Enel São Paulo enfrenta sucessivas reprovações da Aneel e acumula recorde de penalidades desde 2019
A Enel São Paulo volta ao centro de controvérsias no setor elétrico brasileiro após uma série de planos de melhoria rejeitados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e sucessivas penalizações por falhas na prestação de serviços. Desde 2019, o desempenho da distribuidora vem sendo monitorado de perto por órgãos de regulação e controle, em meio a crescentes insatisfações de consumidores e autoridades públicas.
De acordo com relatório recente da Aneel, 11 planos de ação foram firmados entre a Aneel e a Enel São Paulo nos últimos sete anos, com sete deles reprovados por descumprimento de metas e falhas estruturais. Os dados expõem um cenário de recorrência em problemas de continuidade do fornecimento, tempo de resposta e investimentos em infraestrutura de rede.
Histórico de reprovações e falhas no serviço
O acompanhamento regulatório da Enel São Paulo é um dos mais rigorosos entre as distribuidoras do país. Os planos de melhoria cobrem aspectos como atendimento ao consumidor, robustez da rede elétrica e padronização dos procedimentos de emergência. A Aneel, ao identificar desempenho insatisfatório, abre processos de acompanhamento para cobrar ajustes e exigir novos parâmetros de execução.
Em vários casos, as respostas da Enel São Paulo não atenderam às determinações da agência, o que resultou no arquivamento de planos reprovados e no início de processos punitivos. Em 2022, uma fiscalização que deveria suceder a rejeição de um desses planos precisou ser cancelada devido a restrições orçamentárias da agência, interrompendo temporariamente a sequência de ações corretivas.
O ciclo de correções e reprovações seguidas levantou preocupações sobre a governança operacional da Enel São Paulo, especialmente diante de eventos climáticos extremos que vêm afetando a rede de distribuição. Em novembro de 2023, após fortes chuvas que deixaram milhares de consumidores sem energia por vários dias, a Aneel aplicou uma multa recorde de R$ 165 milhões, a maior já registrada no segmento de distribuição elétrica no Brasil.
Penalidades acumuladas e questionamentos judiciais
As penalidades impostas à Enel São Paulo não se limitam ao episódio de 2023. Entre 2018 e 2023, as multas aplicadas pela Aneel somaram R$ 320,8 milhões, valor que reflete a sucessão de falhas e reincidências no descumprimento de compromissos firmados. A distribuidora, no entanto, contesta judicialmente cerca de R$ 261,6 milhões desse montante, alegando inconsistências nos relatórios técnicos e no processo sancionador.
Fontes do setor elétrico afirmam que a postura recorrente de judicialização por parte da Enel São Paulo gera atrasos na efetiva aplicação das sanções e compromete a credibilidade do sistema regulatório. A Justiça Federal, por sua vez, avalia os autos com base em relatórios técnicos enviados pela Aneel e em pareceres da Advocacia-Geral da União (AGU).
Governo aciona órgãos de controle
O caso da Enel São Paulo chegou à esfera federal. Em janeiro deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou que a AGU e a Controladoria-Geral da União (CGU) apurem possíveis falhas na prestação de serviços de distribuição de energia. O objetivo é verificar se houve negligência, omissão ou quebra contratual que possa justificar recomendações de punição mais severa, incluindo a possível caducidade da concessão.
Para subsidiar a apuração, o Ministério de Minas e Energia (MME) solicitou à Aneel um relatório detalhado com todas as medidas regulatórias, fiscalizatórias e sancionatórias aplicadas à Enel São Paulo desde 2019. O documento, com 93 páginas, foi entregue em 19 de janeiro e reúne histórico de fiscalizações, cronologia de incidentes críticos e o status de cada plano de melhoria firmado ao longo do período.
Possível recomendação de caducidade da concessão
A Aneel confirmou que está na fase final das diligências relacionadas às falhas ocorridas em 2023 e às sucessivas interrupções de energia que atingiram a Região Metropolitana de São Paulo. O relatório final poderá recomendar medidas duras, incluindo a cassação da concessão pública caso os resultados apontem reincidência grave, má gestão de rede ou descumprimento sistemático das obrigações contratuais.
Uma medida desse porte seria inédita na história recente do setor elétrico paulista e representaria uma mudança estrutural no mercado de energia da maior capital do país. Especialistas avaliam que o governo federal tem acompanhado o caso de perto, especialmente por seu impacto político e econômico sobre milhões de consumidores e sobre a imagem institucional da Aneel como fiscalizadora.
Descontentamento dos consumidores e imagem corporativa
A Enel São Paulo também enfrenta crescente desgaste junto à opinião pública. Falhas repetidas no restabelecimento de energia após temporais, somadas a longas filas em postos de atendimento e à dificuldade em acessar os canais digitais da empresa, intensificaram as críticas à concessionária.
Pesquisas de satisfação indicam níveis historicamente baixos de confiança por parte dos usuários residenciais e corporativos. Em bairros da capital e da Região Metropolitana, comunidades já acionam parlamentares e o Ministério Público para exigir melhorias efetivas na gestão da Enel São Paulo e revisão do contrato de concessão.
A distribuidora tem buscado reforçar sua comunicação institucional, alegando que vem investindo em tecnologia e em planos de contingência. Entretanto, os resultados ainda não se converteram em melhora perceptível nos indicadores de qualidade e continuidade, conforme os relatórios da Aneel.
Avaliação técnica e perspectivas para o setor
Para analistas do mercado, o caso da Enel São Paulo lança um alerta sobre a necessidade de fortalecer a governança regulatória do setor elétrico. A reincidência de falhas, os altos custos de judicialização e o impacto na confiança do consumidor revelam fragilidades em processos que deveriam garantir previsibilidade e eficiência.
Segundo especialistas, a solução passa por reformas no modelo de acompanhamento regulatório, ampliação da transparência e criação de instrumentos que estimulem o cumprimento voluntário de metas por parte das distribuidoras. Há também sugestões para aprimorar a integração entre Aneel, AGU, CGU e MME, de modo a assegurar celeridade nas decisões e evitar o acúmulo de processos punitivos sem desdobramentos práticos.
O desfecho do processo contra a Enel São Paulo será decisivo para o futuro da concessão e poderá servir de referência para outras distribuidoras que enfrentam questionamentos semelhantes em diferentes regiões do país.









