Bolsas disparam e dólar cai com expectativa de corte de juros nos EUA após discurso de Powell
O mercado financeiro global foi impactado nesta sexta-feira (22) pelo discurso do presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, durante o tradicional simpósio de Jackson Hole. A sinalização da possibilidade de um corte de juros nos EUA em setembro provocou reação imediata: bolsas internacionais e o Ibovespa avançaram fortemente, enquanto o dólar perdeu força frente ao real e a outras moedas emergentes.
O movimento reflete a sensibilidade dos investidores às mudanças de política monetária no país mais influente do mundo, já que decisões do Fed determinam fluxos de capital, preços de commodities, comportamento das moedas e perspectivas de crescimento global.
O impacto imediato do discurso de Powell
A fala de Jerome Powell não confirmou explicitamente uma redução, mas abriu espaço para interpretações mais flexíveis da política monetária americana. Essa expectativa de corte de juros nos EUA animou os investidores e desencadeou ajustes rápidos nas praças financeiras.
Às 13h23, o dólar comercial recuava 1,01%, sendo cotado a R$ 5,422, depois de oscilar em alta pela manhã. O Ibovespa avançava 2,11% no mesmo horário, alcançando 137.319 pontos, refletindo o apetite por risco e a entrada de fluxos estrangeiros no mercado brasileiro.
Nos Estados Unidos, os índices acionários também responderam positivamente:
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O Dow Jones se aproximava de sua máxima histórica, com valorização perto de 2%;
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O S&P500 ampliava ganhos e se aproximava das máximas do ano;
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O Nasdaq Composite, referência para o setor de tecnologia, também registrava altas expressivas.
Esse comportamento reforça que a sinalização de Powell pode ser um divisor de águas para os mercados, principalmente após meses de cautela com a inflação persistente nos EUA.
Mercado já precifica a decisão de setembro
As apostas dos investidores sobre a reunião de setembro do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês) se concentraram rapidamente em uma redução de 0,25 ponto percentual. Segundo a ferramenta CME FedWatch, havia 91% de probabilidade de corte de juros nos EUA e apenas 9% de manutenção da taxa, atualmente na faixa de 4,25% a 4,50% ao ano.
Essa precificação agressiva mostra que os mercados acreditam que o Fed poderá priorizar os sinais de desaceleração do mercado de trabalho em detrimento de riscos inflacionários.
A nova ênfase do Fed no mercado de trabalho
Nos últimos meses, o Federal Reserve vinha destacando o risco de inflação como principal preocupação. Entretanto, a leitura mais recente é que a desaceleração do mercado de trabalho ganhou importância nas deliberações. O relatório de emprego de julho, conhecido como payroll, indicou enfraquecimento no ritmo de contratações, o que pode ter sido decisivo para essa mudança de tom.
Essa percepção aproxima o discurso do Fed de uma política mais “dovish” (flexível), aumentando a confiança dos investidores em um corte de juros nos EUA ainda neste ano.
O cenário inflacionário e os riscos
Apesar do otimismo, há analistas que defendem cautela. O risco de pressões inflacionárias ainda não foi eliminado. Tarifas comerciais impostas em diferentes setores, combinadas com volatilidade de commodities energéticas e agrícolas, podem reacender a inflação nos próximos meses.
Nesse sentido, mesmo com um corte de juros nos EUA em pauta, a recomendação é que investidores mantenham prudência, já que a política monetária pode voltar a endurecer se houver uma surpresa inflacionária significativa.
Repercussão nos mercados emergentes
A queda do dólar globalmente trouxe impactos imediatos nas moedas de países emergentes. Além do real, que se valorizava cerca de 1% nesta sexta-feira, o peso mexicano subia 0,55% frente ao dólar e outras moedas ligadas a commodities também se fortaleceram.
Esse movimento beneficia economias emergentes, que podem atrair maior fluxo de capital diante da busca dos investidores por ativos de maior rentabilidade em um ambiente de corte de juros nos EUA.
Reflexos no Brasil: câmbio, Selic e inflação
No Brasil, o fortalecimento do real frente ao dólar pode impactar diretamente nas expectativas de inflação. Com a moeda americana mais barata, produtos importados e insumos industriais ficam menos onerosos, o que contribui para reduzir pressões inflacionárias.
Além disso, a queda dos rendimentos dos Treasuries nos EUA cria espaço para o Banco Central brasileiro avaliar revisões na trajetória da Selic. Atualmente, a taxa básica de juros está em processo de cortes graduais, mas a conjuntura externa pode acelerar esse movimento.
Se confirmada, a expectativa de corte de juros nos EUA reforçaria a atratividade dos ativos brasileiros, aumentando a entrada de capital estrangeiro e contribuindo para a valorização da bolsa local.
O Ibovespa em destaque
O Ibovespa já vinha registrando recuperação nas últimas semanas, mas o discurso de Powell potencializou esse movimento. O avanço de 2,11% no dia reflete não apenas a perspectiva de liquidez internacional mais farta, mas também o desempenho positivo de setores sensíveis ao câmbio e à taxa de juros, como varejo, tecnologia e consumo interno.
Empresas exportadoras também se beneficiaram, ainda que de forma menos intensa, já que o real mais forte reduz parte da competitividade externa, mas ao mesmo tempo aumenta a confiança dos investidores estrangeiros no país.
O papel da confiança global
O Federal Reserve é o banco central mais influente do mundo, e suas decisões impactam diretamente a economia global. Quando há expectativa de corte de juros nos EUA, aumenta a liquidez internacional, os investidores assumem mais risco e os ativos emergentes tendem a se valorizar.
Por outro lado, se o Fed surpreender com manutenção ou endurecimento da política monetária, o movimento pode se inverter rapidamente. Esse é um dos motivos pelos quais a fala de Powell foi tão aguardada e analisada em detalhes por economistas e agentes do mercado.
Perspectivas até a reunião de setembro
Até a decisão oficial do Fed, o mercado deve acompanhar com atenção os próximos indicadores econômicos americanos, como:
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Relatórios de emprego (payrolls);
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Índices de inflação (CPI e PCE);
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Dados de atividade industrial e de serviços;
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Sinais de consumo das famílias.
Cada divulgação terá potencial de reforçar ou reduzir a expectativa de corte de juros nos EUA, mantendo os mercados em constante oscilação.
O discurso de Jerome Powell em Jackson Hole abriu caminho para um cenário de maior otimismo nos mercados globais. A possibilidade de um corte de juros nos EUA em setembro impulsionou bolsas, derrubou o dólar e fortaleceu moedas emergentes.
No Brasil, a reação positiva se refletiu no Ibovespa e no câmbio, aumentando a confiança de que a Selic pode ser ajustada mais rapidamente. No entanto, especialistas alertam que os riscos inflacionários permanecem e que a cautela ainda é necessária.
Se confirmada a redução, o movimento pode marcar uma nova fase de liquidez internacional, com impactos expressivos para emergentes como o Brasil.






