✈️ Extradição de Carla Zambelli: entenda o impasse jurídico e diplomático entre Brasil e Itália
A extradição de Carla Zambelli tornou-se um dos assuntos mais sensíveis e complexos da política e do direito internacional nos últimos anos. Presa nesta terça-feira (29) em Roma, capital da Itália, a deputada federal licenciada e condenada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) enfrenta um processo que envolve interesses jurídicos, políticos e diplomáticos de dois países.
Com dupla cidadania — brasileira e italiana — e após ter sido considerada foragida desde maio de 2025, Zambelli foi localizada pela polícia italiana com base em informações prestadas por um deputado daquele país. Agora, o destino da parlamentar dependerá da decisão das autoridades judiciais italianas quanto ao pedido de extradição formalizado pelo governo brasileiro.
Prisão de Carla Zambelli na Itália: o que aconteceu?
Zambelli foi condenada a 10 anos de prisão pelo STF, que também decretou sua prisão preventiva, determinou o bloqueio de seus bens, apreendeu seus passaportes e solicitou sua inclusão na lista vermelha da Interpol. A parlamentar deixou o Brasil sob o pretexto de um tratamento médico na Europa, mas sua movimentação internacional levantou suspeitas, especialmente por sua permanência prolongada na Itália.
A prisão em Roma marca uma virada no caso. Com o pedido de extradição já protocolado, a questão passa a ser analisada pelo sistema jurídico italiano, que avaliará a legalidade e viabilidade do retorno da deputada ao Brasil para o cumprimento da pena.
O que diz a Constituição Italiana sobre extradição?
Um dos pontos centrais no debate sobre a extradição de Carla Zambelli é o fato de ela possuir cidadania italiana. De acordo com a Constituição da Itália, cidadãos italianos não podem ser extraditados, salvo em casos excepcionais e com base em tratados específicos.
Porém, o Tratado de Extradição entre Brasil e Itália, firmado em 1989, estabelece que o país requerido pode recusar a extradição de seus próprios cidadãos, mas deverá processá-los sob suas leis, se o crime for considerado punível também no território italiano. Isso significa que, se a Itália negar a extradição, Carla Zambelli pode ser processada e eventualmente cumprir pena no próprio país europeu, desde que haja tipificação semelhante ao crime cometido.
Caso Henrique Pizzolato: um precedente importante
O caso de Henrique Pizzolato, ex-diretor do Banco do Brasil e também cidadão ítalo-brasileiro, é constantemente citado como precedente relevante. Em 2015, o Conselho de Estado da Itália autorizou sua extradição, após considerar que o Brasil apresentava condições mínimas para a garantia dos direitos humanos e judiciais do extraditando.
Esse precedente aumenta as chances de que o mesmo se aplique à extradição de Carla Zambelli, especialmente porque a Justiça brasileira é reconhecida internacionalmente e o processo ocorreu em tribunais regulares, com ampla defesa e contraditório.
A gravidade dos crimes atribuídos a Carla Zambelli
A parlamentar foi condenada pelo envolvimento direto no caso hacker, no qual contratou o cibercriminoso Walter Delgatti Neto para invadir o sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e forjar documentos judiciais, incluindo um falso mandado de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes. A intenção, segundo o STF, era sabotar o processo eleitoral de 2022.
O crime foi tipificado como grave, com impactos diretos sobre a integridade das instituições democráticas brasileiras. O STF considerou que houve tentativa de golpe institucional, o que eleva a seriedade do caso no contexto da cooperação judicial internacional.
Interferência política no processo de extradição
O tema gerou forte repercussão no Parlamento Italiano. Deputados progressistas se manifestaram contrários à permanência da parlamentar no país europeu. Um dos nomes mais ativos no caso foi Angelo Bonelli, que compartilhou com a polícia italiana o endereço onde Zambelli estava hospedada e afirmou publicamente que a Itália “não pode servir de refúgio para golpistas”.
Esse tipo de posicionamento político pode influenciar a opinião pública italiana, pressionando o governo e o Judiciário a agirem com celeridade e responsabilidade internacional. A extradição de Carla Zambelli, portanto, não será analisada apenas sob o aspecto técnico, mas também dentro de uma narrativa geopolítica mais ampla.
Implicações diplomáticas entre Brasil e Itália
A eventual recusa da Itália em extraditar Zambelli pode desencadear um impasse diplomático com o Brasil. O Itamaraty acompanha de perto a situação, pois a decisão italiana terá efeitos sobre:
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A cooperação jurídica internacional
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A imagem institucional do STF
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A soberania das decisões judiciais brasileiras
Por outro lado, uma extradição bem-sucedida poderá reforçar os laços jurídicos e diplomáticos entre os dois países, consolidando o tratado bilateral como ferramenta eficaz no combate à impunidade transnacional.
Dupla nacionalidade e o dilema jurídico
A condição de dupla cidadania coloca Zambelli em uma zona cinzenta do direito internacional. Enquanto a Itália tenta proteger seus nacionais, o Brasil exige o retorno de uma cidadã brasileira condenada por crimes graves. Há ainda o debate sobre o uso da dupla nacionalidade como escudo contra a Justiça, o que pode levar a uma reavaliação das regras em tratados futuros.
O que diz o tratado Brasil-Itália?
O Tratado de Extradição entre Brasil e Itália estabelece que o pedido pode ser negado se:
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Houver risco de perseguição política ou religiosa;
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O crime for considerado delito político;
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O extraditando já tiver sido julgado ou cumprido pena;
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A pena for incompatível com os direitos humanos ou os padrões penais do país requerido.
No caso de Zambelli, os especialistas avaliam que esses critérios não se aplicam de forma clara, pois o processo ocorreu no Brasil em um tribunal constitucional e com garantia de defesa, sem alegações consistentes de perseguição política.
Possibilidades para o futuro de Zambelli
➤ Se a extradição for aprovada:
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A parlamentar será repatriada ao Brasil;
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Cumprirá a pena de 10 anos determinada pelo STF;
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A Câmara poderá finalizar o processo de cassação de seu mandato.
➤ Se a extradição for negada:
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Zambelli poderá permanecer na Itália;
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O Brasil pode pedir que a pena seja cumprida em território italiano;
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Pode haver impacto negativo nas relações diplomáticas entre os dois países.
Extradição de Carla Zambelli é teste internacional para o Brasil
A extradição de Carla Zambelli vai muito além de um caso jurídico. Ela representa um teste à soberania brasileira, ao funcionamento das instituições democráticas, e à eficácia dos mecanismos internacionais de cooperação judicial. O caso também pode abrir precedentes sobre crimes digitais transnacionais, interferência em eleições e uso político da cidadania.
Independentemente do resultado, o caso Zambelli servirá como exemplo para futuras decisões envolvendo duplas nacionalidades, extradições e conflitos entre soberanias nacionais e cooperação internacional.






