Denúncias de racismo em restaurantes: como agir e evitar prejuízos legais e reputacionais
O episódio ocorrido em Salvador (BA), no qual uma influenciadora digital acusou a proprietária de um restaurante de injúria racial e ameaça, reacendeu um debate crucial sobre a responsabilidade de empreendedores diante de denúncias de racismo em restaurantes. No caso, a dona do estabelecimento teria cuspido em um copo de refrigerante servido à cliente após tentar expulsá-la, ao lado de três amigos, do local. O incidente destaca a importância de ações imediatas, gestão de crises e compliance interno para reduzir danos legais e reputacionais.
O que caracteriza crime de racismo ou injúria racial em estabelecimentos comerciais
No Brasil, a legislação que protege vítimas de preconceito racial é clara. A Lei 7.716/1989 define os crimes resultantes de discriminação por raça ou cor, incluindo a recusa ou impedimento de atendimento em restaurantes e bares abertos ao público. Já a injúria racial — ofensa dirigida a uma pessoa específica por motivo de raça, cor ou etnia — foi incorporada à lei de racismo pela Lei 14.532/2023, tornando-se crime inafiançável e imprescritível, com pena de dois a cinco anos de prisão.
Assim, atitudes de discriminação, como insultos verbais, agressões físicas ou qualquer forma de exclusão, são enquadradas como infrações graves. Para empreendedores, compreender esses limites legais é fundamental para prevenir processos criminais e cíveis.
Responsabilidade penal e civil: quem responde pelo crime
A responsabilidade em casos de denúncias de racismo em restaurantes recai diretamente sobre o autor do ato, seja funcionário, gerente ou proprietário, na esfera penal. No entanto, isso não exime o estabelecimento de responder civilmente.
Segundo o advogado civilista Kevin de Sousa, sócio do escritório Sousa & Rosa Advogados, “na esfera cível, o estabelecimento responde de forma objetiva pelos atos de seus funcionários, independentemente de culpa”. Essa responsabilização tem base tanto no Código Civil quanto no Código de Defesa do Consumidor, com jurisprudência consolidada que obriga empresas ao pagamento de indenizações por danos morais decorrentes de discriminação.
Portanto, mesmo que o ato de racismo seja cometido por um funcionário isoladamente, o negócio pode ser condenado se não houver protocolos claros de prevenção ou ações imediatas para mitigar os danos.
Riscos jurídicos e econômicos para o empreendedor
As consequências de denúncias de racismo em restaurantes vão além da esfera criminal. Berlinque Cantelmo, advogado especialista em ciências criminais e sócio do RCA Advogados, explica que “o estabelecimento pode enfrentar ações cíveis indenizatórias, sanções administrativas por órgãos como Procon e vigilâncias sanitárias, multas e até interdição temporária”.
Em casos mais graves ou de reincidência, há risco de suspensão ou cassação do alvará de funcionamento, especialmente quando se verifica omissão ou falha estrutural na prevenção de práticas discriminatórias. A gravidade aumenta quando a ofensa envolve atos físicos, como cuspir em alguém ou contaminar alimentos, podendo configurar concurso de crimes, incluindo lesão corporal e crimes contra a saúde pública, com penas mais severas e enquadramentos penais adicionais.
Como agir diante de uma denúncia de racismo em restaurantes
A postura adotada no momento do incidente é decisiva para a mitigação de riscos legais e reputacionais. Kevin de Sousa recomenda que o agressor seja imediatamente identificado e isolado, afastando-o das atividades do estabelecimento caso seja funcionário. É fundamental preservar provas, como imagens de câmeras de segurança, e colaborar integralmente com as autoridades competentes.
O advogado reforça que a omissão ou a tentativa de desacreditar a vítima tende a agravar a responsabilidade jurídica do negócio. Gravações feitas por clientes ou registros de câmeras são elementos probatórios relevantes e lícitos, podendo ser solicitados judicialmente caso o estabelecimento se recuse a fornecê-los.
“Essa é uma pergunta que deveria estar na pauta de todo empresário. A primeira providência é acolher a vítima. Parece óbvio, mas muitos estabelecimentos cometem o erro gravíssimo de tentar minimizar o ocorrido, ‘abafar’ a situação ou, pior, tratar a vítima como se ela fosse o problema”, alerta Sousa.
Medidas preventivas que reduzem riscos
A prevenção é parte essencial da gestão de um negócio. Especialistas defendem a implementação de treinamentos periódicos sobre diversidade, protocolos claros de conduta, canais internos de denúncia e uma política de tolerância zero ao racismo. Essas medidas não são apenas éticas, mas também estratégicas para proteção jurídica.
Empreendimentos que demonstram ter adotado medidas preventivas tendem a ter uma posição favorável em eventual processo judicial, reduzindo a probabilidade de condenações e danos reputacionais. Além disso, a transparência e a rapidez na resposta a incidentes aumentam a confiança de clientes e colaboradores.
Consequências em casos de denúncias falsas
Embora a grande maioria das denúncias seja legítima, o Código Penal prevê punição para casos de má-fé. Se comprovada a intenção de caluniar, o denunciante pode responder por denunciação caluniosa ou falsa comunicação de crime e até ser obrigado a indenizar por danos morais.
Berlinque Cantelmo ressalta que decisões judiciais já determinaram retratação pública em casos excepcionais, reforçando a necessidade de cautela e responsabilidade ao registrar denúncias. Kevin de Sousa enfatiza que, apesar dessa possibilidade, os casos de acusação falsa são raros e não devem desestimular vítimas reais de denunciar condutas discriminatórias.
Gestão de crises e reputação empresarial
O impacto de denúncias de racismo em restaurantes vai além do jurídico, atingindo diretamente a imagem da marca. Um episódio mal gerido pode viralizar nas redes sociais, afetar vendas e afastar clientes. Por isso, é crucial ter um plano de comunicação de crise, alinhando postura ética, transparência e cooperação com autoridades.
Especialistas apontam que a comunicação imediata e responsável, incluindo posicionamento público, retratação quando cabível e ação corretiva interna, é determinante para limitar danos reputacionais. Estabelecimentos que adotam políticas claras de diversidade e treinamento de equipe conseguem demonstrar compromisso com práticas éticas e legais, fortalecendo sua imagem perante o mercado.
Protocolos internos e responsabilidade contínua
Além da reação imediata, empresas devem implementar protocolos internos que incluam: monitoramento constante de condutas, canais de denúncia acessíveis a clientes e colaboradores, treinamento contínuo sobre diversidade e conduta ética, e avaliação periódica de políticas de prevenção.
A adoção de medidas estruturadas reforça a responsabilidade corporativa, diminui riscos jurídicos e fortalece a confiança da clientela. Para empreendedores, entender que a prevenção é tão importante quanto a resposta imediata é fundamental para proteger o negócio e garantir um ambiente seguro e inclusivo.
Reflexo no setor e sociedade
Casos como o ocorrido em Salvador revelam um problema sistêmico e destacam a necessidade de conscientização sobre discriminação racial no ambiente comercial. As empresas que lideram a adoção de boas práticas tornam-se referência no setor, contribuindo para um mercado mais ético e responsável.
A atenção a denúncias de racismo em restaurantes é, portanto, uma questão de gestão de risco, reputação e cumprimento da lei. A responsabilidade não é apenas individual, mas corporativa, e exige ação rápida, planejamento estratégico e compromisso com a diversidade.









