Grupo Planner consolida controle da Ciabrasf e inicia reestruturação administrativa após Operação Carbono Oculto
O cenário corporativo na Avenida Faria Lima, coração financeiro do Brasil, registrou nesta segunda-feira (5) a conclusão de um dos movimentos de consolidação mais acompanhados do setor de serviços fiduciários. A B100 Controle e Participações, holding controladora do tradicional Grupo Planner, oficializou a aquisição definitiva da Companhia Brasileira de Serviços Financeiros (Ciabrasf). A transação, que vinha sendo alinhavada desde novembro do último ano, representa um marco no processo de desmobilização de ativos da Reag Investimentos, organização que passou a ser alvo de intenso escrutínio regulatório e policial no âmbito da Operação Carbono Oculto, deflagrada pela Polícia Federal.
Com a liquidação financeira e a transferência das ações, o Grupo Planner assume o protagonismo na gestão de uma das principais administradoras de fundos do país, consolidando sua vertical de infraestrutura de mercado. A operação não apenas altera a composição acionária da Ciabrasf, mas desencadeia uma reforma imediata em seu corpo diretivo, visando distanciar a companhia das investigações que abalaram sua antiga controladora e assegurar a continuidade operacional sob novos padrões de governança corporativa.
Composição acionária e a estratégia da holding B100
A concretização do negócio envolveu a transferência de um bloco massivo de ativos. A B100, veículo de investimento do Grupo Planner, passou a deter formalmente 5.655.015 ações ordinárias da Ciabrasf. Este volume representa 96,93% do capital social total da instituição, garantindo ao novo controlador um domínio quase integral sobre as decisões estratégicas e operacionais da companhia.
A aquisição da Ciabrasf pelo Grupo Planner é lida pelo mercado como um movimento defensivo e, ao mesmo tempo, de expansão de margens. Para o Grupo Planner, internalizar uma administradora de fundos com o porte da Ciabrasf permite uma integração vertical completa. A holding, que já possui expertise em corretagem, gestão de recursos (Asset Management) e crédito, agora detém a “espinha dorsal” dos fundos de investimento: a administração fiduciária.
Para viabilizar a transação dentro das normas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o acordo prevê a realização de uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) decorrente da alienação de controle. Esse mecanismo assegura aos acionistas minoritários remanescentes o direito de saída em condições equitativas, conforme prega a Lei das S.A. e as normas vigentes para companhias abertas ou com registro de categoria A na autarquia reguladora.
Reestruturação imediata no alto escalão diretivo
A troca de controle veio acompanhada de uma profunda “limpeza de balcão” no conselho e na diretoria executiva. Silvano Gersztel, executivo com trajetória de nove anos na Reag e figura central na administração financeira da antiga gestão, renunciou aos cargos de diretor-presidente (CEO) e diretor financeiro (CFO). A saída de Gersztel é vista como um passo necessário para a desvinculação da Ciabrasf do ecossistema da Reag, atualmente sob investigação por supostas movimentações atípicas.
Para preencher o vácuo de liderança, o Conselho de Administração da companhia, agora sob influência do Grupo Planner, elegeu Carlos Arnaldo Borges de Souza como o novo diretor-presidente. Nome respeitado no setor financeiro e sócio do Grupo Planner, Borges de Souza assume a missão de estabilizar a confiança de investidores e reguladores. Para o cargo de diretor financeiro, foi eleito Thiago Souza Gramari, profissional com histórico em compliance e gestão de ativos, reforçando a nova diretriz de austeridade e transparência que o Grupo Planner pretende imprimir à subsidiária.
A renovação administrativa terá seu ápice na Assembleia Geral Extraordinária (AGE) convocada para o próximo dia 6 de fevereiro. Na pauta, consta a destituição formal dos antigos conselheiros e a eleição de um novo colegiado que reflita a visão estratégica da B100. Este colegiado será responsável por supervisionar a integração da Ciabrasf ao ecossistema do Grupo Planner, garantindo que as sinergias operacionais não comprometam a independência fiduciária exigida pela regulamentação da CVM.
O impacto da Operação Carbono Oculto no setor fiduciário
A venda da Ciabrasf é um desdobramento direto da Operação Carbono Oculto, que investiga gestoras de recursos por suposta atuação em conjunto com organizações criminosas e lavagem de dinheiro através do mercado de capitais. De acordo com as investigações da Polícia Federal, fundos vinculados à Reag teriam movimentado valores superiores a R$ 1,2 bilhão em títulos de crédito, levantando suspeitas sobre a origem e a finalidade dessas transações.
Neste cenário, a Ciabrasf, embora operasse como uma prestadora de serviços técnicos, acabou envolvida no turbilhão reputacional de sua antiga controladora. O “desmonte” da Reag, mencionado por analistas, tornou-se inevitável para preservar o valor dos ativos operacionais. O Grupo Planner, ao adquirir a companhia, atua como um consolidador que retira o ativo de uma zona de risco sistêmico e o realoca em uma estrutura considerada, até o momento, robusta e aderente às práticas de mercado.
A expertise do Grupo Planner em lidar com ativos complexos e situações de reestruturação foi determinante para o sucesso da negociação. O mercado de administração fiduciária exige altos níveis de confiança, uma vez que o administrador é o responsável legal perante os cotistas e os órgãos reguladores. Ao assumir a Ciabrasf, o Grupo Planner herda uma carteira relevante de fundos, mas também a responsabilidade de auditar cada passivo e contrato firmado durante a gestão anterior.
Integração vertical e sinergias operacionais no Grupo Planner
A estratégia do Grupo Planner com a incorporação da Ciabrasf vai além da simples proteção de ativos. O conglomerado financeiro busca criar um ciclo fechado de serviços. Com a Ciabrasf (administração), a Redwood (gestão) e a Planner Corretora (distribuição e custódia), o grupo consegue oferecer aos seus clientes institucionais e de varejo uma solução de “ponta a ponta”.
Essa verticalização é uma tendência crescente entre os grandes players da Faria Lima. Ao controlar todas as etapas da cadeia de valor de um fundo de investimento, o Grupo Planner reduz custos operacionais, melhora o controle de compliance e aumenta a rentabilidade global da holding B100. Além disso, a Ciabrasf traz consigo uma tecnologia de processamento e controle de ativos que complementa as operações da Planner SCD (Sociedade de Crédito Direto) e da Accredito, focadas em crédito e bancarização digital.
A capacidade de o Grupo Planner absorver uma operação deste porte demonstra a resiliência do capital nacional em momentos de crise setorial. Enquanto algumas gestoras enfrentam dificuldades de liquidez e saques em massa devido a questões reputacionais, o Grupo Planner utiliza sua musculatura financeira para consolidar o mercado, adquirindo infraestruturas críticas a preços que refletem o risco do momento, mas que prometem retornos consistentes no longo prazo.
O futuro da administração fiduciária sob novos padrões de governança
A conclusão da compra da Ciabrasf pelo Grupo Planner envia um sinal claro ao mercado de capitais brasileiro: a infraestrutura de serviços financeiros é resiliente, mas a governança é inegociável. A CVM tem endurecido as regras para administradores e gestores, exigindo maior transparência na marcação a mercado de títulos e na identificação de beneficiários finais.
Para a Ciabrasf, o novo capítulo sob o guarda-chuva do Grupo Planner significa uma oportunidade de recomeço. A empresa, que anteriormente carregava a marca Reag Capital, deve passar por um processo de rebranding para se alinhar à identidade visual e aos valores da holding B100. A expectativa é que, após a AGE de fevereiro, a companhia apresente um novo plano de negócios focado na expansão de serviços para fundos estruturados, como FIDC (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) e FIP (Fundos de Investimento em Participações), segmentos onde a segurança jurídica é o principal ativo.
Especialistas apontam que a movimentação do Grupo Planner pode incentivar outras fusões e aquisições no setor. Com a Selic mantida em patamares elevados para conter a inflação, o custo de conformidade para empresas de médio porte torna-se proibitivo, empurrando ativos para os grandes grupos financeiros que possuem escala. O Grupo Planner, ao se antecipar a esse movimento, posiciona-se como um dos líderes da “nova Faria Lima”, onde a eficiência operacional deve caminhar lado a lado com a vigilância regulatória constante.
Desdobramentos regulatórios e a vigilância da CVM sobre o controle acionário
O encerramento deste ciclo de aquisição não encerra as obrigações do Grupo Planner perante as autoridades. A CVM deverá acompanhar de perto o lançamento do edital da OPA para garantir que o preço ofertado aos acionistas minoritários reflita o valor justo da companhia, descontando ou incorporando os efeitos das investigações da Operação Carbono Oculto. A transparência neste processo será fundamental para que o Grupo Planner consolide sua imagem de porto seguro para os investidores.
Além disso, a estrutura de controle via B100 será submetida a testes de estresse reputacional. O mercado aguarda os próximos relatórios de auditoria independente da Ciabrasf, agora sob a batuta de Carlos Arnaldo Borges de Souza, para entender a real extensão dos danos deixados pela gestão anterior e as provisões necessárias para eventuais contingências jurídicas. O sucesso do Grupo Planner nesta empreitada servirá como case de recuperação de ativos fiduciários em tempos de crise institucional.
O desfecho da assembleia de 6 de fevereiro será o termômetro final para a aceitação da nova gestão. Caso os nomes propostos pelo Grupo Planner sejam aprovados sem resistência significativa, a Ciabrasf iniciará seu ano fiscal de 2026 com uma estrutura de capital saneada e um plano estratégico focado em recuperar o market share perdido durante os meses de incerteza policial e jurídica.









