Pix brasileiro: o que o sucesso do UPI da Índia revela sobre a ofensiva de Trump contra o sistema de pagamentos do Brasil
O Pix brasileiro está no centro de uma disputa comercial e tecnológica que ultrapassa fronteiras. Criado pelo Banco Central e adotado por quase 74% da população em apenas três anos, o sistema de pagamentos instantâneos revolucionou a forma como pessoas e empresas movimentam dinheiro no Brasil. Mas agora, ele se tornou alvo de uma investigação do governo dos Estados Unidos, conduzida pelo USTR (Escritório do Representante Comercial), que o classifica como uma possível “prática desleal” no mercado de serviços financeiros.
Enquanto isso, o sistema equivalente da Índia, o Unified Payments Interface (UPI) — lançado quatro anos antes, com mais funcionalidades e cerca de 500 milhões de usuários — segue crescendo e expandindo-se internacionalmente, sem sofrer a mesma pressão norte-americana. A comparação entre Pix e UPI ajuda a entender por que o Pix brasileiro entrou na mira da gestão Donald Trump.
A ascensão do Pix brasileiro
Lançado em 2020, o Pix brasileiro é um sistema de pagamentos instantâneos que permite transferências e pagamentos 24 horas por dia, sem tarifas para usuários e com liquidação imediata. Ele foi desenvolvido e operado diretamente pelo Banco Central do Brasil, com adesão obrigatória para todas as instituições financeiras com mais de 500 mil contas.
Essa característica deu ao Pix uma velocidade de adoção recorde no mundo: em apenas três anos, mais de 160 milhões de pessoas já haviam usado o sistema, segundo dados do BC. A inclusão financeira foi um dos grandes impactos positivos, permitindo que milhões de brasileiros sem conta bancária tradicional passassem a usar serviços digitais.
UPI x Pix: semelhanças e diferenças
O UPI indiano surgiu em 2016 como parte do projeto India Stack, que também incluiu a criação de um RG digital e políticas de incentivo à digitalização. Assim como o Pix, é gratuito, instantâneo e funciona sem necessidade de dados bancários complexos. Mas há diferenças importantes:
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Operação e regulação: no Brasil, o Banco Central é operador e regulador do Pix; na Índia, o Banco Central apenas regula, enquanto a operação é privada (NPCI — National Payments Corporation of India).
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Adoção: no Brasil, a adesão foi obrigatória para grandes bancos e fintechs; na Índia, foi voluntária.
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Funcionalidades: o UPI oferece recursos como pagamentos offline, por comando de voz e recorrentes (o “Pix Automático” só chegou ao Brasil anos depois).
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Expansão internacional: o UPI já funciona em países como Cingapura, Emirados Árabes e França; o Pix, por enquanto, opera oficialmente apenas no Brasil, embora empresas privadas já ofereçam soluções transfronteiriças.
Por que o Pix brasileiro está na mira dos EUA
Em julho de 2025, o USTR abriu investigação contra o Brasil, citando o Pix brasileiro como exemplo de serviço de pagamento eletrônico desenvolvido pelo governo que poderia prejudicar empresas americanas.
O argumento implícito é que, ao criar um sistema público, gratuito e amplamente aceito, o Brasil teria reduzido o espaço de atuação para multinacionais como Visa, Mastercard e big techs que operam carteiras digitais. O caso do WhatsApp Pay é emblemático: mesmo com o Brasil sendo um dos maiores mercados do aplicativo, o serviço de pagamentos não conseguiu competir com o Pix.
Big techs: perdedoras no Brasil, dominantes na Índia
Enquanto no Brasil o Pix brasileiro é usado diretamente dentro dos aplicativos de bancos e fintechs nacionais, na Índia o UPI é processado via aplicativos de terceiros — e aqui entram as big techs. Google Pay e PhonePe (do Walmart) dominam mais de 80% das transações no país.
No Brasil, o Banco Central bloqueou a entrada de soluções estrangeiras antes da consolidação do Pix, argumentando proteção à concorrência. Essa decisão fortaleceu empresas nacionais e reduziu a influência estrangeira no ecossistema de pagamentos.
O papel estratégico do Pix brasileiro
Além de modernizar pagamentos, o Pix brasileiro tornou-se uma infraestrutura estratégica para o país. Sua adoção massiva reduziu custos de transação, diminuiu a dependência de bandeiras internacionais e inspirou outros países — como a Colômbia, que desenvolveu um sistema similar com tecnologia brasileira.
Economistas como Paul Krugman elogiam o Pix, afirmando que ele pode representar o “futuro do dinheiro” pela eficiência e baixo custo. Ao mesmo tempo, sua estrutura estatal o torna um símbolo de soberania digital e independência tecnológica.
Impactos econômicos e geopolíticos
A ofensiva de Trump contra o Pix brasileiro ocorre no contexto do tarifaço de 50% contra produtos brasileiros, parte de uma estratégia mais ampla de proteção à indústria americana. O setor de pagamentos é especialmente sensível porque movimenta trilhões e envolve gigantes do Vale do Silício.
Especialistas acreditam que, além da competição com empresas americanas, há preocupação com o precedente: se outros países seguirem o modelo brasileiro, grandes corporações perderiam espaço globalmente.
Lições da comparação com o UPI
A trajetória do UPI mostra que sistemas públicos ou semi-públicos podem coexistir com empresas estrangeiras quando há abertura e parceria com multinacionais. Já o Pix brasileiro demonstra que é possível criar um ecossistema nacional robusto e competitivo, mas isso pode gerar atritos comerciais com potências econômicas.
Para o Brasil, o desafio será defender o Pix como instrumento legítimo de política pública e, ao mesmo tempo, buscar sua internacionalização oficial, fortalecendo sua relevância no comércio global.
O futuro do Pix brasileiro
Há três frentes possíveis para o futuro do Pix brasileiro:
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Defesa comercial: o governo precisará negociar com os EUA para evitar sanções ou restrições.
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Inovação tecnológica: incorporar funcionalidades como pagamentos offline e integração com cartões de crédito, seguindo exemplos do UPI.
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Expansão internacional: estabelecer acordos bilaterais para uso do Pix em outros países de forma oficial.
O desfecho dessa disputa poderá definir não apenas o destino do Pix, mas também o modelo de pagamentos digitais no mundo nos próximos anos.






