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Dólar hoje sobe 0,76% e fecha a R$ 5,39 com pressão fiscal e dados dos EUA

Moeda americana encerra quinta-feira a R$ 5,3875, após atingir R$ 5,4290 durante o pregão; incertezas sobre a equipe econômica de Lula e inflação nos Estados Unidos pressionam o real

por Camila Braga
29/10/2026 às 17h38
em Dólar
Dolar Hoje - Gazeta Mercantil

O dólar hoje fechou em alta de 0,76%, cotado a R$ 5,3875, nesta quinta-feira (29 de outubro de 2026), interrompendo dois pregões consecutivos de desvalorização diante do real. A moeda americana voltou a ganhar força no mercado brasileiro em uma sessão marcada por preocupações com a condução da política fiscal no próximo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pela indefinição sobre a equipe econômica e pela divulgação de indicadores que mostraram crescimento robusto e inflação persistente nos Estados Unidos.

A cotação chegou a R$ 5,4290 durante a tarde, quando a procura pela moeda americana se intensificou. Posteriormente, o dólar perdeu parte da valorização, mas permaneceu acima de R$ 5,38 até o encerramento das negociações. O movimento refletiu a combinação de fatores domésticos e internacionais, em um período de forte oscilação dos ativos brasileiros desde o segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25).

Apesar da recuperação do real nas duas sessões anteriores, o câmbio continua distante dos níveis observados antes da eleição. A mudança nas expectativas sobre a política econômica, acompanhada pelo aumento das taxas dos contratos de juros futuros, mantém investidores atentos à capacidade do governo de estabilizar as contas públicas e apresentar medidas concretas para o próximo mandato.

Dólar chega a R$ 5,4290 e reduz alta no fim do pregão

A trajetória da moeda americana nesta quinta-feira foi marcada por oscilações expressivas. O dólar chegou a ser negociado próximo de R$ 5,3434 na mínima do dia, antes de avançar para R$ 5,4290. A diferença entre os extremos alcançou 8,56 centavos, evidenciando a amplitude das negociações em uma sessão de maior sensibilidade às notícias políticas e econômicas.

A pressão compradora ganhou intensidade durante a tarde, acompanhando a piora da percepção de risco sobre o cenário fiscal brasileiro. Declarações de integrantes do governo contrárias à redução de gastos sociais como instrumento de ajuste das contas públicas ampliaram as dúvidas sobre as medidas que poderão ser adotadas a partir de 2027.

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, manifestou oposição a uma estratégia de ajuste fiscal baseada em cortes de programas sociais. A posição foi acompanhada pelo mercado em meio às discussões sobre o equilíbrio entre compromissos de despesas, arrecadação e sustentabilidade do endividamento público.

A valorização do dólar perdeu intensidade na parte final do pregão, quando surgiram especulações sobre a possibilidade de o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), assumir o Ministério da Fazenda no próximo mandato. A informação não representava uma indicação oficial e não havia confirmação de convite.

Posteriormente, Fonteles afirmou que não havia tratado sobre a ocupação de cargos no próximo governo. A declaração manteve indefinida a composição da equipe econômica, um dos principais pontos acompanhados pelos investidores desde a confirmação do resultado eleitoral.

Dólar acumula forte valorização em relação ao período anterior à eleição

O desempenho recente do câmbio mostra que a pressão sobre o real não se limita à sessão desta quinta-feira. Na segunda-feira (26), primeiro pregão após o segundo turno presidencial, a moeda americana registrou uma valorização expressiva, acompanhada pela elevação das taxas de juros futuros e pela redução da exposição de investidores a ativos brasileiros.

Na terça-feira (27) e na quarta-feira (28), o dólar apresentou recuos, recuperando parte do movimento inicial. A alta desta quinta interrompeu essa sequência e mostrou que a instabilidade continua presente no mercado cambial.

A evolução também pode ser observada na taxa PTAX, calculada pelo Banco Central. Na sexta-feira (23), último dia útil anterior ao segundo turno, a referência oficial de venda estava em R$ 5,0377. Nesta quinta-feira, a PTAX foi fixada em R$ 5,3744.

A diferença corresponde a uma valorização de aproximadamente 6,68% da moeda americana em quatro pregões, cálculo realizado a partir das duas taxas oficiais. Em valores absolutos, o aumento foi de 33,67 centavos por dólar.

O movimento de alta, entretanto, não ocorreu de maneira contínua. Na segunda-feira (26), a PTAX de venda chegou a R$ 5,5007, antes de recuar nos dias seguintes. A cotação oficial desta quinta ficou 2,30% abaixo daquela referência, demonstrando que houve recuperação parcial do real após o primeiro impacto das eleições.

Essas comparações utilizam exclusivamente a série PTAX, para preservar a consistência dos dados. A taxa oficial não deve ser confundida com a cotação de fechamento do mercado à vista, que é negociada em horários e condições diferentes.

Dívida pública e política fiscal aumentam preocupação com o real

As contas públicas brasileiras tiveram participação central na avaliação dos investidores. Dados fiscais referentes a setembro apontaram que a dívida bruta do governo geral permaneceu em 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), equivalente a aproximadamente R$ 11,1 trilhões.

O indicador permaneceu estável em relação a agosto, mas continua em patamar elevado. A dívida líquida do setor público atingiu 70% do PIB, ante 69,3% no mês anterior, enquanto os juros nominais acumulados em 12 meses alcançaram aproximadamente R$ 1,205 trilhão, o equivalente a 8,99% do PIB.

A dimensão dos encargos financeiros ajuda a explicar a atenção dedicada à trajetória do endividamento. Quanto maior a necessidade de financiamento do governo, maior pode ser a sensibilidade dos títulos públicos a mudanças na percepção de risco, especialmente quando investidores questionam a capacidade de estabilização da dívida ao longo dos próximos anos.

O Tesouro Nacional também apresentou nesta quinta-feira o resultado das contas do Governo Central em setembro. O levantamento registrou superávit primário de R$ 4,839 bilhões, ante déficit de R$ 14,4 bilhões no mesmo mês de 2025.

Parte importante do resultado positivo decorreu do cancelamento de R$ 12,8 bilhões em precatórios de exercícios anteriores, conforme informou o Ministério da Fazenda. Esse componente extraordinário limita a interpretação de que a melhora mensal represente, isoladamente, uma mudança estrutural nas contas públicas.

No acumulado de janeiro a setembro, o Governo Central registrou déficit primário de R$ 90,2 bilhões, inferior aos R$ 100,3 bilhões verificados no mesmo período do ano passado. O resultado mostra melhora na comparação anual, mas também evidencia a persistência de um desequilíbrio fiscal acumulado.

Os números reforçam a importância das medidas que serão apresentadas para 2027. Para o mercado cambial, a questão central é a capacidade de compatibilizar as despesas públicas com a arrecadação e estabelecer uma trajetória de endividamento considerada sustentável.

Tesouro nega discussão de IOF sobre investimentos isentos

Outro assunto acompanhado durante o pregão foi a possibilidade de tributação de instrumentos financeiros atualmente isentos de Imposto de Renda, como Letras de Crédito Imobiliário (LCI), Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) e certificados de recebíveis.

O secretário do Tesouro Nacional, Daniel Cardoso Leal, afirmou nesta quinta-feira que não havia uma medida preparada para cobrar Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) desses instrumentos. Segundo ele, o debate sobre a isonomia tributária entre diferentes modalidades de investimento existe há algum tempo, mas não corresponde a uma proposta específica em discussão naquele momento.

A manifestação ocorreu depois da circulação de informações sobre uma eventual iniciativa para ampliar a tributação desses papéis. O esclarecimento foi relevante porque mudanças nas regras fiscais de investimentos podem afetar decisões de alocação de recursos, o custo de financiamento de determinados setores e as condições de funcionamento do mercado de capitais.

A ausência de uma proposta formal não encerra o debate sobre a tributação de instrumentos incentivados. Entretanto, não havia base para tratar a cobrança de IOF sobre esses investimentos como uma medida anunciada ou aprovada pelo governo.

Inflação dos Estados Unidos chega a 3,6% e influencia o câmbio

No cenário internacional, os investidores reagiram à divulgação de novos indicadores econômicos dos Estados Unidos. O índice de preços dos gastos com consumo pessoal (PCE), uma das principais referências de inflação acompanhadas pelo Federal Reserve, subiu 0,5% em setembro, após avanço de 0,3% em agosto.

Em 12 meses, a inflação medida pelo PCE alcançou 3,6%, permanecendo acima da meta de 2% perseguida pelo banco central americano. O núcleo do indicador, que exclui os componentes de alimentos e energia, avançou 0,3% no mês e acumulou alta de 3,1% em relação a setembro de 2025.

Os números foram divulgados pelo Bureau of Economic Analysis (BEA), órgão responsável pelas principais estatísticas econômicas dos Estados Unidos, e reforçaram a percepção de que as pressões inflacionárias ainda não foram completamente controladas.

Na mesma divulgação, o BEA informou que o Produto Interno Bruto americano cresceu à taxa anualizada de 3,4% no terceiro trimestre de 2026, depois de avançar 2,2% no trimestre anterior. A aceleração de 1,2 ponto percentual foi sustentada por investimentos, consumo das famílias e gastos governamentais, parcialmente compensados pelo comportamento das exportações.

A combinação de atividade econômica resistente e inflação elevada influencia as expectativas sobre a trajetória dos juros americanos. Quando os investidores passam a considerar a possibilidade de manutenção de taxas mais altas por um período prolongado, os rendimentos de ativos denominados em dólar podem se tornar relativamente mais atraentes.

Esse mecanismo não determina, isoladamente, a direção do real, mas interfere na distribuição internacional de capitais e no retorno exigido para investimentos em economias emergentes.

Federal Reserve mantém juros entre 3,75% e 4% ao ano

Na quarta-feira (28), o Federal Reserve decidiu manter sua taxa básica de juros no intervalo de 3,75% a 4% ao ano. A decisão foi aprovada por dez dos 12 integrantes do Comitê Federal de Mercado Aberto, responsável pela política monetária americana.

Dois integrantes, Lisa Cook e Beth Hammack, defenderam uma elevação de 0,25 ponto percentual. A divergência mostrou que parte do colegiado considera necessário adotar uma postura mais restritiva diante da persistência da inflação.

No comunicado oficial, o Federal Reserve reconheceu o ritmo forte de expansão da economia e a resiliência dos gastos domésticos. A instituição também afirmou que continuará avaliando as informações disponíveis para determinar a postura monetária necessária ao retorno da inflação à meta.

Os novos dados de crescimento e preços divulgados nesta quinta-feira reforçaram a importância das próximas leituras econômicas. Entretanto, não permitem concluir que haverá necessariamente uma elevação dos juros na reunião seguinte, uma decisão que continuará dependendo do conjunto de informações analisadas pelo comitê.

O movimento do dólar no Brasil também apresentou características próprias. Embora a moeda americana tenha avançado diante de diversas divisas de economias emergentes, o índice DXY, que acompanha seu desempenho perante uma cesta de seis moedas fortes, registrava queda próxima de 0,2% no fim da tarde.

Essa diferença indica que a valorização frente ao real não pode ser explicada exclusivamente por um fortalecimento generalizado do dólar no exterior. As preocupações domésticas com política fiscal e o ambiente de maior cautela em relação a mercados emergentes também tiveram influência nas negociações.

PTAX do dólar sobe 0,61% e termina em R$ 5,3744

A taxa PTAX de venda divulgada pelo Banco Central nesta quinta-feira foi de R$ 5,3744, ante R$ 5,3420 na quarta-feira (28). A diferença de R$ 0,0324 corresponde a uma valorização de 0,61% na comparação diária.

A PTAX de compra ficou em R$ 5,3738. A referência é apurada a partir de quatro consultas realizadas com instituições participantes do mercado cambial, entre a manhã e o início da tarde, e é utilizada em diferentes operações financeiras e contratos.

O valor difere do dólar à vista, que encerrou a sessão a R$ 5,3875. A distância de 1,31 centavo entre as duas referências decorre, entre outros fatores, dos horários e das metodologias de apuração.

A distinção também é relevante para consumidores. O dólar comercial não corresponde necessariamente à cotação utilizada por bancos e casas de câmbio em operações de turismo, remessas internacionais ou pagamentos com cartão. Nessas transações, o custo final depende da modalidade contratada, das margens cobradas pelas instituições, das tarifas e dos tributos aplicáveis.

Alta do dólar pode pressionar importações e custos das empresas

A valorização recente da moeda americana altera as condições de custo para empresas brasileiras que dependem de produtos, máquinas, equipamentos ou matérias-primas importadas. Quanto maior a cotação, maior tende a ser a despesa em reais necessária para liquidar compromissos denominados em dólar, quando não existem mecanismos de proteção cambial.

O efeito sobre os preços domésticos, contudo, não é automático. A transmissão das variações cambiais depende de fatores como estoques, contratos de fornecimento, concorrência, margens de lucro e capacidade das empresas de repassar custos aos consumidores.

Em segmentos como eletrônicos, equipamentos industriais e determinados insumos agrícolas, uma desvalorização persistente do real pode elevar as despesas de reposição e reduzir margens operacionais. Por outro lado, empresas exportadoras que recebem em dólar e possuem parte relevante de seus custos em reais podem se beneficiar da conversão de receitas, embora o resultado também dependa de preços internacionais, despesas financeiras e instrumentos de proteção.

O Banco Central informou, em suas estatísticas do setor externo, que o Brasil registrou superávit comercial de US$ 6,9 bilhões em setembro, com exportações de US$ 34,6 bilhões e importações de US$ 27,7 bilhões. O desempenho representa uma referência importante para acompanhar a oferta e a demanda estrutural por moeda estrangeira no país.

Esses fluxos comerciais, entretanto, não explicam sozinhos as oscilações diárias do câmbio, que também são influenciadas por investimentos financeiros, operações de proteção, expectativas de juros e mudanças na percepção de risco.

Dólar entra no último pregão de outubro com cenário fiscal no radar

A sexta-feira (30) será o último pregão de outubro e encontrará o dólar próximo de R$ 5,40, depois de uma semana marcada por variações expressivas desde o resultado da eleição presidencial.

O mercado continuará acompanhando eventuais definições sobre a equipe econômica do próximo mandato de Lula, especialmente a escolha do ministro da Fazenda e as primeiras indicações sobre a estratégia fiscal para 2027. Novas declarações de integrantes do governo também poderão influenciar as expectativas, dependendo de seu conteúdo e de eventuais medidas concretas anunciadas.

No exterior, a avaliação dos dados econômicos americanos e das perspectivas de juros do Federal Reserve continuará influenciando os movimentos das moedas de países emergentes. A comparação entre o comportamento internacional do dólar e sua cotação no Brasil será relevante para distinguir pressões externas de fatores específicos da economia brasileira.

O encerramento desta quinta-feira em R$ 5,3875 confirma a recuperação da moeda americana após dois pregões de queda, mas também evidencia que parte da valorização registrada durante a tarde foi devolvida antes do fechamento. O próximo pregão mostrará como os investidores reagirão às novas informações fiscais e políticas, em um ambiente no qual as expectativas sobre 2027 continuam sendo um dos principais fatores de formação dos preços.

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