Ações da Intel: governo dos EUA assume 10% de participação e empresa alerta para riscos globais
O governo dos Estados Unidos confirmou que comprará 10% das ações da Intel, em um movimento inédito que transforma subsídios da Lei Chips em participação acionária direta na gigante dos semicondutores. A transação, avaliada em US$ 8,9 bilhões (cerca de R$ 48 bilhões), será concluída no dia 26 de agosto de 2025.
A medida, anunciada nesta segunda-feira (25), vem em um momento crítico para a empresa, que tenta se recuperar após prejuízo de US$ 18,8 bilhões em 2024, o primeiro resultado negativo desde 1986. Embora o apoio governamental dê fôlego à companhia, a própria Intel alertou que a presença do governo americano em seu quadro de acionistas pode trazer riscos relevantes para seus negócios internacionais e para os atuais investidores privados.
Por que os EUA compraram ações da Intel?
A decisão de transformar os subsídios em participação ocorre após pressões diretas do presidente Donald Trump, que vem conduzindo uma política agressiva de segurança nacional no setor de chips.
Segundo documentos oficiais, o governo usará US$ 5,7 bilhões (R$ 30,8 bilhões) em concessões não pagas da Lei Chips — implementada na era Biden — e US$ 3,2 bilhões (R$ 17,3 bilhões) concedidos ao programa Secure Enclave. Dessa forma, a compra de ações da Intel será feita com um desconto de US$ 4,00 em relação ao preço de mercado, reduzindo o valor de cada ação de US$ 24,80 para US$ 20,80.
Esse modelo, considerado intervenção extraordinária, é visto por analistas como uma forma de o governo garantir maior controle sobre a cadeia de produção de semicondutores e reduzir dependência de fornecedores estrangeiros, sobretudo da China.
O que representa essa participação de 10%?
Com a aquisição de 10% das ações da Intel, o governo americano se torna um dos maiores acionistas da companhia. Isso traz benefícios, mas também desafios:
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Benefícios: apoio financeiro direto, maior estabilidade para investimentos em novas fábricas e sinalização ao mercado de que os EUA não deixarão a Intel perder competitividade global.
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Riscos: diluição da participação de acionistas privados, redução do poder de voto de investidores existentes e maior influência política sobre as decisões corporativas.
A Intel reconheceu, em documento enviado à SEC, que a entrada do governo pode limitar sua liberdade de buscar parcerias estratégicas, aquisições ou mesmo novos subsídios em outros países.
Ações da Intel e os impactos internacionais
A Intel ainda destacou que 76% de sua receita em 2024 veio de fora dos EUA, com a China representando 29% do total. Isso significa que a entrada do governo americano como acionista majoritário pode gerar barreiras adicionais em mercados externos, sujeitando a companhia a novas regulamentações de subsídios estrangeiros.
Especialistas avaliam que outros governos poderão se sentir pressionados a reagir, impondo restrições comerciais ou regulatórias. Isso pode afetar especialmente a presença da Intel em países asiáticos, onde a concorrência com fabricantes locais, como TSMC e Samsung, já é intensa.
Trump, a Intel e a segurança nacional
Desde o início de seu mandato, Donald Trump tem adotado uma postura intervencionista no setor de tecnologia. Além da compra de ações da Intel, o governo também apoiou negociações estratégicas envolvendo a Nvidia e a MP Materials, buscando garantir acesso a processadores de inteligência artificial e a minerais raros essenciais.
A pressão de Trump também foi pessoal: o presidente americano pediu a renúncia de Lip-Bu Tan, CEO da Intel desde março de 2025, alegando “conflitos de interesse” devido a vínculos com empresas chinesas. Essa intervenção política direta aumentou a instabilidade interna e expôs o grau de influência do governo sobre a companhia.
O alerta da Intel aos investidores
A própria Intel divulgou uma lista de “fatores de risco” relacionados à compra das ações. Entre os principais pontos:
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Diluição dos acionistas: como o governo comprará ações com desconto, os investidores existentes terão redução proporcional em sua participação.
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Perda de influência: a presença governamental reduz o poder de voto de outros acionistas privados.
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Limitação estratégica: a companhia pode enfrentar dificuldades para buscar novos subsídios internacionais, já que outros governos podem interpretar a participação americana como vantagem competitiva desleal.
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Risco de imagem: a dependência do apoio governamental pode prejudicar a percepção da empresa como líder independente no setor.
O futuro da Intel com o governo como sócio
A aquisição de 10% das ações da Intel representa um marco histórico para a indústria de semicondutores. Para a empresa, o apoio financeiro pode ser essencial para superar o atual momento de portfólio enfraquecido e dificuldades em atrair clientes para suas novas fábricas.
No entanto, os riscos geopolíticos e os desafios de mercado permanecem. A Intel precisa equilibrar a pressão política dos Estados Unidos com a necessidade de manter relações comerciais sólidas em mercados globais, especialmente na Ásia, responsável por grande parte de sua receita.
A compra de 10% das ações da Intel pelo governo dos Estados Unidos mostra o peso estratégico do setor de semicondutores na segurança nacional. Embora o movimento traga reforço financeiro, ele também gera incertezas para acionistas e para o futuro da empresa em mercados internacionais.
Com Trump pressionando por maior controle estatal sobre empresas estratégicas, a Intel entra em uma nova fase — marcada por apoio governamental sem precedentes, mas também por riscos de ingerência política e reações globais.









