Eixo Washington-Buenos Aires: Argentina e EUA selam acordo comercial histórico para eliminar 1.800 tarifas
O cenário das relações exteriores nas Américas registrou nesta quinta-feira um marco que promete reconfigurar os fluxos de capitais e mercadorias no Hemisfério Sul. Em cerimônia realizada em Washington, representantes das gestões de Donald Trump e Javier Milei formalizaram um acordo comercial sem precedentes. O tratado prevê a eliminação mútua de mais de 1.800 tarifas bilaterais, sinalizando o fim de décadas de protecionismo argentino e a integração definitiva do país vizinho à órbita econômica norte-americana.
A assinatura do documento pelo chanceler argentino, Pablo Quirno, e pelo representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, é vista por analistas como a maior vitória diplomática de Milei desde sua posse. O acordo comercial foca na desoneração de setores estratégicos, com os Estados Unidos concordando em remover 1.600 tarifas sobre produtos argentinos, enquanto Buenos Aires extinguirá 220 tributos sobre mercadorias produzidas nos EUA. O movimento consolida um novo paradigma de liberalismo econômico no Cone Sul.
A arquitetura técnica do acordo comercial e os trâmites legislativos
A eficácia plena do acordo comercial depende agora da ratificação pelo Congresso argentino. Embora o partido de Milei tenha obtido vitória expressiva nas recentes eleições legislativas, o debate nas câmaras deve ser intenso, dada a tradição industrialista de certas províncias. Jamieson Greer, ao celebrar o pacto, destacou que a parceria entre Trump e Milei serve como um modelo de cooperação para as Américas, estabelecendo padrões que podem influenciar futuros tratados regionais.
Milei celebrou o pacto como a ferramenta necessária para que o país recupere o protagonismo global. A abertura econômica via acordo comercial é vista como a via para atrair o investimento estrangeiro direto (IED) necessário para estabilizar a macroeconomia argentina e reduzir as pressões inflacionárias que ainda persistem no peso argentino.
Pecuária e agronegócio: a carne argentina no centro da pauta
Um dos pilares mais robustos do acordo comercial envolve o setor de proteína animal. A Argentina obteve uma concessão histórica: a cota de exportação de carne bovina para os Estados Unidos com acesso preferencial saltou de 20 mil para 100 mil toneladas anuais. Esta ampliação tem o potencial de injetar aproximadamente US$ 800 milhões extras na economia argentina, fortalecendo as reservas de divisas do Banco Central da República Argentina (BCRA).
Entretanto, este ponto do acordo comercial carrega um potencial de tensão política em solo norte-americano. Parlamentares republicanos ligados aos estados pecuaristas já manifestaram preocupação com a entrada massiva da carne argentina. O desafio de Trump será equilibrar sua aliança ideológica com Milei e a proteção de sua base eleitoral rural, o que promete tornar o processo de implementação do acordo comercial um exercício de diplomacia interna complexo.
Fluxo de importações e a modernização da indústria argentina
O acordo comercial estabelece que a Argentina abrirá suas fronteiras para uma vasta gama de produtos industriais e agrícolas americanos. Entre os itens desonerados estão máquinas pesadas, peças médicas e insumos químicos essenciais para a produtividade industrial. No setor automotivo, as tarifas sobre autopeças específicas cairão para apenas 2%, permitindo que as montadoras instaladas na Argentina reduzam custos de produção.
Além da troca de bens físicos, o acordo comercial traz uma inovação regulatória: a Argentina passará a aceitar alimentos certificados pela Food and Drug Administration (FDA), a agência de saúde dos EUA. Essa medida elimina barreiras técnicas e burocráticas, facilitando a entrada de produtos alimentícios americanos. Essa harmonização de padrões sanitários e técnicos é um componente vital do acordo comercial para reduzir custos de transação e acelerar o consumo interno de bens de alta qualidade.
Sustentação cambial e o papel do Tesouro dos EUA
A confiança para que Milei avançasse neste ambicioso acordo comercial foi pavimentada por um suporte financeiro robusto vindo de Washington. Em setembro passado, o Tesouro dos EUA anunciou um pacote de assistência de US$ 20 bilhões para a Argentina. Esse aporte foi fundamental para mitigar a crise cambial e sustentar o valor do peso, criando o ambiente de estabilidade necessário para que o governo pudesse propor uma abertura comercial tão profunda sem o risco de um colapso imediato da indústria local.
A reação dos mercados ao acordo comercial e ao apoio financeiro tem sido amplamente positiva. Com a vitória esmagadora do partido de Milei nas eleições legislativas, a percepção de risco-país diminuiu, atraindo investidores institucionais que veem na Argentina um novo laboratório de reformas liberais. O acordo comercial atua, portanto, como uma garantia de que a abertura econômica possui lastro político e apoio da maior potência do planeta.
O fim do isolamento econômico e o histórico protecionista
A Argentina figurava, até então, como uma das economias mais fechadas do mundo, com tarifas médias de importação na casa de 13%. O acordo comercial rompe com uma tradição que remonta ao período de substituição de importações. Milei aposta que, ao contrário dos anos 90, o atual acordo comercial foca na integração de cadeias de valor, e não apenas na abertura indiscriminada.
A reformulação da economia argentina via acordo comercial pressupõe que o aumento da concorrência elevará a produtividade das empresas locais. Aquelas que não conseguirem competir serão forçadas a se reinventar ou migrar para setores onde a Argentina possui vantagens comparativas naturais. Para o governo argentino, o custo político de curto prazo da abertura via acordo comercial é um investimento necessário para erradicar a ineficiência estrutural.
Propriedade intelectual e a fronteira do comércio digital
Além das mercadorias físicas, o acordo comercial avança sobre temas contemporâneos como direitos de propriedade intelectual e comércio digital. O tratado consolida compromissos que garantem maior proteção para empresas de tecnologia norte-americanas que operam na Argentina, facilitando o fluxo de dados e a instalação de centros de serviços digitais. Este capítulo do acordo comercial é estratégico para transformar a Argentina em um polo tecnológico na América Latina.
A proteção à propriedade intelectual prevista no acordo comercial é um requisito fundamental para que empresas de biotecnologia e software intensifiquem suas operações em solo argentino. Ao alinhar sua legislação com os padrões americanos através deste acordo comercial, Buenos Aires sinaliza que o país está pronto para hospedar investimentos de alto valor agregado, diversificando sua pauta exportadora para além das commodities tradicionais.
A reconfiguração das cadeias de suprimentos nas Américas
O acordo comercial entre Trump e Milei deve ser lido dentro do contexto global de nearshoring. Os Estados Unidos buscam parceiros confiáveis para reduzir a dependência de fornecedores asiáticos. Nesse sentido, o acordo comercial posiciona a Argentina como um fornecedor estratégico de alimentos, energia e minerais críticos. A eliminação de tarifas facilita a integração de processos produtivos, onde componentes americanos podem ser montados na Argentina e reexportados.
Para a indústria automobilística regional, este acordo comercial representa uma mudança de paradigma. A redução de tarifas para apenas 2% em autopeças americanas permite que as fábricas argentinas se tornem mais eficientes, integrando-se de forma mais fluida à cadeia de suprimentos global da General Motors e da Ford. O impacto desse acordo comercial na geração de empregos qualificados no setor industrial argentino pode ser o diferencial para a sustentação do apoio popular de Milei.
Desafios geopolíticos e a relação com o Mercosul
A assinatura deste acordo comercial coloca a Argentina em uma posição singular dentro do Mercosul. Tradicionalmente, os países do bloco devem negociar tratados comerciais de forma conjunta. Ao avançar em um acordo comercial bilateral desta magnitude com os EUA, Milei testa os limites institucionais do bloco regional e pressiona parceiros como o Brasil a acelerarem suas próprias agendas de abertura. A diplomacia brasileira monitora de perto os desdobramentos desse acordo comercial, avaliando os riscos de desvio de comércio.
A aposta de Milei no acordo comercial bilateral sinaliza que a Argentina não está disposta a esperar pelo consenso regional para buscar seu crescimento. Para o governo de Buenos Aires, a urgência econômica sobrepõe-se à liturgia do Mercosul, e o acordo comercial com Washington é visto como o primeiro de uma série de tratados que Milei pretende buscar com outras potências liberais visando cercar a Argentina de uma rede de livre-comércio.
Perspectivas para o crescimento sustentável via abertura econômica
O sucesso deste acordo comercial será medido pela capacidade da Argentina em aumentar suas exportações sem destruir seu tecido social. O governo aposta que a abertura comercial trará um choque de investimentos que compensará eventuais perdas em setores ineficientes. A abertura para máquinas e tecnologias americanas via acordo comercial deve permitir que o campo e a indústria argentina se modernizem, elevando o PIB potencial do país para os próximos anos.
Para o investidor, o acordo comercial é o sinal mais claro de que o país mudou sua orientação estratégica de forma permanente. A integração com os Estados Unidos via acordo comercial cria uma âncora de credibilidade que a Argentina não possuía há gerações. Se o Congresso ratificar o texto, o acordo comercial se tornará o pilar sobre o qual Milei construirá seu legado econômico, transformando a Argentina de um pária protecionista em uma economia aberta e dinâmica.
A consolidação de um novo padrão de cooperação hemisférica
O impacto deste acordo comercial vai além das fronteiras dos dois países envolvidos. Ele estabelece um novo padrão para parcerias entre governos liberais nas Américas. Ao focar na eliminação total de tarifas e na harmonização regulatória, o acordo comercial Trump-Milei oferece uma alternativa prática ao modelo de integração tradicional. A agilidade com que este acordo comercial foi negociado demonstra que, quando há alinhamento ideológico e pragmatismo econômico, as barreiras históricas podem ser derrubadas.
O desfecho deste processo dependerá da execução técnica e da manutenção da estabilidade política. Contudo, o acordo comercial assinado em Washington já nasce como um dos fatos econômicos mais relevantes da década para a América Latina. Ele desafia o status quo e convida o continente a repensar suas estratégias de inserção global. A Argentina, através deste acordo comercial, deu o primeiro passo para uma jornada que pode levá-la de volta ao grupo das nações mais ricas do mundo.









