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Elon Musk prevê fim do trabalho e do dinheiro em dez anos; economia impõe obstáculos à tese

Bilionário afirma que inteligência artificial e robôs criarão uma era de abundância, mas concentração de capital, escassez de recursos e transição do emprego desafiam o cenário

por Daniel Soto
29/07/2026 às 16h29
em Tecnologia
Elon Musk Prevê Fim Do Trabalho E Do Dinheiro Em Dez Anos; Economia Impõe Obstáculos À Tese - Gazeta Mercantil

Elon Musk afirmou que a combinação entre inteligência artificial e robôs humanoides poderá tornar o trabalho opcional e reduzir drasticamente a importância do dinheiro dentro de aproximadamente dez anos. A previsão foi apresentada em uma entrevista ao jornal britânico The Economist, na qual o empresário descreveu uma economia capaz de produzir bens e serviços em escala tão elevada que a escassez deixaria de determinar a vida material da população.

O fundador da Tesla, da SpaceX e da xAI sustentou que sistemas de inteligência artificial poderão superar a capacidade humana em praticamente todas as atividades intelectuais dentro de cinco anos. A etapa seguinte, segundo ele, seria a aplicação dessa inteligência em máquinas capazes de realizar trabalhos físicos, da indústria aos serviços domésticos.

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Nesse cenário, robôs assumiriam a maior parte das tarefas necessárias para produzir alimentos, construir moradias, fabricar bens, transportar pessoas e prestar serviços. O aumento da oferta seria mais rápido do que a expansão da quantidade de dinheiro em circulação, provocando queda generalizada dos preços.

Musk reconheceu que a inteligência artificial envolve riscos, inclusive a possibilidade de sistemas avançados agirem contra interesses humanos. Ainda assim, afirmou considerar mais provável um desfecho positivo, marcado por uma “abundância para todos”.

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A tese coincide com a nova orientação estratégica da Tesla, que passou a definir sua missão como a construção de um mundo de “abundância sustentável”. O plano corporativo atribui à inteligência artificial, à energia, aos veículos autônomos e ao robô humanoide Optimus o papel de ampliar a disponibilidade de trabalho e reduzir restrições econômicas.

Musk diz que trabalho se tornará escolha pessoal

Na visão apresentada por Musk, o emprego deixaria de ser uma condição necessária para garantir renda, alimentação ou moradia. Trabalhar passaria a ser uma atividade voluntária, comparável a cultivar uma horta por preferência, ainda que alimentos estejam disponíveis no comércio.

A mudança exigiria romper a ligação entre renda e trabalho que sustenta as economias contemporâneas. Atualmente, salários representam a principal fonte de recursos da maior parte das famílias. O rendimento permite pagar por bens produzidos por empresas que, por sua vez, utilizam receitas para remunerar funcionários, fornecedores, investidores e governos.

A automação em grande escala poderia reduzir a necessidade de trabalho humano, mas não define automaticamente como a produção seria distribuída. Mesmo que robôs diminuíssem drasticamente os custos, máquinas, centros de dados, terras, fábricas, matérias-primas e sistemas de energia continuariam pertencendo a empresas, governos ou indivíduos.

Para que a abundância industrial se transformasse em acesso universal, seria necessário desenvolver mecanismos de distribuição de renda ou de propriedade. Musk tem utilizado a expressão “renda alta universal”, em contraste com a renda básica universal, para descrever uma situação em que todas as pessoas teriam poder de consumo elevado.

O empresário, porém, não apresentou um desenho fiscal, jurídico ou institucional detalhado para financiar esse sistema. Também não explicou como seriam distribuídos os ganhos obtidos pelos proprietários dos modelos de inteligência artificial e dos robôs.

Dinheiro só perderia função com o fim da escassez

O dinheiro cumpre três funções principais: é usado como meio de troca, unidade de conta e reserva de valor. Sua importância não depende apenas do volume de bens produzidos, mas da existência de recursos escassos disputados por diferentes pessoas.

Mesmo que a inteligência artificial reduza o custo de serviços digitais e a robótica amplie a produção industrial, itens como terras bem localizadas, recursos minerais, energia, água, obras de arte e experiências exclusivas permaneceriam limitados.

Uma casa em determinada praia, um terreno no centro de uma grande cidade ou uma quantidade específica de minério não pode ser reproduzida indefinidamente por software. Enquanto houver bens cuja procura supere a oferta, algum mecanismo será necessário para definir quem poderá utilizá-los.

O dinheiro pode perder relevância em determinadas áreas sem desaparecer da economia. O custo de copiar um arquivo, enviar uma mensagem ou acessar determinadas informações já se aproximou de zero, mas isso não eliminou preços em setores dependentes de recursos físicos.

A inteligência artificial pode produzir fenômeno semelhante em serviços baseados em conhecimento. Textos simples, traduções, códigos, imagens e análises padronizadas podem se tornar mais baratos. Em contrapartida, energia computacional, chips avançados, dados exclusivos e infraestrutura física podem ganhar valor.

A previsão de Musk depende, portanto, não apenas de uma inteligência superior à humana, mas de uma expansão paralela da capacidade energética, mineral, industrial e logística.

Robô Optimus ocupa posição central na estratégia da Tesla

O Optimus é o elemento físico da tese de Musk. A Tesla desenvolve o robô humanoide para executar atividades repetitivas, perigosas ou que enfrentem escassez de mão de obra.

A empresa afirma que tecnologias originalmente criadas para seus veículos podem ser aproveitadas na robótica. Baterias, motores, sistemas de visão, computadores de inteligência artificial e softwares de navegação formam parte da base tecnológica do projeto.

O objetivo é construir uma máquina capaz de se movimentar em ambientes projetados para seres humanos, utilizar ferramentas e aprender novas tarefas. Um robô humanoide poderia trabalhar em fábricas existentes sem exigir a reconstrução completa das instalações.

A diferença entre demonstrações controladas e operação comercial em larga escala, entretanto, ainda é significativa. Ambientes industriais reais apresentam objetos irregulares, pessoas em movimento, variações de iluminação, superfícies instáveis e situações não previstas pelo software.

Robôs especializados já apresentam elevada produtividade em tarefas repetitivas, como soldagem e pintura de veículos. Uma máquina de uso geral precisa combinar mobilidade, equilíbrio, visão, precisão manual, autonomia energética e capacidade de decisão.

Para que o Optimus transforme a estrutura global do emprego, a Tesla precisaria produzir milhões ou bilhões de unidades a custos compatíveis com sua adoção. Também seria necessário assegurar confiabilidade, manutenção, segurança e responsabilidade por acidentes.

Estudos apontam transformação, não desaparecimento imediato dos empregos

As avaliações da Organização Internacional do Trabalho oferecem um cenário menos absoluto do que a previsão de Musk.

Um índice global elaborado pela OIT em parceria com o instituto polonês NASK concluiu que aproximadamente um em cada quatro empregos apresenta algum grau de exposição à inteligência artificial generativa. A exposição é maior nas funções administrativas e em atividades que dependem de processamento de informações.

O estudo não afirma que um quarto dos empregos será eliminado. A conclusão principal é que a transformação das ocupações é mais provável do que a substituição integral dos trabalhadores.

Uma profissão reúne diversas tarefas. Um modelo pode automatizar a elaboração de um documento, mas não necessariamente assume negociação, julgamento, supervisão, relacionamento com clientes e responsabilidade legal.

A revisão mais recente das evidências empíricas pela OIT identifica ganhos de produtividade em determinadas atividades, mas também alerta para riscos de desigualdade, redução de oportunidades para jovens e perda de autonomia dos trabalhadores.

As consequências dependerão de como as empresas adotarem a tecnologia. A inteligência artificial pode complementar funcionários, elevar produtividade e melhorar a qualidade do trabalho. Também pode ser utilizada principalmente para reduzir equipes, intensificar o controle e concentrar renda.

Produtividade pode crescer sem beneficiar todos

O aumento da produção imaginado por Musk não garante, por si só, que os ganhos serão distribuídos de maneira equilibrada.

A Revolução Industrial multiplicou a capacidade produtiva, mas seus primeiros estágios foram acompanhados por longas jornadas, baixos salários e condições precárias. Melhorias sociais ocorreram gradualmente, com organização trabalhista, leis, educação pública e políticas de proteção social.

A inteligência artificial poderá seguir trajetória semelhante. Proprietários dos modelos, centros de dados, robôs e redes de distribuição podem capturar parte desproporcional dos benefícios antes que novas instituições sejam criadas.

Pesquisas do Fundo Monetário Internacional indicam que os ganhos agregados da inteligência artificial podem ser substanciais, mas sua distribuição varia conforme o nível de adoção, a composição do mercado de trabalho e a concentração tecnológica entre países.

Economias com infraestrutura digital, capital e trabalhadores qualificados tendem a aproveitar a tecnologia mais rapidamente. Países de baixa renda podem enfrentar dificuldades para financiar centros de dados, importar chips ou formar profissionais.

Dentro de cada país, trabalhadores que utilizam inteligência artificial de maneira complementar podem obter ganhos salariais. Aqueles cujas funções forem substituídas poderão enfrentar desemprego ou migração para postos de menor remuneração.

A abundância prevista por Musk só será socialmente ampla caso produtividade, renda e acesso à tecnologia avancem em conjunto.

Deflação também pode produzir desequilíbrios

Musk argumenta que, se a produção crescer mais rapidamente do que a oferta monetária, os preços cairão. O raciocínio descreve uma força deflacionária: mais bens e serviços disponíveis para uma quantidade relativamente menor de dinheiro.

Preços menores aumentam o poder de compra dos consumidores, mas uma deflação ampla e persistente também pode prejudicar a economia. Famílias e empresas podem adiar compras esperando valores ainda mais baixos, reduzindo receitas e investimentos.

Dívidas também se tornam mais pesadas em termos reais. Um financiamento contratado por R$ 1 milhão continua exigindo o mesmo pagamento nominal, mesmo que preços, salários e faturamento estejam caindo.

Governos enfrentariam queda de arrecadação sobre salários e consumo, ao mesmo tempo que precisariam financiar programas de renda para trabalhadores substituídos.

A solução sugerida por Musk seria criar dinheiro em ritmo inferior ao crescimento da oferta de bens e distribuí-lo à população. Esse mecanismo dependeria de coordenação entre governos, bancos centrais e sistemas tributários.

A emissão monetária poderia compensar a falta de renda do trabalho, mas sua calibração seria complexa. Transferências excessivas diante de limitações físicas de oferta poderiam provocar inflação em setores ainda escassos, como moradia e energia.

Transição tende a ser mais difícil do que o estado final

Mesmo que uma economia de abundância seja tecnologicamente possível, a passagem do sistema atual para esse modelo envolveria riscos econômicos e políticos.

Empregos podem desaparecer antes que novos mecanismos de renda estejam disponíveis. Trabalhadores seriam atingidos em ritmos diferentes, conforme profissão, região, escolaridade e setor.

A automação inicial poderá se concentrar em atividades administrativas e digitais, enquanto construção, cuidados pessoais, manutenção e serviços físicos permanecem dependentes de pessoas. Essa diferença pode ampliar desigualdades salariais e regionais.

A substituição de trabalhadores também não significa queda imediata dos preços. Empresas podem utilizar a redução de custos para ampliar margens, especialmente em mercados concentrados e com poucos concorrentes.

Governos precisariam rever tributação. Sistemas atuais arrecadam grande parcela das receitas sobre salários, folhas de pagamento, consumo e lucros empresariais. Uma economia com menos trabalho humano exigiria uma base fiscal diferente.

Também surgiriam disputas sobre propriedade intelectual, uso de dados, responsabilidade de máquinas e poder das empresas que controlam os sistemas mais avançados.

Musk mantém histórico de previsões com prazos agressivos

Elon Musk construiu empresas que alteraram os setores de veículos elétricos, lançamentos espaciais e internet por satélite. Sua capacidade de transformar projetos considerados improváveis em operações comerciais explica a repercussão de suas previsões.

O empresário também possui histórico de estabelecer cronogramas que posteriormente são adiados. Metas para direção totalmente autônoma, produção de veículos e implantação de novas tecnologias nem sempre foram cumpridas nos prazos anunciados.

Prever inteligência superior à humana em cinco anos ou a irrelevância do dinheiro em dez anos envolve variáveis ainda mais amplas do que lançar um produto.

O resultado dependerá do avanço dos modelos, do custo da computação, da disponibilidade energética, da evolução da robótica, da regulação e da aceitação social.

Não existe hoje consenso científico ou econômico de que todos esses fatores convergirão dentro da janela indicada por Musk.

Abundância vira projeto empresarial da Tesla

Apesar das incertezas, a visão deixou de ser apenas uma declaração pessoal. A Tesla incorporou a “abundância sustentável” à sua estratégia oficial.

O plano da companhia afirma que avanços tecnológicos podem eliminar restrições e aumentar oportunidades, sem que o crescimento de uma área exija necessariamente perda em outra.

O Optimus teria a função de ampliar a oferta de trabalho. Veículos autônomos aumentariam a mobilidade e a utilização dos automóveis. Sistemas solares e baterias ajudariam a sustentar a demanda energética.

A estratégia também atende a uma mudança na avaliação da Tesla. A companhia busca ser percebida não apenas como montadora, mas como empresa de inteligência artificial, robótica e energia.

Essa transformação será testada por resultados concretos: capacidade de produzir robôs em escala, desempenho dos sistemas autônomos, custo das máquinas e receitas geradas pelos novos negócios.

Futuro de Musk depende mais da distribuição que da tecnologia

A inteligência artificial e a robótica têm potencial para reduzir custos, automatizar tarefas e ampliar a produção. Essa possibilidade encontra apoio em pesquisas sobre produtividade e nos investimentos realizados por algumas das maiores empresas do mundo.

O salto entre maior produtividade e desaparecimento do dinheiro, entretanto, exige uma transformação institucional tão profunda quanto a tecnológica.

Se máquinas produzirem a maior parte dos bens, a questão central deixará de ser apenas como fabricar. Passará a ser quem possui as máquinas, quem recebe a produção e como serão distribuídos recursos ainda escassos.

Sem uma resposta para essa estrutura, a abundância poderá coexistir com concentração de riqueza e desemprego. Com políticas adequadas, ganhos de produtividade poderão reduzir jornadas, ampliar serviços públicos e elevar padrões de vida.

A previsão de Musk expõe uma possibilidade extrema do avanço tecnológico. Ao mesmo tempo, antecipa o debate que governos, empresas e trabalhadores enfrentarão antes que o dinheiro se torne irrelevante: como repartir o valor criado por máquinas que necessitam de cada vez menos trabalho humano.

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