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FT/Análise: Contradição racial marca universidades de elite dos EUA | Mundo

por Gabriel Monteiro
08/07/2023 às 14h40
em Economia
Ft/Análise: Contradição Racial Marca Universidades De Elite Dos Eua | Mundo - Gazeta Mercantil - Economia

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Se a oligarquia de Roma pudesse viajar para o futuro, talvez aprenderia um ou dois truques da Ivy League dos EUA (o grupo das oito universidades de primeira linha do país). É difícil pensar em um sistema melhor de perpetuação da elite do que o praticado por essas escolas. Há dias, a Suprema Corte americana aboliu a ação afirmativa na educação superior americana – decisão lamentada pelos diretores de cada uma das oito universidades da Ivy League. Dartmouth chegou até a oferecer orientação a estudantes traumatizados. Um romano da Antiguidade poderia pensar que algo tinha mudado radicalmente. Mas nada estaria mais distante da realidade.

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Dos 31 milhões de americanos na faixa dos 18 aos 24 anos, apenas 68 mil estudam nas universidades da Ivy League — cerca de 0,2%. Destes, uma parcela variável é de beneficiários não brancos da ação afirmativa. Muitos desses provêm de famílias negras ou latinas privilegiadas, em contraposição ao South Side de Chicago ou às áreas devastadas de Detroit. Essa é a base sobre a qual a Ivy League reivindica ser uma geradora de mudança social. Trata-se de uma ilusão de ótica. Sob esse ponto de vista a Suprema Corte prestou um favor aos EUA. Qualquer freio a esse “status quo” é um benefício.

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Mas a decisão pouco tende a desencadear os questionamentos de ordem existencial de que os EUA carecem. O debate americano continua obstinadamente monopolizado pelo colapso étnico sofrido pelo insignificante número de estudantes que saem vencedores na loteria da Ivy League. O grupo de aproximadamente 19 milhões desses 31 milhões de jovens americanos que não vão além do ensino médio, e os aproximadamente 12 milhões que frequentam universidades não tão de elite mal aparecem. Sejam quais forem os artifícios de que a Ivy League terá de lançar mão para manter seus coeficientes de diversidade após a decisão judicial, eles serão, portanto, em grande medida irrelevantes para os 99,8% que nunca chegarão lá.

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A opção autenticamente radical ao alcance da Ivy League — a de gastar suas amplas receitas de doações para aumentar significativamente o número de estudantes – pouco tende a ser cogitada. O conceito-chave da Ivy League é exclusividade; uma grande expansão de ingressos diluiria esse diferencial. Tendemos, portanto, a dar continuidade a uma situação em que universidades como Harvard, que administra US$ 53 bilhões em recursos, ou Princeton, com US$ 36 bilhões, continuarão a enriquecer. Cada uma dessas fortunas poderia revolucionar a ajuda financeira a dezenas de universidades públicas.

A segunda opção mais radical seria a Ivy League abolir o que é conhecido como “ALDC” – atletas, legado, lista do reitor e filhos do corpo docente e do quadro de funcionários. Quarenta e três por cento dos admitidos por Harvard provêm de um desses grupos. O primeiro, atletas, inclui esportes somente passíveis de ser aprendidos pelos privilegiados, como lacrosse, navegação a vela e remo. Os generosos ingressos na área de esportes das universidades é o motivo pelo qual muitos escândalos recentes de admissão envolveram diretores esportivos. Ao contrário da impressão popular, a maioria dos estudantes atletas não são jogadores negros de basquete. Sessenta e cinco por cento são brancos.

O segundo grupo, os alunos por legado, são os parentes próximos dos ex-alunos — a própria definição de reprodução da elite. Mais uma vez, são, na maioria, brancos. O terceiro, a lista do reitor, é um eufemismo para os filhos de pessoas que doaram muito dinheiro. Um exemplo de um deles é Jared Kushner, o genro de Donald Trump, cujo pai, Charles, deu US$ 2,5 milhões a Harvard. Finalmente, há os filhos de membros do corpo docente e dos funcionários. Tomada conjuntamente, a Ivy League poderia, com igual ou até maior plausibilidade, ser interpretada como uma ação afirmativa para pessoas brancas ricas, o que se distancia, e muito, da marca progressista que cultivou.

Suas principais vítimas são asiáticas. A ironia da história é forte. Ação afirmativa foi concebida na década de 60 como uma forma de reparação destinada aos descendentes de escravos. Transformou-se rapidamente em um sistema de jogo de azar racial para muitas etnias. O grupo mais prejudicado, o de asiáticos-americanos, são imigrantes de países que nada tinham a ver com a escravidão americana. Os principais beneficiários foram as pessoas da elite branca, e não os afro-americanos. Estes últimos respondem pelo verniz que dá brilho a um sistema que permanece essencialmente inalterado.

Talvez o maior custo para a sociedade americana é a obsessão da elite com o fator raça. Ao ter se beneficiado de um sistema que gostariam de ver herdado pelos seus filhos, não espanta que tenham ficado indignados com a decisão da Suprema Corte. A mídia americana é dominada por formados na Ivy League. Trata-se de experiência de vida que predispõe as pessoas a ver a cor antes da classe.

A única mudança que poderia vir a ser considerada radical em uma sociedade que se diz meritocrática é uma mudança que melhoraria as oportunidades da vida para os demais. Isso significaria começar do início da vida de uma criança com melhor assistência infantil, boa educação pré-escolar e assim por diante. Envolveria aumentar drasticamente o fluxo de estudantes passíveis de ter a oportunidade de vencer na loteria educacional. Enquanto esse quadro não mudar — e isso só ocorrerá se a questão se tornar o foco dos EUA —, a atual discussão é um monumental ato de tapar o sol com a peneira.

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