O dólar voltou a encostar em R$ 5 nesta quarta-feira, 7 de outubro, depois de duas sessões consecutivas de forte valorização do real. A moeda americana chegou a ser negociada perto de R$ 4,98 nos primeiros negócios, mas mudou de direção ao longo da manhã e, por volta das 11h50, subia 0,36%, cotada a aproximadamente R$ 4,995.
A mudança ocorre depois de uma queda expressiva acumulada desde o primeiro turno das eleições presidenciais. Na terça-feira, o dólar à vista encerrou a sessão ao redor de R$ 4,974, menor nível em quase cinco meses, depois de já ter despencado mais de 4% na segunda-feira.
Mesmo com a recuperação desta quarta, a moeda permanece muito abaixo do nível registrado antes da eleição. Na sexta-feira anterior ao primeiro turno, o dólar estava na região de R$ 5,21. Considerando uma cotação de aproximadamente R$ 4,995 nesta manhã, a queda acumulada desde então ainda supera 4%.
Em valores absolutos, são aproximadamente R$ 0,22 a menos por dólar em apenas três pregões.
O movimento desta quarta não representa, portanto, uma reversão completa da valorização do real. Até o momento, trata-se principalmente de uma correção depois de uma queda muito rápida da moeda americana e de uma mudança do ambiente internacional.
Enquanto fatores domésticos continuam favorecendo o real, o exterior passou a trabalhar na direção contrária: o dólar se fortalece globalmente, o petróleo voltou a superar US$ 100 por barril e os juros dos títulos públicos americanos alcançaram níveis não observados em mais de duas décadas.
Dólar sobe no mundo antes da ata do Fed
A pressão externa aparece claramente no índice DXY, que mede o desempenho do dólar diante de uma cesta das principais moedas globais.
Nesta quarta-feira, o indicador avançava cerca de 0,6% e chegava à região de 102,5 pontos. O euro, por sua vez, recuava para perto de US$ 1,12, enquanto outras moedas também perdiam terreno diante do dólar.
Parte do movimento está relacionada à expectativa pela divulgação da ata da última reunião do Federal Reserve, prevista para esta tarde.
O documento detalhará a reunião de setembro, quando o banco central americano elevou os juros pela primeira vez em mais de três anos. Os investidores procuram principalmente sinais sobre a possibilidade de novas altas.
O mercado havia passado a apostar majoritariamente em manutenção dos juros na reunião de outubro, mas as últimas semanas trouxeram novos fatores de pressão inflacionária.
O mais importante deles é a energia.
O petróleo Brent voltou a superar US$ 100 por barril e chegou nesta quarta-feira à região de US$ 102. A alta ocorre em meio a novas preocupações com a oferta internacional, ataques no Oriente Médio, riscos às rotas de transporte e uma tempestade que ameaça instalações de petróleo e gás no Golfo do México.
Petróleo mais caro aumenta o risco de inflação porque eleva custos de combustíveis, transporte, produção industrial e logística em várias economias.
Se o Fed interpretar essa pressão como persistente, pode manter os juros americanos elevados por mais tempo ou voltar a apertar a política monetária.
Para moedas emergentes, isso importa diretamente.
Juros mais altos nos Estados Unidos aumentam a atratividade dos títulos americanos e reduzem parte do incentivo para que investidores internacionais assumam risco em países como o Brasil.
Treasury de 10 anos supera 5,3%
Outro elemento que pressiona o câmbio nesta quarta-feira é a alta dos rendimentos dos Treasuries.
O título americano de dez anos chegou a superar 5,3% e atingiu níveis próximos dos maiores observados desde 2002. O papel de 30 anos também avançou, chegando à região de 5,7%.
Os números são particularmente importantes porque o Treasury funciona como uma das principais referências de preço do dinheiro no sistema financeiro mundial.
Quando um título do governo dos Estados Unidos oferece mais de 5% ao ano, outros ativos precisam apresentar um prêmio suficientemente grande para justificar o risco adicional.
Isso vale para ações, dívida corporativa e também para moedas de países emergentes.
O Brasil continua oferecendo uma diferença relevante de juros em relação aos Estados Unidos, com a Selic em 13,75% ao ano. Mas o aumento dos rendimentos americanos reduz parcialmente essa vantagem relativa.
Por isso, a combinação de petróleo em alta, DXY avançando e Treasuries acima de 5,3% cria um ambiente que normalmente pressionaria o real com maior intensidade.
O fato de o dólar continuar apenas ao redor de R$ 5 mostra que fatores domésticos ainda oferecem resistência a essa pressão.
Eleição ainda impede alta mais forte do dólar
O principal elemento local continua sendo o resultado do primeiro turno da eleição presidencial.
Flávio Bolsonaro terminou a votação com 47,03% dos votos válidos, à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, que recebeu 45,16%. Os dois voltarão às urnas em 25 de outubro.
A surpresa em relação às pesquisas provocou uma revisão abrupta das expectativas de bancos, fundos e investidores sobre o cenário econômico brasileiro a partir de 2027.
A leitura predominante no mercado é que uma eventual alternância de governo pode aumentar a probabilidade de ajuste fiscal, reformas e medidas para conter a trajetória da dívida pública.
Essa percepção derrubou o prêmio de risco dos ativos brasileiros imediatamente após a eleição.
Na segunda-feira, o dólar caiu mais de 4% em uma única sessão, enquanto o Ibovespa disparou 7,70% e os contratos de juros futuros registraram quedas superiores a um ponto percentual em alguns vencimentos.
A força da reação pode ser medida pelo fluxo estrangeiro.
Investidores internacionais colocaram aproximadamente R$ 10 bilhões líquidos na Bolsa brasileira apenas na segunda-feira, elevando o saldo estrangeiro acumulado em outubro para cerca de R$ 12,6 bilhões.
O ingresso de capital estrangeiro tende a aumentar a oferta de dólares no mercado doméstico porque parte desses recursos precisa ser convertida para reais antes de ser aplicada em ativos locais.
Esse fluxo foi uma das forças por trás da rápida valorização da moeda brasileira.
Dólar caiu de R$ 5,21 para abaixo de R$ 5
A magnitude do movimento aparece quando se compara o câmbio antes e depois da eleição.
Na sexta-feira, 2 de outubro, o dólar encerrou o pregão ao redor de R$ 5,216. Na segunda-feira, depois da divulgação do resultado eleitoral, caiu para aproximadamente R$ 5,00.
Na terça, recuou novamente e terminou na região de R$ 4,974.
A PTAX oficial de venda calculada pelo Banco Central na terça-feira ficou em R$ 4,9698.
A PTAX não é exatamente a mesma cotação negociada continuamente no mercado à vista. Ela é uma taxa de referência calculada pelo Banco Central a partir de quatro consultas realizadas ao longo do dia com dealers do mercado de câmbio.
Por isso, diferenças de alguns centavos entre PTAX, dólar comercial à vista e contratos futuros são normais.
O movimento acumulado, entretanto, é inequívoco.
Tomando como referência aproximadamente R$ 5,216 antes da eleição e R$ 4,995 perto do meio-dia desta quarta-feira, o dólar ainda apresentava queda de cerca de 4,2%.
Para recuperar integralmente o nível anterior ao primeiro turno, a moeda teria de subir aproximadamente R$ 0,22 a partir da cotação atual.
Mercado começa a discutir dólar a R$ 4,80
A rapidez da valorização do real também levou bancos e gestores a revisar suas projeções.
O JPMorgan avaliou depois do primeiro turno que o dólar poderia testar a região de R$ 4,95, patamar que praticamente já foi alcançado. A instituição também considera factível uma cotação próxima de R$ 4,80 nas próximas semanas, desde que a reprecificação política continue e o cenário fiscal caminhe na direção esperada pelo mercado.
O Goldman Sachs trabalha com uma faixa ainda mais ampla.
Em um cenário considerado favorável aos ativos brasileiros, o banco calcula que o dólar poderia ficar entre R$ 4,50 e R$ 4,80.
A região de R$ 4,80 seria compatível, segundo a análise, com uma eliminação do prêmio fiscal residual incorporado ao câmbio desde o período de forte desvalorização do real em 2024. Valores próximos de R$ 4,50 exigiriam uma combinação mais favorável, incluindo consolidação fiscal convincente e ambiente externo positivo.
Essas projeções não significam que o dólar seguirá uma trajetória linear de queda.
A sessão desta quarta-feira é justamente um exemplo do contrário.
Mesmo depois da mudança de percepção sobre o Brasil, o real continua exposto ao comportamento da economia americana, às decisões do Fed, ao preço do petróleo, à geopolítica e aos fluxos globais de capital.
Além disso, o segundo turno ainda não ocorreu.
R$ 4,80 exige mais que resultado eleitoral
A própria diferença entre o movimento de segunda-feira e o comportamento desta quarta-feira mostra que boa parte da surpresa eleitoral inicial já foi incorporada aos preços.
A primeira reação levou o dólar de aproximadamente R$ 5,22 para perto de R$ 5 em poucas horas.
Avançar de R$ 5 para R$ 4,80 representa outro movimento de aproximadamente 4%.
Para que isso aconteça de forma sustentável, o mercado provavelmente exigirá sinais adicionais.
Um deles será o resultado efetivo do segundo turno. Outro será a composição da eventual equipe econômica do próximo governo e, principalmente, as propostas concretas para receitas, despesas, dívida pública e reformas.
O câmbio também dependerá do cenário internacional.
Uma valorização forte do dólar no mundo pode limitar ou até impedir uma nova apreciação do real, mesmo que o ambiente político doméstico continue favorável.
É exatamente esse confronto que aparece no pregão desta quarta.
O ambiente brasileiro continua favorecendo o real, mas o DXY sobe mais de 0,6%, o Treasury de dez anos está acima de 5,3% e o petróleo voltou à região de US$ 100.
O resultado é um dólar que sobe no Brasil, mas de maneira muito menor do que seria esperado em um cenário doméstico sem suporte.
Petróleo acima de US$ 100 é risco para o real
A alta do petróleo merece atenção especial porque afeta o real por diferentes canais.
O primeiro é global. Petróleo mais caro aumenta a inflação internacional e eleva a possibilidade de juros mais altos nos Estados Unidos.
O segundo é doméstico.
Embora o Brasil seja produtor e exportador relevante de petróleo, uma alta prolongada das cotações internacionais pode elevar preços de combustíveis e pressionar a inflação brasileira.
Isso cria uma relação ambígua para o câmbio.
No curto prazo, preços elevados do petróleo podem favorecer a balança comercial brasileira e aumentar receitas de empresas exportadoras. Mas, se a commodity provocar inflação global e juros americanos maiores, o efeito financeiro pode trabalhar contra moedas emergentes.
Nesta quarta-feira, o segundo canal é o que ganha mais atenção.
O Brent avançava acima de US$ 100 enquanto investidores buscavam proteção no dólar e os títulos americanos ofereciam retornos cada vez maiores.
Dólar perto de R$ 5 vira ponto de equilíbrio do pregão
A região de R$ 5 ganhou importância técnica e psicológica depois dos movimentos desta semana.
Na segunda-feira, o mercado rompeu esse nível durante o pregão e fechou praticamente sobre ele.
Na terça, a moeda consolidou o movimento abaixo de R$ 5 e chegou à menor cotação desde maio.
Nesta quarta, voltou a testar o patamar.
A movimentação mostra uma disputa mais equilibrada.
De um lado estão a entrada de capital estrangeiro, a queda do risco percebido para o Brasil e a expectativa de uma política fiscal mais restritiva após as eleições.
Do outro estão a valorização global do dólar, os Treasuries elevados, petróleo acima de US$ 100 e a expectativa pela política monetária americana.
A cotação perto de R$ 5 representa, neste momento, o ponto em que essas forças praticamente se anulam.
Ata do Fed pode mudar o câmbio à tarde
O principal evento ainda pendente nesta quarta-feira é a divulgação da ata do Federal Reserve.
O documento está previsto para as 15h, horário de Brasília.
O mercado buscará principalmente referências sobre inflação e sobre a necessidade de novos aumentos dos juros americanos.
Uma ata considerada mais dura pode elevar ainda mais os rendimentos dos Treasuries, fortalecer o dólar globalmente e levar a moeda americana novamente para cima de R$ 5 no Brasil.
Uma leitura menos agressiva pode produzir o movimento contrário, especialmente porque o real continua recebendo suporte da reprecificação doméstica.
As probabilidades implícitas do mercado indicavam que a manutenção dos juros americanos em outubro continuava sendo o cenário predominante, mas os investidores ainda atribuíam possibilidade relevante a novos aumentos nos meses seguintes.
O petróleo mais caro adiciona uma nova camada a essa discussão.
Quanto maior a pressão energética, mais difícil fica para o Fed declarar encerrado o processo de aperto monetário.
Real continua mais forte, mas volatilidade deve permanecer
O comportamento desta quarta-feira ajuda a colocar o rali cambial dos últimos dias em perspectiva.
O dólar voltou a subir, mas permanece aproximadamente 4% abaixo do nível anterior ao primeiro turno. Isso mostra que a mudança de percepção sobre o Brasil ainda está incorporada à cotação.
Ao mesmo tempo, o movimento também deixa claro que a queda para R$ 4,80 ou R$ 4,50 não pode ser tratada como automática.
A partir de agora, o real precisará de novos catalisadores.
O primeiro será político, com pesquisas, alianças e o resultado do segundo turno. O segundo será fiscal, com indicações sobre as medidas que poderão ser adotadas a partir de 2027. O terceiro será externo, principalmente em relação ao Federal Reserve, aos Treasuries e ao petróleo.
Até o meio-dia desta quarta-feira, o equilíbrio dessas forças mantinha o dólar praticamente sobre R$ 5.
Depois de cair de aproximadamente R$ 5,22 para menos de R$ 4,98 em dois pregões, a moeda americana encontrou uma primeira resistência à continuação do movimento.
Isso não elimina o fortalecimento recente do real, mas muda o estágio da negociação: o mercado saiu da reprecificação imediata provocada pelo primeiro turno e entrou em uma fase na qual cada nova queda do dólar deverá depender de confirmações políticas, fiscais e externas.
Fontes
Banco Central do Brasil — PTAX e dados do mercado de câmbio
Federal Reserve — política monetária e ata da reunião de setembro
B3 — fluxo de capital estrangeiro e mercado de derivativos
Reuters — dólar global, petróleo e Treasuries
JPMorgan — estratégia para ativos brasileiros após o primeiro turno
Goldman Sachs — perspectivas para o real após as eleições
Dados de mercado — dólar comercial, DXY, petróleo e juros internacionais







