A trajetória do PicPay (PICS) na Nasdaq: os desafios da precificação e a nova realidade das fintechs
O mercado financeiro acompanhou com atenção o encerramento do longo jejum de ofertas públicas iniciais de empresas brasileiras no exterior. A listagem do PicPay (PICS) na Nasdaq foi celebrada como um marco, simbolizando a retomada do apetite dos investidores globais por ativos de tecnologia e serviços financeiros originados na América Latina. No entanto, o entusiasmo inicial da cerimônia em Nova York deu lugar a uma análise mais sóbria e técnica por parte dos gestores de fundos e analistas de mercado. Desde sua estreia, as ações da companhia acumulam uma retração de 17%, um movimento que levanta questionamentos fundamentais sobre as teses de investimento em fintechs e os múltiplos de avaliação aplicados ao setor.
A operação, que movimentou cerca de US$ 500 milhões, teve seus papéis precificados no topo da faixa indicativa, entre US$ 16 e US$ 19. Essa precificação agressiva refletia a confiança da administração e dos coordenadores da oferta na robustez do modelo de negócio da companhia dos irmãos Batista. Contudo, o desempenho subsequente das ações PICS serviu como um termômetro para o setor, influenciando diretamente outras janelas de capitalização, como a do AgiBank, que precisou ajustar suas expectativas e reduzir o tamanho de sua própria oferta pública diante da volatilidade e da seletividade do mercado.
O choque entre múltiplos de crescimento e a realidade do lucro
Para compreender o que explica a desvalorização das ações do PicPay, é necessário dissecar a composição da sua avaliação de mercado. Diferente das “bolhas” tecnológicas do passado, onde o crescimento de base de usuários era a única métrica relevante, o cenário atual exige uma trajetória clara e crível de lucratividade. De acordo com gestores de ativos que acompanham o papel de perto, a expectativa implícita no preço de mercado do PicPay (PICS) situava a empresa em um múltiplo de aproximadamente 20 vezes o lucro projetado para 2025.
Em uma visão prospectiva, esses números sugeriam uma convergência para 12 vezes o lucro em 2026 e meras 7 vezes em 2027. À primeira vista, tais múltiplos não parecem excessivos para uma empresa de tecnologia com alto potencial de escala. O problema central, contudo, reside na execução. Para que esses lucros se materializem nas janelas de tempo previstas, a companhia depende de uma aceleração substancial em sua carteira de crédito. É justamente neste ponto que o mercado se divide: o risco de inadimplência em um cenário macroeconômico ainda incerto torna as projeções de lucro alvo de ceticismo.
O crédito é, por natureza, uma faca de dois gumes para os bancos digitais. Se por um lado ele é o motor da monetização e da rentabilidade, por outro, exige uma gestão de risco impecável. A transição de uma carteira digital (wallet) para um banco digital completo exige que o PicPay (PICS) comprove sua capacidade de emprestar com inteligência em um mercado brasileiro historicamente complexo. O investidor institucional, hoje, prefere pagar um prêmio pela certeza da execução do que pela promessa do crescimento desenfreado.
A frustração da tese de “ganho rápido” na Nasdaq
Uma análise do perfil dos acionistas que entraram na oferta inicial revela parte da pressão vendedora que o papel sofreu. Uma parcela significativa dos investidores era composta por fundos de growth e entusiastas do setor de tecnologia, atraídos por uma narrativa de reprecificação rápida. A aposta era que, ao ser listado nos Estados Unidos, o PicPay (PICS) passaria a ser comparado com pares globais que negociam a múltiplos muito superiores aos das instituições financeiras tradicionais do Brasil.
Essa reprecificação, todavia, não se concretizou. Em vez disso, o mercado optou por tratar a fintech com a cautela reservada às operações de crédito emergentes. Quando o movimento de alta imediata — o famoso “pop” de IPO — não ocorreu, muitos investidores focados em ganhos de curto prazo (short-term) iniciaram um processo de liquidação de suas posições, retroalimentando a queda das ações. O que se viu foi a frustração de uma tese baseada puramente em arbitragem de múltiplos, forçando o papel a buscar um piso baseado em seus fundamentos reais.
O CEO do PicPay, Eduardo Chedid, tem enfatizado que a listagem é o início de um capítulo focado em eficiência e consistência. A companhia pretende utilizar os recursos captados para fortalecer seu capital de giro e financiar a aquisição estratégica da Kovr Seguradora, sinalizando uma diversificação de receitas para além do crédito e das taxas de transação. A integração de seguros pode ser um diferencial competitivo importante, ajudando a elevar o LTV (Lifetime Value) do cliente e reduzindo o custo de aquisição (CAC).
O setor de tecnologia e a seletividade dos investidores globais
A performance do PicPay (PICS) não pode ser analisada de forma isolada. Ela ocorre em um contexto de mau humor generalizado com empresas de tecnologia que operam com margens apertadas e dependência de financiamento externo. No cenário global, a era do “dinheiro barato” ficou para trás, e o custo do capital tornou-se uma métrica de sobrevivência. Investidores estão menos tolerantes a empresas que queimam caixa para adquirir usuários, priorizando aquelas que demonstram “Unit Economics” (economia unitária) positivas.
No caso do PicPay, a escala já foi alcançada. Com milhões de usuários ativos, o desafio agora é a profundidade: quanto de cada carteira o banco consegue capturar? A migração para o modelo de banco completo visa justamente aumentar essa participação. Mas, como apontado por especialistas, a linha que separa o crescimento rentável do aumento da inadimplência é tênue. A disciplina operacional será o fator determinante para saber se a queda de 17% é uma oportunidade de entrada ou o início de um ajuste de valor mais profundo.
O mercado brasileiro, por sua vez, observa o desempenho das ações na Nasdaq com cautela. Outras instituições financeiras nacionais que cogitavam o IPO internacional agora recalibram suas estratégias. O exemplo do AgiBank, que reduziu sua oferta pela metade, é a prova mais clara de que o “efeito PicPay” gerou uma onda de realismo nas mesas de negociação. A qualidade do balanço patrimonial e a transparência nas métricas de risco tornaram-se os novos imperativos para o sucesso de qualquer oferta pública.
Perspectivas para a monetização da base de clientes e riscos de execução
O sucesso a longo prazo do PicPay (PICS) está intrinsecamente ligado à sua capacidade de transformar usuários de serviços gratuitos em clientes rentáveis de crédito e seguros. A narrativa de “Super App” ainda é sedutora, mas a execução no Brasil enfrenta barreiras culturais e competitivas. Com a entrada no mercado de seguros através da Kovr, o PicPay busca criar um ecossistema mais resiliente, onde as receitas recorrentes possam mitigar a volatilidade das margens de crédito.
Entretanto, o risco de execução permanece como a principal preocupação dos analistas. A aceleração do crédito em um momento em que a taxa Selic permanece em patamares elevados impõe um desafio adicional ao custo de captação da fintech. Se a inadimplência subir acima do projetado, a trajetória de lucros esperada para 2026 e 2027 pode ser severamente comprometida, o que forçaria novas revisões para baixo no preço-alvo das ações.
A gestão da companhia possui o desafio de reconquistar a confiança do mercado, entregando resultados trimestrais que comprovem a eficiência operacional prometida durante o roadshow. O mercado de capitais é implacável com empresas que falham em entregar as projeções fornecidas no momento do IPO. Para o PicPay, o momento é de provar que a consistência mencionada por Chedid não é apenas uma meta, mas uma realidade operacional tangível que justifica o investimento na Nasdaq.
O futuro das ações PICS e o novo paradigma do mercado financeiro
Olhando para o futuro, o caminho para a recuperação das ações do PicPay (PICS) passa obrigatoriamente pela entrega de lucros crescentes e pelo controle rigoroso dos ativos problemáticos. A queda acumulada de 17% desde o IPO reflete um ajuste de expectativas e uma purga de investidores especulativos. O que sobra agora é um investidor mais institucional, focado no longo prazo, que avaliará cada passo da integração com a Kovr Seguradora e a evolução do índice de Basileia da instituição.
A experiência do PicPay nos Estados Unidos serve como uma lição valiosa para o ecossistema brasileiro de inovação. Listar em uma bolsa como a Nasdaq oferece visibilidade e acesso a um capital vasto, mas também sujeita a empresa a uma lupa de análise muito mais rigorosa e a uma volatilidade inerente aos fluxos globais de liquidez. A tese de investimento no PicPay deixou de ser uma aposta em tecnologia pura para se tornar uma tese de execução bancária eficiente com DNA digital.
Se a fintech conseguir navegar pelos desafios da inadimplência e entregar a rentabilidade projetada, o desconto atual das ações poderá ser visto, em retrospecto, como um ajuste necessário de mercado. Por ora, o foco do investidor permanece na prudência. A trajetória do PicPay na Nasdaq continuará sendo o principal indicador para a saúde das fintechs brasileiras no exterior, ditando o ritmo de novas ofertas e o nível de exigência para o capital que busca retorno no setor financeiro digital.









