Presidente do conselho da Copasa renuncia após citações em delações sobre esquema de propina na Aegea
A Copasa comunicou nesta quinta-feira (12) ao mercado a renúncia de Hamilton Amadeo ao cargo de presidente do conselho de administração da companhia, com efeito imediato. A saída do executivo ocorre em meio à repercussão de delações premiadas relacionadas à Aegea, empresa da qual Amadeo foi presidente entre 2011 e fevereiro de 2020. A informação foi oficializada por meio de Fato Relevante.
A renúncia acontece em um momento sensível para a Copasa, que se prepara para seu processo de privatização, previsto por meio de oferta secundária de ações ainda no primeiro trimestre de 2026. Especialistas destacam que a saída de Amadeo pode influenciar a percepção do mercado sobre a governança corporativa da companhia, sobretudo diante das implicações legais e políticas que envolvem o caso.
Contexto das delações e envolvimento de Hamilton Amadeo
Mais cedo, reportagem do UOL detalhou que delações premiadas homologadas pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) apontam que a expansão da Aegea em concessões de água e esgoto envolveu pagamentos de propina a agentes públicos para obtenção ou manutenção de contratos em seis estados e 20 municípios. Entre os estados citados estão Santa Catarina, Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul, e os relatos indicam repasses a conselheiros de tribunais de contas, prefeitos e intermediários políticos.
Executivos e colaboradores da Aegea admitiram, segundo as delações, repasses ilícitos que somaram ao menos R$ 63 milhões entre 2010 e 2018. Os pagamentos teriam ocorrido por meio de dinheiro em espécie, contratos fictícios, compra de imóveis e veículos, e até influência sobre órgãos de controle. Os documentos das colaborações premiadas ainda permanecem sob sigilo judicial.
No caso de Hamilton Amadeo, os depoimentos indicam que ele teria autorizado os pagamentos durante seu período à frente da Aegea. Além disso, Amadeo aparece como um dos delatores do caso perante o STJ, o que contribui para a pressão que resultou em sua renúncia na Copasa.
Histórico da Aegea e impactos regulatórios
A Aegea procurou autoridades em 2020 e firmou um acordo de leniência com o Ministério Público Federal (MPF). Pelo termo, a companhia se comprometeu a pagar R$ 439 milhões à União, parcelados em 15 prestações anuais corrigidas pelo IPCA, além de reconhecer irregularidades ocorridas antes de 2018. A medida teve como objetivo garantir a integridade das operações da empresa e reduzir potenciais sanções administrativas e criminais.
Após o acordo, a empresa reforçou sua estrutura societária. A Itaúsa tornou-se sócia da Aegea, fortalecendo a governança corporativa. Posteriormente, a companhia conquistou blocos relevantes no leilão da Cedae, no Rio de Janeiro, o que ampliou sua atuação no setor de saneamento. Ainda assim, a citação do nome de Hamilton Amadeo nas delações coloca em evidência possíveis lacunas de compliance que podem ter impactos na confiança do mercado.
A Copasa, por sua vez, acompanha o caso com atenção. Analistas apontam que a renúncia de Amadeo, embora isolada, sinaliza a necessidade de reforço em práticas de governança e transparência, especialmente em um momento crítico de privatização.
Repercussão e posicionamento oficial das empresas
A Aegea informou que o acordo de leniência abrange “circunstâncias anteriores a 2018, apuradas em investigações internas e independentes, compartilhadas voluntariamente com o MPF”, e que os impactos financeiros decorrentes já foram refletidos nas demonstrações contábeis da companhia. A empresa reforçou que a citação de Amadeo se refere a episódios pretéritos e que as medidas corretivas internas foram implementadas para garantir conformidade.
Políticos citados nas delações negaram qualquer irregularidade. Os acordos de colaboração seguem sob sigilo e os desdobramentos cíveis e criminais permanecem em tramitação no Judiciário. O contexto ressalta a complexidade de casos envolvendo empresas de concessão de serviços públicos e a necessidade de acompanhamento rigoroso de contratos e processos administrativos.
Privatização da Copasa e impactos no mercado
O plano de privatização da Copasa envolve oferta secundária de ações prevista para o primeiro trimestre de 2026, e o episódio da renúncia de Amadeo ganha relevância nesse cenário. Investidores e analistas de mercado acompanham de perto a governança corporativa da companhia, avaliando os efeitos da saída do executivo sobre a percepção de risco e sobre o andamento do processo de venda.
Especialistas em economia destacam que casos de renúncia ligados a delações podem afetar temporariamente o valor das ações e a confiança do mercado. A transparência nos procedimentos e a comunicação rápida ao mercado são fatores determinantes para minimizar impactos negativos.
Além disso, o episódio reforça a necessidade de mecanismos sólidos de compliance em empresas estatais e privadas que atuam em setores estratégicos, como o saneamento básico. A Copasa mantém um plano de governança robusto, mas a saída de um membro do conselho exige atenção redobrada à estabilidade institucional e à continuidade operacional.
Implicações legais e cíveis
Os desdobramentos das delações e das colaborações premiadas ainda estão sendo acompanhados pelo Judiciário. A Aegea e seus executivos podem enfrentar processos cíveis e criminais relacionados a pagamentos ilícitos, contratos fictícios e outros atos de corrupção administrativa. O caso também evidencia a importância de auditorias independentes e da atuação de órgãos de controle, incluindo tribunais de contas estaduais e municipais.
Para a Copasa, embora a renúncia de Hamilton Amadeo não envolva diretamente a gestão da companhia, o episódio ressalta a exposição potencial de membros de conselhos e a necessidade de manter políticas internas de integridade claras e rigorosas, especialmente em período de transição acionária.
Governança corporativa e lições estratégicas
O episódio reforça a relevância da governança corporativa em empresas de capital aberto e em processo de privatização. Para investidores, a clareza na comunicação de fatos relevantes e a atuação rápida diante de riscos reputacionais são elementos cruciais para a manutenção da confiança no mercado.
Analistas do setor apontam que a Copasa pode usar a renúncia como oportunidade para fortalecer comitês internos, revisar práticas de compliance e consolidar políticas de transparência, garantindo que os processos decisórios estejam alinhados com os melhores padrões internacionais.
A atuação de Hamilton Amadeo na Aegea, especialmente no período citado nas delações, também serve como estudo de caso sobre como lacunas em controles internos podem gerar impactos duradouros sobre a imagem corporativa e sobre decisões estratégicas de mercado.
Desdobramentos futuros para a Copasa e setor de saneamento
Com a privatização no horizonte, a Copasa deve manter atenção especial à governança e à comunicação institucional. A saída de Amadeo reforça a necessidade de estruturas sólidas de conselho e de políticas internas que minimizem riscos reputacionais.
O setor de saneamento básico no Brasil continua sendo estratégico, e episódios como este mostram a importância de práticas transparentes e éticas na gestão de concessões e contratos públicos. O acompanhamento de órgãos reguladores, o cumprimento de acordos de leniência e a adoção de medidas preventivas são essenciais para assegurar a confiança do mercado e a sustentabilidade dos negócios.









