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Banco Master discutiu plano com BTG e FGC antes de acordo frustrado com BRB

Proposta atribuída a Daniel Vorcaro previa cisão parcial do Master, transferência de ativos para nova estrutura, gestão pelo BTG Pactual e apoio do Fundo Garantidor de Créditos para honrar vencimentos de CDBs

por Álvaro Lima
17/05/2026 às 21h27
em Economia
Banco Master Discutiu Plano Com Btg E Fgc Antes De Acordo Frustrado Com Brb - Gazeta Mercantil

O Banco Master discutiu com o BTG Pactual (BPAC11), antes da tentativa frustrada de venda ao Banco de Brasília (BRB), uma operação de reestruturação que previa a transferência de parte dos ativos e passivos da instituição para uma nova estrutura administrada pelo BTG, com apoio do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A proposta, atribuída ao banqueiro Daniel Vorcaro, foi encaminhada em 10 de abril de 2025 ao ex-sócio Augusto Lima, segundo mensagens extraídas do celular de Vorcaro e analisadas pela Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero.

O plano foi discutido em um momento de forte pressão sobre o Banco Master, que enfrentava questionamentos sobre liquidez, qualidade de ativos e capacidade de honrar vencimentos de Certificados de Depósito Bancário, os CDBs. A alternativa previa uma cisão parcial da instituição, com ativos avaliados em R$ 43,5 bilhões e passivos de R$ 33 bilhões transferidos para o Banco Master de Investimento, o BMI.

Leia também: Banco Mundial revisa projeções econômicas para o Brasil: crescimento em 2024.

A proposta, no entanto, não avançou. Segundo a apuração original de Fabio Serapião e Natália Portinari, do UOL, citada pelo Times Brasil, Vorcaro descartou o desenho com o BTG Pactual e preferiu seguir com a tentativa de venda de toda a estrutura do Banco Master ao BRB. O banco estatal de Brasília anunciou oficialmente a proposta de aquisição em 31 de março de 2025, antes de a operação ser frustrada.

O Times Brasil informou que tentou contato com o BTG Pactual e com a defesa de Daniel Vorcaro, mas não obteve resposta até a última atualização da reportagem. O espaço para manifestação permaneceu aberto.

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Mensagens indicam pedido de sigilo sobre o plano

As mensagens analisadas pela Polícia Federal mostram que Daniel Vorcaro compartilhou o plano com Augusto Lima em 10 de abril de 2025. Em uma das conversas, atribuída ao banqueiro, Vorcaro pediu que a informação não fosse repassada a terceiros.

“Irmão pelo amor de Deus. Não passe isso pra ninguém”, escreveu Vorcaro às 20h46, segundo os registros do celular citados na apuração. Na sequência, Augusto Lima respondeu: “Lógico irmão. Tá doido”.

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O conteúdo das mensagens reforça que a proposta era tratada de forma reservada. Ainda assim, a existência das conversas não significa, por si só, que o plano tenha sido implementado ou que tenha gerado efeitos jurídicos. A análise das autoridades deverá considerar o contexto das negociações, os documentos produzidos, a situação financeira do Banco Master à época e o papel efetivo de cada instituição envolvida.

A Operação Compliance Zero investiga suspeitas relacionadas ao Banco Master, a seus controladores e a estruturas financeiras vinculadas à instituição. Como em qualquer investigação, os citados têm direito à defesa, e eventual responsabilização depende de apuração, contraditório, provas documentais e decisão das autoridades competentes.

Estrutura previa separação de ativos e passivos do Master

O desenho da operação previa uma cisão parcial do Banco Master. Os ativos que não seriam incorporados diretamente pelo BTG Pactual seriam transferidos para o Banco Master de Investimento, o BMI. A carteira envolvida era avaliada em R$ 43,5 bilhões, enquanto os passivos somavam R$ 33 bilhões.

Pelo modelo discutido, o BTG Pactual compraria uma opção equivalente a 100% do capital do BMI por valor simbólico. A instituição também faria uma injeção de R$ 5 bilhões para honrar os primeiros vencimentos de CDBs do Master, instrumento que havia sido amplamente usado pelo banco para captar recursos junto a investidores.

Na sequência, essa opção seria repassada ao BTG Pactual, também por valor simbólico. O banco passaria, então, a administrar integralmente o BMI, sem absorver diretamente todos os riscos do Banco Master em seu próprio balanço.

A estrutura buscava criar uma espécie de veículo de transição para administrar ativos de difícil recuperação, organizar passivos e reduzir a pressão de curto prazo sobre os vencimentos. Esse tipo de arranjo é comum em discussões complexas envolvendo instituições financeiras em situação de estresse, sobretudo quando há risco de corrida de credores ou deterioração acelerada da confiança no banco.

BTG teria taxa anual sobre carteira bilionária

Pelo plano atribuído a Vorcaro, o BTG Pactual receberia uma remuneração anual de 1,25% sobre o valor contábil inicial dos ativos do BMI. Considerando a base de R$ 43,5 bilhões mencionada no documento, a taxa poderia alcançar cerca de R$ 544 milhões por ano.

Além da remuneração de gestão, todas as despesas relacionadas à recuperação dos ativos transferidos seriam reembolsadas pelo FGC. O fundo também arcaria com custos operacionais vinculados ao processo de administração, cobrança e tentativa de recuperação da carteira.

O plano previa ainda indenizações ao BTG Pactual por eventuais contingências envolvendo o BMI, o próprio BTG, empresas do grupo Master e seus controladores. Esse ponto era central para limitar a exposição jurídica e patrimonial do banco que assumiria a gestão da estrutura.

Na prática, o BTG atuaria como gestor da carteira, com remuneração definida, proteção contratual e reembolso de despesas. O risco principal ficaria concentrado no veículo criado a partir dos ativos e passivos do Master, com suporte do FGC para reduzir perdas e permitir o pagamento de obrigações imediatas.

FGC teria papel decisivo na solução discutida

O Fundo Garantidor de Créditos era peça central no plano. O FGC é a entidade responsável por garantir determinados créditos de clientes de instituições financeiras associadas, dentro dos limites e condições previstos em seu regulamento. Em situações de crise, também pode participar de soluções estruturadas para reduzir perdas e preservar a estabilidade do sistema financeiro.

No desenho discutido para o Banco Master, o FGC não aparecia apenas como garantidor tradicional de depósitos e CDBs. A proposta previa que o fundo reembolsasse despesas de recuperação dos ativos do BMI e apoiasse a estrutura criada para administrar a carteira transferida.

A participação do FGC em operações dessa natureza exige avaliação técnica rigorosa. O fundo precisa comparar o custo de diferentes alternativas, como liquidação, intervenção, venda assistida ou reestruturação privada. O objetivo costuma ser reduzir perdas para o próprio sistema, proteger credores elegíveis e evitar efeitos de contágio no mercado financeiro.

No caso do Banco Master, a presença do FGC na proposta indicava a gravidade da situação de liquidez e a preocupação com os vencimentos de CDBs. Esses papéis foram parte relevante da estratégia de captação do banco e se tornaram um dos pontos mais sensíveis da crise.

Garantias incluíam caixa do BRB e direitos ligados a precatórios

O documento citado na apuração indicava que Daniel Vorcaro ofereceria garantias com patrimônio líquido estimado em R$ 10,5 bilhões. A composição incluía R$ 2 bilhões em caixa provenientes da negociação com o BRB e R$ 8,5 bilhões em direitos ligados a precatórios.

Esse ponto, porém, era considerado sensível. As investigações apontam que parte desses ativos tinha liquidez limitada, uma vez que a carteira seria formada também por direitos creditórios ainda não convertidos oficialmente em precatórios judiciais.

A diferença entre precatórios formalmente reconhecidos e direitos creditórios com expectativa de conversão é relevante para qualquer operação financeira. Precatórios já constituídos podem ser avaliados com base em critérios jurídicos mais objetivos, embora dependam de prazos de pagamento e deságios de mercado. Direitos ainda não convertidos carregam risco adicional, porque dependem de reconhecimento judicial, tramitação processual e validação futura.

Essa limitação de liquidez poderia afetar a capacidade de uso das garantias em uma reestruturação. Quanto mais incerto o valor realizável dos ativos, maior a dependência de suporte externo, negociação com credores e capacidade de recuperação da carteira transferida.

Venda ao BRB virou caminho escolhido por Vorcaro

Apesar das conversas envolvendo BTG Pactual e FGC, Daniel Vorcaro decidiu seguir com a tentativa de venda do Banco Master ao BRB. A proposta de aquisição pelo banco estatal de Brasília foi anunciada oficialmente em 31 de março de 2025.

A escolha pelo BRB indicava uma alternativa mais ampla para o Banco Master. Enquanto o plano com o BTG Pactual previa separar ativos e passivos em uma nova estrutura, a negociação com o BRB buscava transferir a instituição de forma mais abrangente.

A operação com o banco estatal, porém, enfrentou forte escrutínio. Por envolver uma instituição controlada pelo governo do Distrito Federal, a tentativa de aquisição ganhou dimensão política e regulatória. O caso passou a mobilizar autoridades, órgãos de controle, participantes do mercado e investidores preocupados com a exposição a CDBs do Master.

A venda acabou frustrada, e o Banco Master permaneceu no centro de uma crise que combinou deterioração financeira, questionamentos sobre ativos, apuração policial e pressão sobre mecanismos de proteção a investidores.

Caso expõe riscos de crescimento acelerado no setor bancário

O caso Banco Master expõe os riscos de instituições financeiras que crescem rapidamente por meio de captação agressiva, especialmente quando parte relevante da liquidez depende da renovação de CDBs e da confiança dos investidores.

CDBs são instrumentos comuns no mercado bancário brasileiro e contam com cobertura do FGC dentro dos limites estabelecidos. No entanto, a garantia não elimina riscos sistêmicos, nem resolve automaticamente problemas de liquidez, qualidade de ativos ou governança interna de uma instituição.

Quando um banco enfrenta dúvidas sobre sua capacidade de honrar vencimentos, o problema pode se espalhar rapidamente. Investidores passam a evitar novas aplicações, clientes antecipam resgates quando possível e potenciais compradores exigem proteção contra contingências. Nesse ambiente, soluções estruturadas costumam depender de acordos complexos entre acionistas, instituições financeiras, reguladores e o próprio FGC.

No caso do Master, a existência de uma proposta envolvendo BTG Pactual e FGC mostra que alternativas privadas foram consideradas antes da tentativa de venda ao BRB ganhar protagonismo. Também evidencia que a situação do banco já era tratada como sensível antes de a crise atingir maior repercussão pública.

BTG buscaria evitar risco direto no balanço

Um dos pontos centrais da proposta era evitar que o BTG Pactual absorvesse diretamente os riscos do Banco Master em seu balanço. Pelo desenho discutido, o banco administraria o BMI, receberia taxa de gestão e teria cobertura para despesas e contingências, mas não incorporaria integralmente a exposição do Master.

Esse tipo de estrutura tem lógica financeira clara. Em operações de reestruturação bancária, ativos problemáticos ou de difícil liquidação podem ser isolados em veículos específicos, o que facilita a gestão, a cobrança e a precificação dos riscos. Ao mesmo tempo, o gestor da carteira busca proteção contratual para não ser responsabilizado por passivos anteriores ou por perdas associadas a decisões tomadas antes de sua entrada.

Para o mercado, o ponto sensível está em saber quem assume o prejuízo final se os ativos recuperados forem insuficientes para cobrir os passivos. Em estruturas com participação do FGC, essa pergunta ganha relevância adicional, porque envolve recursos acumulados pelo sistema financeiro para proteção de depositantes e redução de perdas em crises bancárias.

A discussão sobre o Banco Master, portanto, não se limita à relação entre Vorcaro, BTG Pactual e BRB. Ela envolve também a forma como o sistema financeiro brasileiro lida com bancos sob estresse, carteiras de baixa liquidez e captações protegidas por garantia limitada.

Operação Compliance Zero amplia pressão sobre o Master

A revelação de que Daniel Vorcaro discutiu uma reestruturação com o BTG Pactual antes da venda frustrada ao BRB acrescenta uma nova camada à Operação Compliance Zero. A Polícia Federal analisa mensagens, documentos e registros para compreender a situação real do Banco Master, as alternativas consideradas e a eventual responsabilidade de controladores e executivos.

As mensagens atribuídas a Vorcaro sugerem que a proposta era sensível e deveria ser mantida em sigilo. Ainda assim, caberá às autoridades avaliar se a confidencialidade era compatível com uma negociação bancária complexa ou se havia tentativa de ocultar informações relevantes de credores, reguladores ou potenciais interessados.

A apuração também deverá examinar a qualidade dos ativos apresentados como garantia, a liquidez dos direitos ligados a precatórios, a situação dos CDBs emitidos pelo Master e as condições que levaram à tentativa de venda ao BRB.

Até a conclusão das investigações, qualquer conclusão definitiva seria prematura. O caso envolve negociações privadas, instituições reguladas, documentos financeiros e possível impacto sobre milhares de investidores.

Banco Master segue no centro do debate sobre proteção a investidores

O episódio reforça a necessidade de atenção dos investidores a instituições que oferecem remuneração elevada por meio de CDBs, mesmo quando há cobertura do FGC. A garantia do fundo é relevante, mas tem limites e não substitui a análise sobre a saúde financeira do emissor, a qualidade da carteira de crédito e a governança do banco.

Para o setor financeiro, o caso Banco Master se tornou um teste de supervisão, transparência e capacidade de resposta diante de uma instituição em crise. A combinação de proposta privada com o BTG Pactual, tentativa de venda ao BRB e possível apoio do FGC mostra que a situação exigia uma solução de grande escala.

A investigação da Polícia Federal deve esclarecer se as alternativas discutidas eram tentativas legítimas de reestruturação ou se faziam parte de uma estratégia para transferir riscos, proteger controladores ou adiar o reconhecimento de perdas. O desfecho terá impacto sobre credores, investidores, reguladores e sobre a forma como o mercado avalia bancos médios com forte dependência de captação via CDB.

Enquanto as apurações avançam, o Banco Master permanece como um dos casos mais relevantes do sistema financeiro brasileiro recente, reunindo risco bancário, governança, fundo garantidor, banco estatal, banco privado e investidores em uma disputa que ainda deve produzir novos desdobramentos.

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