Ações brasileiras se destacam como preferidas na América Latina, segundo relatório do Bradesco BBI
Em um cenário global de incertezas econômicas e reprecificação de ativos, as ações brasileiras emergem como as favoritas entre os investidores que miram mercados emergentes na América Latina. Segundo o mais recente relatório do Bradesco BBI, divulgado nesta segunda-feira (4), o Brasil lidera o ranking de atratividade entre os países da região. O banco destaca uma série de fatores internos e externos que colocam o país em posição estratégica para receber novos aportes de capital, especialmente num momento de desaceleração dos Estados Unidos e reavaliação do “excepcionalismo americano”.
A conjuntura macroeconômica favorece as ações brasileiras
O Bradesco BBI aponta que o Brasil apresenta uma economia relativamente fechada e pouco integrada às dinâmicas globais, o que oferece uma proteção natural contra choques externos, como os que vêm sendo observados nos Estados Unidos, onde o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre de 2025 veio abaixo do esperado. Além disso, o mercado de trabalho norte-americano também começa a mostrar sinais de enfraquecimento, o que influencia diretamente o comportamento de investidores globais.
Diante dessa conjuntura, as ações brasileiras aparecem como opção segura e promissora. A leitura é de que a economia do país segue seu próprio ciclo de negócios e, por isso, está menos vulnerável à volatilidade externa. Isso se traduz em uma percepção de menor risco, principalmente quando comparada a outros países da América Latina.
Duplo desconto amplia a atratividade dos ativos brasileiros
Outro ponto ressaltado pelo Bradesco BBI é o chamado “duplo desconto” das ações brasileiras, que se refere à desvalorização tanto do câmbio quanto das ações em si. Com o real desvalorizado e o valuation das empresas brasileiras ainda abaixo da média histórica, investidores enxergam uma excelente janela de oportunidade para compra de ativos.
A expectativa de valorização cambial nos próximos meses reforça esse argumento. Com o dólar perdendo força frente a outras moedas e os bancos centrais globais promovendo mais cortes do que altas nas taxas de juros (proporção de quatro para um), o ambiente se torna ainda mais propício para que os recursos internacionais desembarquem no Brasil.
Ciclo de queda da Selic impulsiona o mercado de capitais
Um dos vetores internos que reforçam a atratividade das ações brasileiras é o ciclo de queda da taxa Selic. Atualmente em 15% ao ano, a expectativa é de novos cortes, o que deve impulsionar o mercado acionário, especialmente os papéis mais sensíveis aos juros, como os de varejo, construção civil, setor imobiliário e bancos.
Além disso, as eleições municipais de 2025 também entram no radar dos investidores como um fator que pode influenciar o comportamento dos ativos, com potencial de gerar maior previsibilidade política e econômica para o país.
Estatais e empresas sensíveis à taxa de juros lideram as recomendações
O relatório do Bradesco BBI dá destaque especial às ações de estatais e empresas cujos resultados são diretamente impactados pela variação da Selic. Essas empresas tendem a se beneficiar mais rapidamente da redução dos juros, tanto no custo de captação quanto na valorização de seus ativos.
Empresas como Banco do Brasil, Eletrobras, Petrobras e Caixa Seguridade são frequentemente citadas como bons exemplos de papéis que combinam bom desempenho operacional com atratividade de preço no atual contexto. Os analistas destacam ainda que mesmo que a economia doméstica apresente sinais de desaceleração, isso pode ser interpretado positivamente pelo mercado, ao sinalizar mais espaço para flexibilização monetária.
Comparativo com outros países latino-americanos
Além do Brasil, o relatório também avalia o panorama de outros mercados latino-americanos. O Chile aparece como a segunda melhor escolha, com recomendação de overweight (acima da média). A recuperação da economia chinesa, parceira comercial relevante do Chile, é vista como um fator de estímulo importante para os ativos do país.
Já o México recebeu recomendação neutra. Apesar da forte dependência econômica dos Estados Unidos, o país tem se destacado por empresas com alto poder de precificação e bom desempenho em Bolsa. Setores ligados à estratégia de nearshoring são considerados promissores, assim como companhias que operam em mercados oligopolistas.
A Argentina, por outro lado, segue com recomendação underweight (abaixo da média). A instabilidade cambial, o ano eleitoral e a forte dependência do petróleo como fonte de receita colocam o país em posição de risco elevado. O relatório aponta que a queda do petróleo Brent para abaixo de US$ 70 por barril e o aumento da produção da Opep agravam ainda mais o cenário argentino.
Fluxo de capital para a América Latina segue estável
O relatório do Bradesco BBI também destaca que, apesar da volatilidade nos mercados globais, o fluxo de capital em direção à América Latina tem se mantido estável. A criação de ETFs (fundos de índice) focados na região é apontada como um sinal de interesse estrutural dos investidores.
Esse comportamento sugere uma mudança na percepção sobre os mercados latino-americanos, que passam a ser vistos como alternativas mais sólidas e previsíveis em um mundo em transição econômica. E dentro dessa nova configuração, o Brasil ocupa posição central, sendo considerado o principal destino de investimentos na região.
Sinais técnicos também favorecem o Brasil
Do ponto de vista técnico, o relatório menciona que o índice DXY (Dollar Index), que mede a força do dólar frente a uma cesta de moedas, tem mostrado fraqueza ao não conseguir romper sua média móvel de 100 dias. Isso é interpretado como um indício de que o ciclo de valorização do dólar está perdendo força, o que costuma beneficiar países emergentes como o Brasil.
Com a moeda americana em trajetória de desvalorização e a Selic em queda, o ambiente se torna ideal para a valorização das ações brasileiras, especialmente para investidores estrangeiros que buscam rentabilidade em mercados com menor correlação com os riscos globais.
O Brasil vive um momento particularmente favorável para atrair investimentos em renda variável. O contexto internacional, marcado pela desaceleração dos EUA, e o ambiente interno de queda de juros, valorização cambial e estabilidade institucional, criam uma combinação rara de fatores positivos.
Segundo o Bradesco BBI, a reprecificação global dos ativos pode ser uma grande oportunidade para o investidor que souber identificar os ciclos regionais e aproveitar os descontos atualmente oferecidos pelas ações brasileiras. Com fundamentos sólidos e melhora nas expectativas macroeconômicas, o país tem todos os ingredientes para liderar a recuperação dos mercados emergentes na América Latina.






