O Ibovespa hoje encerrou o pregão desta quinta-feira (29 de outubro de 2026) em queda de 1,06%, aos 169.186,42 pontos, completando a quarta sessão consecutiva de perdas na Bolsa brasileira. O principal índice da B3 recuou 1.819,68 pontos em relação ao fechamento anterior, pressionado pelas ações de grandes bancos, da Vale e de empresas ligadas ao consumo, enquanto investidores reavaliaram as perspectivas para as contas públicas e a trajetória dos juros.
O resultado ampliou a desvalorização acumulada desde a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no segundo turno realizado em 25 de outubro. Em quatro sessões, o Ibovespa passou de 205.083 pontos, no fechamento da sexta-feira anterior à votação, para o patamar atual, uma perda de aproximadamente 35,9 mil pontos, equivalente a 17,5%. A correção reduziu o ganho acumulado em 2026 para cerca de 5%, após a forte valorização registrada nas semanas que antecederam a eleição.
A sessão começou com uma tentativa de recuperação, mas o movimento perdeu força ainda pela manhã. O Ibovespa chegou à máxima de 171.402,97 pontos, avanço de 0,23%, antes de inverter a direção e atingir 168.765,35 pontos, baixa de 1,31%. A distância de 2.637,62 pontos entre os extremos do pregão evidencia a volatilidade que continua predominando no mercado acionário brasileiro.
Ibovespa perde os 170 mil pontos e acumula queda de 9,21% em outubro
A trajetória do Ibovespa nesta semana mostra que a pressão vendedora permaneceu mesmo depois da forte correção registrada na segunda-feira (26), quando o índice despencou 13,88%. Na terça-feira (27), houve recuo adicional de 0,51%, seguido por uma baixa de 2,68% na quarta-feira (28). Com a desvalorização desta quinta, a Bolsa passou a acumular perda de 9,21% em outubro.
O movimento ocorre após uma mudança acentuada nas expectativas dos investidores sobre a condução da política econômica brasileira. Antes do segundo turno, parte das posições no mercado refletia a possibilidade de uma mudança de governo. Com a confirmação da vitória de Lula, os preços passaram por um processo de reavaliação, acompanhado pela abertura das taxas dos contratos de juros futuros e pela redução da exposição a ações consideradas mais sensíveis ao ambiente doméstico.
A intensidade das vendas também revela diferenças entre os setores. Empresas dependentes do consumo interno, do crédito e de financiamento de longo prazo enfrentaram pressão mais intensa, enquanto algumas companhias industriais conseguiram registrar valorização. O comportamento indica que a queda não ocorreu de maneira uniforme, embora tenha atingido uma parcela significativa das ações negociadas.
A perda acumulada de 17,5% desde 23 de outubro não significa uma redução equivalente nos resultados operacionais das empresas. O desempenho do índice representa a variação das cotações de sua carteira teórica, influenciada pelas expectativas de lucros, pelo custo de capital e pelos preços que investidores estão dispostos a pagar pelos ativos.
Bancos, Vale e Ambev pressionam o fechamento do Ibovespa
As instituições financeiras tiveram participação importante no desempenho negativo desta quinta-feira. O BTG Pactual (BPAC11) recuou 4,05%, enquanto o Bradesco (BBDC4) perdeu 3,54%. O Banco do Brasil (BBAS3) caiu 1,97%, e o Itaú Unibanco (ITUB4) encerrou o dia com desvalorização de 0,60%.
O setor bancário é particularmente acompanhado em momentos de deterioração das expectativas econômicas porque mudanças nas taxas de juros e no ritmo de atividade podem afetar a demanda por crédito, a inadimplência e o custo de captação. Uma perspectiva de juros elevados durante mais tempo também influencia a avaliação das ações, mesmo quando os bancos continuam apresentando lucros.
Entre as empresas de maior peso no índice, a Vale (VALE3) caiu 2,17%, encerrando o pregão próxima de R$ 60,05. A mineradora ficou sob pressão apesar da valorização do minério de ferro na China, enquanto o mercado aguardava a divulgação de seus resultados do terceiro trimestre, programada para depois do fechamento da Bolsa.
A Petrobras (PETR4) também terminou o dia em terreno negativo, com recuo de 0,59% nas ações preferenciais. Os papéis ordinários da companhia, negociados como PETR3, apresentaram leve valorização de 0,05%, demonstrando um comportamento distinto entre as duas classes de ações.
Outro destaque negativo foi a Ambev (ABEV3), cujas ações caíram 4,40% após a divulgação dos resultados trimestrais. A companhia informou crescimento orgânico de 7,6% na receita líquida e avanço de 8,9% no Ebitda ajustado, mas a evolução mais modesta dos volumes de cerveja no Brasil contribuiu para uma avaliação menos favorável do desempenho operacional.
Segundo o relatório divulgado pela própria Ambev, o volume de cerveja comercializado no Brasil cresceu 0,5% em comparação com o terceiro trimestre de 2025, enquanto o volume consolidado da empresa avançou 0,8%. O lucro líquido ajustado aumentou 14,3%, para R$ 4,39 bilhões. A combinação desses indicadores ajuda a explicar por que um balanço com crescimento de lucro não impede uma reação negativa das ações quando determinados segmentos apresentam desempenho inferior às expectativas.
Gerdau (GGBR4), Embraer (EMBJ3) e WEG (WEGE3) lideram as altas
Apesar da queda geral do mercado, algumas empresas registraram ganhos expressivos. A Gerdau (GGBR4) liderou a valorização entre as ações integrantes do Ibovespa, com avanço de 5,69%, encerrando o dia a R$ 25,46. Os papéis da Metalúrgica Gerdau (GOAU4) acompanharam o desempenho positivo, subindo 5,16%.
A Embraer (EMBJ3) ganhou 5,25%, enquanto a WEG (WEGE3) avançou 4,41%. A Suzano (SUZB3) também apareceu entre os destaques positivos, com valorização de 3,37%. O desempenho dessas companhias contrastou com o enfraquecimento de empresas mais dependentes das condições de financiamento e consumo no Brasil.
Na outra ponta, a Minerva (BEEF3) liderou as perdas da carteira, com baixa de 6,92%. Entre as incorporadoras imobiliárias, a MRV (MRVE3) caiu 6,70%, enquanto a Direcional (DIRR3) recuou 6,16%. A Cogna (COGN3) perdeu 5,85%, e a Azzas 2154 (AZZA3) terminou o pregão em queda de 5,60%.
A concentração de perdas em companhias imobiliárias, educacionais e de consumo é compatível com um ambiente de maior pressão sobre as taxas de juros. Esses segmentos costumam apresentar maior sensibilidade às condições de crédito e à capacidade de financiamento de consumidores e empresas, fatores que afetam tanto as perspectivas de crescimento quanto os preços das ações.
Dados da dívida pública reforçam atenção dos investidores às contas do governo
A situação fiscal brasileira permaneceu entre os principais fatores acompanhados pelo mercado. Dados divulgados nesta quinta-feira pelo Banco Central mostraram que o setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 5,5 bilhões em setembro, enquanto a dívida bruta do governo geral permaneceu próxima de 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB).
Embora o resultado primário negativo tenha sido menor que o observado em setembro de 2025, o elevado estoque de endividamento continua relevante para a avaliação das perspectivas fiscais. O comportamento dos gastos, da arrecadação e do custo de financiamento da dívida influencia as expectativas sobre a trajetória dos juros e, consequentemente, as avaliações das empresas listadas na B3.
Outro indicador divulgado durante a sessão foi o estoque da Dívida Pública Federal, que alcançou R$ 9,383 trilhões em setembro, segundo o Tesouro Nacional, com crescimento de 0,97% em relação a agosto. O aumento reflete principalmente a incorporação de juros ao estoque dos títulos públicos.
O Tesouro também informou que o Governo Central registrou superávit primário de R$ 4,839 bilhões em setembro, segundo sua metodologia. Esse dado não contradiz o déficit apurado pelo Banco Central para o setor público consolidado, pois os levantamentos abrangem universos e critérios de cálculo diferentes. O resultado positivo do Governo Central teve contribuição de receitas extraordinárias associadas ao cancelamento de precatórios de exercícios anteriores.
A combinação dos indicadores mostra que a melhora pontual de determinados resultados fiscais não elimina a preocupação com o custo da dívida e sua evolução. Para o mercado acionário, essa avaliação se reflete principalmente nas expectativas de juros de médio e longo prazo e no retorno exigido pelos investidores para manter posições em ativos brasileiros.
Indefinição sobre equipe econômica mantém cautela após reeleição de Lula
Além dos indicadores fiscais, a composição da equipe econômica do próximo mandato de Lula continua sendo acompanhada pelos investidores. Ainda não foram apresentados os detalhes completos das medidas que orientarão a política fiscal a partir de 2027, o que mantém abertas as discussões sobre despesas públicas, arrecadação e cumprimento das metas fiscais.
Na tarde desta quinta-feira, informações sobre a possibilidade de o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), assumir o Ministério da Fazenda coincidiram com uma recuperação parcial do Ibovespa em relação às mínimas da sessão. A hipótese, entretanto, não foi confirmada oficialmente.
Após o encerramento do pregão, Fonteles afirmou publicamente que não havia tratado com Lula nem com outras pessoas sobre a ocupação de cargos no próximo mandato. O governador também declarou desconhecer uma eventual visita do presidente ao Piauí com essa finalidade. Sua manifestação reforça que não havia definição anunciada sobre o comando da pasta.
A incerteza econômica não depende exclusivamente da escolha do ministro. Investidores também aguardam indicações sobre o planejamento orçamentário, a evolução das despesas obrigatórias e as medidas que poderão ser apresentadas para estabilizar a trajetória do endividamento público.
Inflação dos Estados Unidos e juros internacionais também pesam sobre a Bolsa
O ambiente internacional acrescentou pressão ao Ibovespa nesta quinta-feira. O Departamento de Análise Econômica dos Estados Unidos (BEA) informou que o índice de preços de gastos com consumo pessoal, conhecido como PCE, avançou 0,5% em setembro e acumulou inflação de 3,6% em 12 meses.
O resultado permaneceu acima da meta de inflação de 2% perseguida pelo Federal Reserve, banco central norte-americano. O núcleo do indicador, que exclui alimentos e energia, registrou alta de 0,3% no mês e de 3,1% em 12 meses, mostrando que as pressões de preços continuam presentes mesmo fora dos componentes mais voláteis.
Na quarta-feira (28), o Federal Reserve manteve sua faixa de juros entre 3,75% e 4% ao ano. A decisão foi aprovada por dez integrantes do comitê, enquanto dois defenderam uma elevação de 0,25 ponto percentual, sinalizando diferenças de avaliação sobre a intensidade das pressões inflacionárias.
Também nesta quinta-feira, o BEA informou que a economia norte-americana cresceu a uma taxa anualizada de 3,4% no terceiro trimestre de 2026, acima dos 2,2% registrados no trimestre anterior. A combinação de atividade econômica resistente e inflação elevada reforçou as preocupações sobre a possibilidade de manutenção de uma política monetária restritiva.
As bolsas norte-americanas terminaram o dia em queda. O Nasdaq recuou 1,38%, o S&P 500 perdeu aproximadamente 0,30% e o Dow Jones caiu 0,25%. O desempenho negativo ampliou a cautela em relação às ações brasileiras, que já enfrentavam pressões específicas do cenário doméstico.
No Brasil, o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), divulgado pela Fundação Getulio Vargas, avançou 1,47% em outubro, depois de subir 1,57% em setembro. Apesar da desaceleração mensal, o indicador acumulou alta de 5,24% em 12 meses, permanecendo como uma referência adicional para a análise das pressões de preços.
Ibovespa entra no último pregão de outubro com Vale e política fiscal no radar
A sexta-feira (30) será o último pregão de outubro e encontrará o Ibovespa abaixo dos 170 mil pontos, após quatro sessões consecutivas de desvalorização. A atenção do mercado estará concentrada na evolução das expectativas fiscais, no comportamento dos juros futuros e na repercussão dos resultados corporativos divulgados após o encerramento das negociações desta quinta-feira.
A Vale está entre as companhias que terão seus números trimestrais avaliados pelos investidores. A mineradora programou uma teleconferência para as 11h de sexta-feira, na qual serão discutidos os resultados financeiros e operacionais do terceiro trimestre de 2026. Os indicadores de produção, custos, geração de caixa e perspectivas para o restante do ano serão especialmente relevantes para a avaliação da companhia.
O fechamento de 29 de outubro deixa o principal índice acionário brasileiro com valorização de aproximadamente 5% no ano, mas com uma redução expressiva dos ganhos acumulados anteriormente. A próxima sessão indicará se a pressão vendedora continuará predominando ou se a Bolsa conseguirá recuperar parte das perdas recentes, sem que isso represente, por si só, uma mudança definitiva das expectativas dos investidores.








