yuans, implicando potencial de valorização de mais de 1.200% sobre o preço de IPO, com base em múltiplo de 20 vezes lucro, ante cerca de 5 vezes para fabricantes coreanas e 12 vezes para a Micron, segundo o MarketWatch.

Gestores, contudo, alertam para volatilidade. O estrategista Jing Jie Yu, da Morningstar, citado pela Reuters, considerou a alta de primeiro dia excessiva. O gestor Yuan Yuwei, da Trinity Synergy Investments, afirmou que o papel cheira a especulação. A própria CXMT advertiu no prospecto que o mercado de memórias pode enfraquecer se investimentos em IA desacelerarem ou se concorrentes adicionarem oferta em excesso.

Os recursos da oferta serão usados para expandir capacidade e acelerar desenvolvimento tecnológico. A expectativa de analistas é que a companhia siga ganhando participação em segmentos de DDR4 e DDR5 de menor custo, onde pratica preços 15% a 20% abaixo dos coreanos, e busque qualificação em clientes como HP e Dell, já em testes de qualidade, enquanto avança em HBM para reduzir a diferença tecnológica.

A próxima etapa relevante será a divulgação dos resultados auditados do primeiro semestre de 2026, prevista para as próximas semanas, e o detalhamento do uso efetivo dos recursos captados, incluindo cronograma de expansão de capacidade e metas de rendimento nas novas linhas.

Tags: ChangXin Memory TechnologiesCXMTDRAMEmpresasICBCIntelIPO Xangaimercado de memóriassemicondutores ChinaSTAR Market

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