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Coaf aponta repasses suspeitos de R$ 27,2 milhões do Banco Master ao site Metrópoles

por Júlia Campos
09/04/2026 às 16h36
em Política
Metrópoles - Gazeta Mercantil

Ex-senador Luiz Estevão, dono do portal Metrópoles

Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) colocou sob forte suspeita repasses de R$ 27,2 milhões feitos pelo Banco Master ao site de notícias Metrópoles entre 2024 e 2025. O documento indica movimentações consideradas atípicas e aponta que parte dos recursos teria sido rapidamente redirecionada para empresas ligadas ao empresário Luiz Estevão, acendendo alerta no sistema de monitoramento financeiro.

A revelação amplia a pressão sobre as operações envolvendo o Banco Master e coloca o caso no centro do debate sobre rastreabilidade de recursos, compatibilidade financeira e uso de contratos de patrocínio como justificativa para transferências milionárias.

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Relatório do Coaf vê padrão incomum nas operações

Segundo as informações divulgadas, o Coaf identificou indícios de movimentações fora do padrão em operações entre o Banco Master e empresas relacionadas ao grupo do Metrópoles. O foco do relatório não está apenas no volume dos repasses, mas principalmente na forma como o dinheiro circulou após o recebimento.

De acordo com o documento, parte dos valores enviados pelo Banco Master foi transferida em sequência para empresas vinculadas ao mesmo grupo familiar, como Madison Gerenciamento S/A, Sense Construções e Participações S/A e Macondo Construções e Participações S/A. Para o órgão, esse comportamento pode indicar uma movimentação de recursos em benefício de terceiros, o que elevou o nível de atenção sobre as transações.

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O Coaf também apontou que houve operações com crédito seguido de débito imediato, dinâmica frequentemente tratada pelos sistemas de controle como sinal de alerta, sobretudo quando os valores são altos e a velocidade de circulação do dinheiro não parece compatível com a operação declarada.

Caixa apontou incompatibilidade entre movimentação e faturamento

As comunicações que embasaram o monitoramento foram feitas pela Caixa Econômica Federal, que também teria identificado incompatibilidade entre o volume movimentado e o faturamento médio mensal da empresa Metrópoles Marketing e Propaganda LTDA.

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Esse ponto é um dos mais sensíveis do caso. Em investigações financeiras, a divergência entre a capacidade operacional aparente de uma empresa e o volume de recursos que transita por suas contas costuma ser um dos principais gatilhos para comunicações formais aos órgãos de controle.

O relatório ainda classificou os aportes do Banco Master como “inusitados”, destacando justamente o padrão de entrada e saída acelerada de recursos. Na prática, isso significa que o fluxo financeiro chamou atenção não só pelo montante milionário, mas pelo comportamento das operações.

Banco Master aparece como principal fonte de receita em 2025

Outro trecho relevante do material aponta que o Banco Master teria sido a principal fonte de receita do veículo em 2025, com transferências que chegaram a R$ 5,7 milhões em operações isoladas.

Esse dado reforça o peso do banco dentro do fluxo financeiro analisado e amplia a relevância do caso. Quando uma única origem concentra valores expressivos em curto intervalo de tempo, a análise dos órgãos de controle tende a se aprofundar, especialmente quando surgem sinais de pulverização posterior dos recursos.

A dimensão dos repasses coloca o Banco Master no centro da controvérsia e transforma um contrato apresentado como comercial em uma operação sujeita a questionamentos sobre cronologia, destinação e compatibilidade econômica.

Justificativa apresentada envolve patrocínio da Série D

Ao jornal O Estado de S. Paulo, Luiz Estevão defendeu a legalidade das operações e afirmou que os valores recebidos do Banco Master estariam ligados ao patrocínio do Will Bank para a transmissão da Série D do Campeonato Brasileiro.

Segundo a versão apresentada, os montantes pagos fariam parte de um acordo comercial compatível com os valores praticados pelo mercado. Estevão também afirmou que os repasses poderiam ter sido ainda maiores se os pagamentos não tivessem sido interrompidos após a liquidação do Banco Master pelo Banco Central.

A explicação tenta enquadrar os pagamentos como parte de uma operação legítima de mídia, publicidade e direitos comerciais. O problema, porém, está na cronologia revelada pelo próprio caso.

Cronologia do patrocínio virou peça central da suspeita

A Série D começou em 19 de abril de 2025, mas a exibição da marca do patrocinador nas transmissões e nos estádios só teria começado meses depois. O acordo de transmissão foi anunciado apenas em julho, e a presença da marca nas placas de publicidade ocorreu a partir da 14ª rodada, no fim daquele mês.

Esse desencaixe temporal passou a ser uma das principais fragilidades da justificativa apresentada. Isso porque os repasses do Banco Master teriam começado em janeiro de 2025, cerca de três meses antes do início da competição e aproximadamente seis meses antes do aparecimento efetivo da marca nas entregas visíveis do torneio.

No ambiente de fiscalização financeira, esse tipo de diferença entre o calendário dos pagamentos e a execução prática do contrato costuma elevar a necessidade de comprovação documental, detalhamento comercial e demonstração objetiva das contrapartidas.

Naming rights ampliam dimensão do negócio

Além do patrocínio, o acordo também envolveu naming rights, rebatizando a competição como Brasileirão Série D Will Bank. Foi a primeira vez que a CBF comercializou esse tipo de direito para o torneio.

Esse elemento ajuda a sustentar a tese de que a operação tinha dimensão comercial relevante. Ainda assim, o ponto central para os órgãos de controle não é apenas a existência de um contrato, mas a coerência entre valor, prazo, execução e caminho percorrido pelos recursos depois do pagamento.

Quando o dinheiro entra com grande volume e, em seguida, parte dele é direcionada para outras empresas do mesmo grupo, a análise deixa de se concentrar só no contrato de origem e passa a observar o fluxo financeiro completo.

Declaração de Luiz Estevão aumenta repercussão do caso

Ao defender a legalidade das operações, Luiz Estevão afirmou: “O dinheiro que eu recebi passa a ser meu e faço com ele o que eu quiser”.

A frase ampliou a repercussão do caso porque, embora reforce a linha de defesa de autonomia sobre os recursos recebidos, também expõe de forma direta o principal ponto de tensão da investigação: o que importa para os órgãos de controle não é apenas o recebimento do valor, mas o contexto das operações, a justificativa econômica e o destino do dinheiro.

No debate público, a declaração tende a intensificar a pressão por esclarecimentos adicionais sobre os repasses do Banco Master, sobretudo em um cenário em que o Coaf já identificou indícios de movimentação atípica.

Caso mistura mídia, sistema financeiro e futebol

O episódio ganhou grande relevância porque reúne três universos de alto impacto público: mídia, sistema financeiro e futebol brasileiro. Essa combinação amplia a repercussão e torna o caso mais sensível do ponto de vista institucional, político e reputacional.

De um lado, há um banco de grande exposição no mercado. De outro, um portal de notícias com forte presença nacional. No meio, um contrato ligado à transmissão e ao patrocínio de uma competição organizada sob a chancela da CBF. Esse conjunto faz com que o caso extrapole a esfera empresarial e passe a ser tratado como assunto de interesse público.

O que está em jogo daqui para frente

Até o momento, o relatório do Coaf aponta suspeitas e movimentações consideradas atípicas, mas não representa, por si só, uma condenação. Ainda assim, a gravidade dos valores, a rapidez das transferências subsequentes e o descompasso entre repasses e entregas comerciais indicam que o caso deve continuar produzindo desdobramentos.

A partir de agora, o foco tende a ficar sobre três pontos: a documentação que sustenta a justificativa comercial, a explicação para o fluxo de recursos entre empresas relacionadas e a compatibilidade entre os pagamentos do Banco Master e a execução efetiva do acordo envolvendo a Série D.

No centro da crise, a cronologia virou o elemento mais explosivo. E é justamente ela que mantém o caso vivo no radar do noticiário político, empresarial e financeiro.

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