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Risco Fiscal e Indefinição de Juros nos EUA Impactam Mercado Brasileiro

por Gabriel Monteiro
20/06/2024 às 08h00
em Economia
Risco Fiscal E Indefinição De Juros Nos Eua Impactam Mercado Brasileiro - Gazeta Mercantil - Economia

As incertezas sobre o início de corte de juros nos Estados Unidos e o risco fiscal no Brasil azedaram o humor dos investidores. Com a deterioração do ambiente econômico, as corretoras avaliam como preço justo para o IBOV os 145 mil pontos. Atualmente, o índice permanece nos 121 mil pontos. A situação obrigou as corretoras e bancos a revisarem as suas projeções para o dólar no fim de 2024.

Decisão do Copom e Impacto no Mercado

O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu nesta quarta-feira (19) manter a taxa Selic a 10,5% ao ano. A decisão já era esperada pelo mercado devido ao desequilíbrio das contas públicas, que elevou o risco fiscal no Brasil. A indefinição sobre a trajetória dos juros nos Estados Unidos, com o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) ainda resistente para dar início ao ciclo de quedas, também minou o ambiente doméstico. Dado o novo cenário econômico, as corretoras foram obrigadas a ajustar suas estimativas do Ibovespa e do dólar para o fim de 2024.

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Revisões Fiscais e Pressão do Mercado

A maioria das mudanças iniciou em abril após a revisão das metas fiscais para os anos de 2025 e 2026. Na época, a equipe econômica comunicou que a meta para as contas públicas para o próximo ano sairia de um superávit de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) para 0% no próximo ano. Já para 2026, o superávit de 1% do PIB foi reduzido para 0,25%. As alterações aconteceram a menos de um ano do novo arcabouço fiscal entrar em vigor. Desde a mudança, o mercado pressiona o governo por um maior comprometimento com as contas públicas.

A tensão entre o governo e o poder executivo ganhou novos capítulos até a reunião desta quarta-feira (19). No dia 12, o presidente Luís Inácio Lula da Silva falou que está “colocando as contas públicas em ordem para assegurar o equilíbrio fiscal”, mas que “não consegue discutir economia sem colocar a questão social na ordem do dia” em um evento para investidores. A declaração não agradou o mercado, que avaliou a postura do chefe do Planalto mais propenso a expandir os gastos públicos. A reação pressionou o dólar, que encerrou cotado a R$ 5,40, após uma alta de 0,83% naquele dia.

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Reação do Mercado e Respostas do Governo

A cotação da moeda norte-americana só recuou quando o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, falou sobre a possibilidade de o governo reduzir gastos, mas ainda permaneceu acima dos R$ 5,40. Já na véspera da reunião do Copom, nesta terça-feira (18), o presidente Lula voltou a criticar a postura do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em relação à condução da política monetária no país. Em entrevista à rádio CBN, o chefe do Planalto afirmou que Roberto Campos Neto tem lado político e trabalha para prejudicar o Brasil.

A saída dos investidores estrangeiros da bolsa de valores do Brasil em direção a outros mercados emergentes, como a Índia e México, e para os ativos de renda fixa dos Estados Unidos, também pressionou o câmbio e o desempenho do Ibovespa ao longo do primeiro semestre. Segundo os dados mais recentes da B3, mais de R$ 41,7 bilhões foram resgatados pelos investidores estrangeiros no acumulado de 2024.

Projeções para o Dólar

Dado o novo cenário, as chances de a moeda norte-americana encerrar o ano abaixo de R$ 5 ficaram ainda mais distantes. Agora, a maioria das corretoras e bancos estima um câmbio entre R$ 5 e R$ 5,30. As mudanças influenciaram na projeção do boletim Focus – pesquisa do Banco Central com os principais players do mercado – para o câmbio de 2024. A estimativa atual é de R$ 5,13, mas já foi de R$ 4,92 em janeiro e de R$ 5 no fim de abril.

“O risco fiscal está sendo mais precificado pelo mercado e consideramos que a dívida líquida do Brasil está bastante elevada. A perspectiva é de que ela continue subindo. Por isso, vemos que a depreciação do real veio para ficar”, afirma Cláudia Moreno, economista do C6 Bank.

Atualmente, o dólar segue cotado a R$ 5,40 em relação ao real. Nesta quarta-feira (19), por exemplo, a moeda americana teve leve alta de 0,14% e encerrou o dia a R$ 5,44. Ou seja, com base nas novas estimativas, a tendência é de que o câmbio recue nos próximos meses, mas não ao passo de sofrer uma forte desvalorização.

Esse movimento deve acontecer porque ainda há esperança de o Fed dar início ao ciclo de queda de juros em 2024. As expectativas dos investidores apontam para que essa decisão ocorra entre os próximos meses de novembro e dezembro. Caso essa projeção se concretize, a tendência é de que haja um enfraquecimento da moeda até o fim de 2024. “A política monetária nos Estados Unidos tem sido até aqui o grande responsável pela forte desvalorização da moeda local frente ao dólar em função do enxugamento significativo da liquidez mundial que tem gerado”, diz Matheus Pizzani, economista da CM Capital.

Projeções para o Ibovespa

Os patamares de 160 mil a 170 mil pontos apontados no início do ano não fazem mais sentido para o atual cenário marcado por indefinições. Agora, o preço ideal para o Ibovespa está entre a faixa dos 135 mil e 150 mil pontos, conforme as novas projeções das corretoras. “Reduzimos o valor justo do Ibovespa devido às taxas de juros mais altas, mas continuamos vendo as ações brasileiras como atrativas”, informou a XP ao comunicar a revisão no dia 3 de junho.

Além do cenário macroeconômico desafiador, os ruídos relacionados à interferência política na gestão de algumas companhias também motivaram a mudança no patamar alvo do índice. O mercado foi surpreendido, por exemplo, com a decisão da Petrobras (PETR3; PETR4) em não distribuir os dividendos extraordinários da companhia durante o mês de março.

Os ruídos políticos envolvendo o papel da estatal não se resumiram a esse episódio. Em maio, uma nova surpresa: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva demitiu Jean Paul Prates do comando da Petrobras. A saída já era ventilada desde o fim do ano passado e a causa da troca se deve à cobrança por maior velocidade na execução dos projetos anunciados pela empresa, segundo apurou o Broadcast.

Os eventos ajudaram o Ibovespa a acumular uma queda superior a 10% em 2024. Já em junho, as perdas chegam a 1,5%. “Quando olhamos para o novo ambiente, vemos que os indicadores são piores tanto na inflação no exterior quanto no ambiente doméstico. A volatilidade da Bolsa brasileira também aumentou”, afirma João Piccioni, CIO da Empiricus Gestão.

Diante de um cenário de incertezas, tanto internas quanto externas, o mercado financeiro brasileiro vive um momento de cautela e ajustes. As decisões de política econômica nos Estados Unidos e a condução das contas públicas no Brasil serão determinantes para o comportamento do dólar e do Ibovespa nos próximos meses. Investidores devem acompanhar de perto as sinalizações do Federal Reserve e as ações do governo brasileiro para navegar com mais segurança nesse ambiente volátil.

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