Caso Master leva Anbima a revisar uso do FGC e prioridades para 2026 no mercado de capitais
O escândalo envolvendo o Banco Master, aliado a episódios recentes como a Operação Carbono Oculto e problemas na Reag Trust DTVM e Will Bank, tem impulsionado uma reavaliação das prioridades da indústria financeira brasileira para 2026. Mais do que produtos individuais, como fundos multimercados e de ações, as preocupações agora se concentram na governança, fiscalização e proteção do investidor, com atenção especial ao papel da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e do Banco Central na prevenção de fraudes que possam abalar o sistema financeiro nacional.
Desde o início do ano, a discussão sobre o arcabouço regulatório ganhou força, sobretudo após o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sinalizar intenção de transferir a supervisão de fundos, atualmente sob responsabilidade da CVM, para o Banco Central. Essa proposta, conhecida como modelo “twin peaks”, é utilizada em alguns mercados internacionais, mas ainda não é consenso entre especialistas. A Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) acompanha de perto as discussões, destacando que eventuais mudanças não devem ser motivadas apenas por crises pontuais, mas baseadas em evidências e análises técnicas.
Reforço da regulação após fraudes bilionárias
Carlos André, presidente da Anbima e vice-presidente executivo de Wealth Management do Santander, afirma que a indústria apoia qualquer iniciativa que fortaleça a regulação, desde que baseada em fundamentos sólidos. “Dificilmente um arcabouço regulatório vai estar 100% preparado para detectar fraudes premeditadas”, ressalta. Para ele, o maior desafio está no fortalecimento das instituições responsáveis pela supervisão. Atualmente, a CVM conta com apenas 379 inspetores para fiscalizar R$ 42 trilhões em ativos, enquanto a complexidade e o volume do mercado de capitais brasileiro seguem em expansão.
A Anbima atua como autorreguladora, complementando a fiscalização da CVM e do Banco Central, especialmente em áreas de distribuição de produtos financeiros. A associação observa que, ao longo de 2025, a indústria sofreu impactos significativos devido a resgates bilionários de fundos multimercados e de ações, enquanto ativos de renda fixa mantiveram maior captação. A prioridade em 2026, portanto, não é apenas o desempenho dos produtos, mas a solidez das regras que protegem investidores e garantem integridade do mercado.
Revisão de regras de distribuição e uso do FGC
Entre as medidas adotadas, a Anbima revisou seu código de distribuição de produtos, deixando explícito que a comercialização de ativos vinculados a depósitos de instituições financeiras não pode utilizar o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como argumento principal de venda. Esse ponto ganhou destaque com os CDBs do Banco Master, cuja divulgação, baseada no FGC, contribuiu para enganos sobre o risco real do investimento.
O código de processos da Anbima, que define ritos para investigações e ações sancionatórias, também está sendo revisado para aprimorar a velocidade e eficiência da autarquia na conclusão de apurações. “Alguns casos que vieram à imprensa, como Master e Reag, foram alvo de processos da Anbima com base na nossa capacidade de supervisão, e resultaram em punições”, afirma Carlos André, reforçando a atuação da entidade em manter padrões de governança e fiscalização rigorosos.
Adequação do modelo de suitability
Outro foco central é o aprimoramento do processo de suitability, que determina a adequação de investimentos ao perfil do investidor. O caso do Master evidenciou limitações do modelo atual, que avaliava principalmente o risco do ativo isoladamente, sem considerar a composição do portfólio do cliente. O banco, apesar de ter rating de crédito elevado e cobertura do FGC, mostrou vulnerabilidades na prática de distribuição, provocando perdas significativas para investidores.
Luciane Effting, presidente do Fórum de Distribuição da Anbima e chefe do Santander AAA, destaca que a entidade trabalha para ampliar o conceito de suitability, conectando classificação de risco à diversificação e à composição geral da carteira do cliente. “O objetivo é que o suitability vá muito além de uma ferramenta para medir o apetite a risco”, afirma. Essa abordagem visa reduzir exposição concentrada em produtos de renda fixa, especialmente em cenários onde há risco de inadimplência ou liquidação de instituições.
Impactos do caso Master no mercado de fundos
Em 2025, a preocupação da Anbima era principalmente com fundos multimercados e de ações, que enfrentaram resgates bilionários e retração no número de fundos e gestoras. A captação líquida total da indústria somou R$ 88,4 bilhões, um valor relevante, mas inferior ao crescimento registrado em 2024, refletindo desaceleração e volatilidade nos segmentos mais arriscados. A renda fixa permaneceu como protagonista da captação positiva, mitigando impactos maiores.
Com a estabilização e recuperação gradual do mercado, a expectativa para 2026 é de retomada expressiva, impulsionada por fatores como a queda de juros, aumento do apetite por risco e fluxo estrangeiro na B3. Somente em janeiro de 2026, a entrada de capital estrangeiro superou a registrada em todo o ano de 2025, sinalizando confiança renovada e expectativa de novas ofertas públicas iniciais (IPOs), incluindo empresas de tecnologia e fintechs.
Papel da CVM e do Banco Central no fortalecimento do mercado
O fortalecimento da CVM e do Banco Central é visto como essencial para evitar que fraudes futuras impactem o investidor final. A atuação das autarquias precisa estar alinhada a recursos adequados e capacidade de fiscalização ampliada. Além disso, o debate sobre o modelo regulatório twin peaks – separando supervisão prudencial e de conduta – visa organizar melhor a regulação, embora ainda dependa de análise cuidadosa antes de implementação.
A Anbima reforça que o foco deve estar na efetividade das instituições, mais do que na estrutura normativa em si. “Mais importante do que o formato do arcabouço regulatório é que as instituições estejam fortalecidas para exercer sua função”, afirma Carlos André, destacando que a capacitação e os recursos humanos são pré-requisitos indispensáveis para qualquer modelo regulatório bem-sucedido.
Expectativas para o mercado de capitais em 2026
A perspectiva para 2026 é otimista, com recuperação de fundos multimercados e de ações, fortalecimento das regras de distribuição e suitability, e ampliação da confiança do investidor. César Mindof, diretor da Anbima e CEO do ABC Brasil, observa que o mercado de equities tende a registrar crescimento, impulsionado por menor custo de capital, maior participação estrangeira e desenvolvimento do mercado secundário. Guilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima, destaca que a migração da renda fixa para produtos híbridos também deverá contribuir para diversificação e aumento do apetite ao risco.
Apesar do cenário positivo, os reguladores permanecem atentos às lições do caso Master, reforçando que qualquer crescimento sustentável depende de governança sólida, fiscalização efetiva e proteção consistente ao investidor. A colaboração entre Anbima, CVM e Banco Central se mostra essencial para garantir que eventos isolados não comprometam a integridade do mercado como um todo.
Desdobramentos regulatórios e lições aprendidas
O episódio do Banco Master revelou fragilidades no sistema de supervisão e distribuição de produtos financeiros. A Anbima, em parceria com a CVM, trabalha para consolidar medidas de prevenção e controle, incluindo revisão de processos, aprimoramento de regras de suitability e limites claros para o uso do FGC. Especialistas afirmam que tais iniciativas são fundamentais para restaurar confiança do investidor e reduzir riscos sistêmicos.
Além disso, os desdobramentos do caso podem acelerar a modernização da regulação de fundos e fortalecer mecanismos de autorregulação, estabelecendo padrões mais claros e robustos para atuação das instituições financeiras. A expectativa é que as lições aprendidas resultem em mudanças estruturais, maior transparência e proteção do mercado brasileiro contra crises similares.
O mercado acompanha de perto a implementação dessas medidas, avaliando impactos para investidores, gestores de fundos e instituições financeiras, com atenção especial ao papel da CVM no fortalecimento do arcabouço regulatório e na fiscalização de práticas que possam gerar prejuízos significativos.





