IPCA-15 acima do previsto pressiona juros futuros e adia corte da Selic
O mercado financeiro reagiu com cautela aos dados do IPCA-15 divulgados nesta terça-feira (26), que mostraram uma trajetória mais resistente da inflação brasileira, especialmente no setor de serviços. O indicador veio acima das projeções, frustrando apostas de um corte antecipado na taxa Selic e elevando os juros futuros (DIs).
Além do cenário doméstico, as incertezas internacionais também pesaram, após a saída polêmica de Lisa Cook do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos. O ambiente de maior risco levou os investidores a revisarem suas expectativas, pressionando os rendimentos dos Treasuries e impactando diretamente a curva de juros no Brasil.
O que é o IPCA-15 e por que ele importa?
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – 15 (IPCA-15) é considerado uma prévia da inflação oficial do país. Calculado pelo IBGE, mede a variação dos preços entre o meio de um mês e o meio do mês seguinte, oferecendo uma antecipação importante para o mercado e para o Comitê de Política Monetária (Copom).
Por refletir tendências de preços em tempo real, o IPCA-15 influencia diretamente as expectativas para a Selic. Quando o índice aponta para inflação acima do previsto, o Banco Central tende a manter os juros elevados por mais tempo, a fim de conter pressões inflacionárias.
Resultados do IPCA-15 de agosto
A prévia da inflação de agosto registrou recuo de 0,14%, abaixo do mês anterior, mas ainda acima da mediana projetada pelo mercado (-0,21%). O que mais chamou atenção foi a aceleração dos núcleos e dos serviços, segmentos que têm maior impacto na formação da inflação futura.
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Inflação de serviços acumulada em 12 meses: 5,96%, maior nível em 20 meses.
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Inflação de serviços em julho: 5,74%.
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Meta de inflação perseguida pelo Banco Central: 3%.
Esse comportamento reforça a necessidade de uma política monetária mais rígida, já que os serviços estão diretamente ligados ao mercado de trabalho aquecido e à demanda interna.
Impacto nos juros futuros (DIs)
Os contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) subiram após a divulgação do IPCA-15. Confira o fechamento:
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DI jan/2027: de 13,916% para 13,975%.
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DI jan/2028: de 13,236% para 13,305%.
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DI jan/2029: de 13,202% para 13,245%.
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DI jan/2031: de 13,561% para 13,585%.
Esse movimento mostra que o mercado reduziu as apostas em cortes antecipados da Selic, precificando juros altos por mais tempo.
Influência internacional: o fator Fed
No cenário externo, os rendimentos dos Treasuries de 30 anos subiram para 4,922%. A alta foi impulsionada pela instabilidade institucional no Fed, após o presidente norte-americano Donald Trump anunciar a demissão da diretora Lisa Cook.
O episódio gerou incertezas sobre a independência do banco central dos EUA, trazendo mais volatilidade aos mercados globais e pressionando ativos emergentes, como o Brasil.
Visão dos economistas
One Investimentos
Segundo Vitor Oliveira, a surpresa do IPCA-15 interrompeu a correção das expectativas de inflação que havia animado o mercado na semana anterior. A leitura reforça que a inflação de serviços segue resistente.
Barclays
O economista-chefe Roberto Secemski prevê que os serviços devem encerrar o ano perto de 6% em 12 meses, o dobro da meta do Banco Central. Ele ainda projeta inflação de 4,9% em 2025 e 4,2% em 2026, mesmo com valorização do real ajudando a conter bens industriais e alimentos.
Monte Bravo
Para Luciano Costa, a manutenção da Selic até o fim de 2025 é a estratégia mais prudente. No cenário da corretora, o primeiro corte só deve acontecer em janeiro de 2026.
O que esperar da Selic?
A decisão sobre os juros no Brasil deve permanecer cautelosa. Apesar de sinais de desaceleração em alguns preços, os núcleos de inflação e o setor de serviços exigem atenção.
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Corte antecipado da Selic em 2025 perdeu força.
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Primeiros cortes só em 2026, segundo parte do mercado.
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Copom deve manter política monetária restritiva até ver consistência nos dados.
O IPCA-15 de agosto mostrou que a inflação brasileira continua resistente, principalmente no setor de serviços. O resultado adia a expectativa de corte da Selic e pressiona os juros futuros, ao mesmo tempo em que incertezas externas ampliam a cautela.
Para investidores e analistas, o cenário segue desafiador, com juros altos prolongados e inflação ainda distante da meta do Banco Central.






