BRICS se fortalece em meio a tensões com Trump e amplia papel geopolítico global
O grupo BRICS, formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, tem buscado há mais de uma década consolidar um papel de protagonismo na política global. Com a crescente pressão dos Estados Unidos, especialmente com a política tarifária agressiva do ex-presidente Donald Trump, o bloco de países emergentes encontra hoje um novo fator de coesão para unificar sua atuação: a defesa do livre comércio, o fortalecimento do multilateralismo e o combate ao protecionismo unilateral.
A reunião mais recente do BRICS no Rio de Janeiro, sob liderança do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, marcou um ponto de inflexão. Pela primeira vez, os países sinalizaram de forma clara uma crítica às tarifas comerciais unilaterais e injustificadas, ainda que evitando citar diretamente os EUA. O movimento demonstra o amadurecimento do bloco, que ganha voz mais ativa na diplomacia internacional e começa a consolidar-se como um contraponto estratégico à hegemonia ocidental.
Veja a análise como o BRICS vem se fortalecendo em um cenário internacional polarizado, quais são os novos desafios após sua ampliação e como a disputa geopolítica com os EUA, especialmente sob a liderança de Trump, impulsiona um novo ciclo de unidade e ambição dentro do grupo.
A origem do BRICS e o desafio da unidade
O BRICS foi fundado em 2009 com o objetivo de representar as maiores economias emergentes do planeta e pressionar por maior voz nas decisões globais, historicamente concentradas nos países ocidentais. Apesar de avanços econômicos significativos, o grupo sempre enfrentou obstáculos relacionados à sua diversidade cultural, política e estratégica.
Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul compartilham a condição de grandes economias emergentes, mas suas prioridades internas, alinhamentos geopolíticos e sistemas de governo são muito distintos. Isso dificultou, por anos, o avanço de uma agenda comum.
As tarifas de Trump como catalisador do BRICS
Paradoxalmente, o endurecimento comercial dos EUA tem servido como elemento unificador para os países do BRICS. A política “América em Primeiro Lugar” de Donald Trump, marcada por tarifas elevadas, restrições comerciais e retórica isolacionista, pressionou os membros do bloco a se unirem em defesa do multilateralismo e da liberdade de comércio internacional.
Na cúpula realizada no Brasil em julho de 2025, os líderes do BRICS avançaram em um comunicado conjunto condenando medidas protecionistas unilaterais e tarifas aplicadas de forma indiscriminada. O gesto é um marco importante na história do grupo, que antes carecia de um ponto de convergência geopolítico claro.
A expansão do BRICS e seus novos desafios
Recentemente, o BRICS foi ampliado para incluir Egito, Etiópia, Irã, Indonésia e Emirados Árabes Unidos, elevando significativamente sua representatividade. Hoje, o bloco ampliado responde por aproximadamente 40% do PIB global e metade da população mundial.
Por outro lado, a expansão do BRICS também gera novas dificuldades. A diversidade interna aumentou, e os desafios de construir consenso em torno de temas delicados como segurança global, guerra e energia tornam-se ainda mais complexos. Ainda assim, há expectativa de que a representatividade ampliada permita ao BRICS reivindicar um papel mais central nas decisões da ONU, FMI e Banco Mundial.
BRICS e o papel do Brasil no novo cenário global
O Brasil tem assumido protagonismo dentro do BRICS em 2025, não apenas como sede da cúpula, mas também como articulador do novo ciclo de cooperação entre os membros. O presidente Lula aposta no grupo como instrumento de reequilíbrio da ordem mundial, inclusive propondo alternativas ao dólar no comércio bilateral e estimulando mecanismos de financiamento climático entre os membros.
A diplomacia brasileira busca aliar pragmatismo e ambição, dialogando com todas as potências — inclusive os EUA — mas liderando iniciativas que fortaleçam o Sul Global. O apoio à presidência do BRICS pela África do Sul no Conselho de Segurança da ONU é um exemplo desse esforço diplomático brasileiro por uma voz mais plural na geopolítica.
Oposição velada à hegemonia dos EUA
Embora a linguagem diplomática do BRICS evite confrontos diretos, a crítica às políticas unilaterais de Trump evidencia uma mudança de postura. O bloco passou de alternativa simbólica a polo articulador de resistência ao que considera práticas hegemônicas ocidentais.
A ameaça de Trump de impor tarifas de 100% a países que abandonarem o dólar reforçou o movimento entre os países do BRICS para desenvolver sistemas financeiros e comerciais próprios, com menor dependência da moeda americana. Ainda que o abandono do dólar não esteja oficialmente em pauta, as discussões apontam para uma gradual reconfiguração da economia global.
Comércio entre os membros do BRICS em expansão
Segundo o Fundo Monetário Internacional, o comércio entre os cinco membros originais do BRICS cresceu 40% entre 2021 e 2024, atingindo US$ 740 bilhões por ano. A tendência é de expansão contínua, à medida que os países firmam acordos bilaterais, investem em infraestrutura logística e desenvolvem sistemas de pagamento alternativos.
Esse crescimento comercial interno é estratégico para consolidar a autonomia do bloco frente às oscilações do mercado internacional, e fortalece sua posição nas cadeias produtivas globais.
O dilema das ausências e as divisões internas
Apesar do avanço na coesão política e comercial, o BRICS enfrenta desafios de imagem e credibilidade, com a ausência de líderes importantes como Xi Jinping e Vladimir Putin na cúpula do Rio de Janeiro. A ausência de Xi, que deve vir ao Brasil apenas na COP30, e a de Putin, que evita viagens internacionais por questões jurídicas, enfraquecem a percepção externa de unidade do bloco.
Além disso, há divisões sobre temas sensíveis como o apoio à África do Sul no Conselho de Segurança da ONU, a guerra na Ucrânia e a situação em Gaza. Enquanto Rússia e China resistem a menções diretas a conflitos armados, o Egito e outros novos membros pressionam por declarações mais assertivas sobre paz e segurança.
O futuro do BRICS e o protagonismo no Sul Global
Apesar dos entraves, o BRICS continua a se posicionar como principal força emergente na geopolítica internacional. Com peso crescente no comércio, na população e no PIB global, o bloco tem potencial para influenciar temas como segurança alimentar, financiamento climático, transição energética e transformação digital.
A presidência indiana do BRICS em 2026 promete intensificar as disputas internas por liderança entre Índia e China, mas também poderá consolidar avanços em uma agenda mais clara para o grupo. Enquanto isso, o Brasil segue sendo peça-chave na mediação das diferenças e no avanço do bloco rumo a um novo papel global.
O BRICS passa por um momento decisivo. As pressões externas, especialmente as tarifas de Trump, provocaram uma inesperada convergência entre seus membros. A ampliação do bloco, o aumento do comércio interno e a busca por alternativas ao dólar consolidam um movimento de autonomia e protagonismo global.
A cúpula no Brasil marca o início de um novo ciclo para o BRICS — mais coeso, mais ambicioso e mais relevante. Resta saber se essa nova fase será sustentada por uma agenda verdadeiramente comum ou se continuará sendo um esforço fragmentado entre potências emergentes com interesses diversos.






