Justiça de Roma decide o futuro de Carla Zambelli
Após quatro adiamentos, o julgamento que vai definir a extradição de Carla Zambelli chega à rodada final nesta terça‑feira, 10, em Roma. A ex‑deputada federal pelo PL‑SP, presa na capital italiana desde julho do ano passado, terá seu destino selado pela Corte de Apelação de Roma, que analisará se autoriza ou não o envio da parlamentar ao Brasil para cumprir penas já impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A decisão é considerada estratégica tanto para o Governo brasileiro quanto para a liderança política da extrema‑direita no País, já que Zambelli figura como um dos nomes mais polêmicos do bolsonarismo contemporâneo.
A extradição de Carla Zambelli marca o clímax de um roteiro jurídico internacional que começou nos sistemas informatizados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e terminou, de forma quase cinematográfica, nas ruas de Roma. Empresária com base nas relações entre Brasil e Itália, a ex‑parlamentar é cidadã italiana e, por isso, está sujeita à tramitação de um procedimento de concessão de extradição entre dois Estados‑parte de tratados bilaterais. Se a Justiça italiana der sinal verde, Zambelli enfrentará o sistema prisional brasileiro e terá que cumprir multas, penas e perda de mandato determinadas pelo STF.
Do STF à Corte de Roma
No Brasil, Carla Zambelli foi condenada duas vezes pelo STF em ações de alta repercussão pública. Na primeira delas, recebeu pena de dez anos de prisão por invasão de sistemas informatizados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e pelo cometimento de falsidade ideológica, em conluio com o hacker Walter Delgatti Neto. Segundo a denúncia sustentada pela Procuradoria‑Geral da República (PGR), a deputada teria arregimentado Delgatti para inserir documentos falsos em sistemas eletrônicos do Poder Judiciário, incluindo alvarás, decisões e até um falso mandado de prisão dirigido ao próprio ministro Alexandre de Moraes, relator do processo.
Esse crime, julgado por unanimidade pela Primeira Turma, decorre de um ataque hackers que ocorreu entre agosto de 2022 e janeiro de 2023, período em que foram adulteradas informações sensíveis que transitavam entre tribunais brasileiros. Além da prisão, as penas incluem indenização civil de 2 milhões de reais a ser paga em conjunto com Delgatti. Com o trânsito em julgado da sentença e o entendimento de que haveria risco de fuga, Zambelli deixou o Brasil antes de cumprir a ordem de prisão e seguiu, legalmente com passaporte, para a Itália, onde já detinha cidadania. A extradição de Carla Zambelli tornou‑se, então, a solução buscada pelo Executivo federal para evitar que prerrogativas nacionais fossem burladas por uma via externa de escape.
Logo após sua saída do País, o Governo brasileiro acionou as instâncias diplomáticas e judiciais competentes e pediu às autoridades italianas o bloqueio da parlamentar. A Justiça italiana atendeu e determinou a prisão cautelar de Zambelli, com base na constatação de “grave risco de fuga”, mantendo‑a sob custódia enquanto tramitava o pedido formal de extradição de Carla Zambelli. O Ministério Público da Itália, por sua vez, emitiu parecer favorável ao envio da deputada ao Brasil, fortalecendo a tese de que o País europeu não poderia ser usado como esconderijo de criminosos condenados em outro Estado‑signatário de tratados bilaterais.
Porte de arma e violência na eleição de 2022
Além do dossiê de invasão ao CNJ, Zambelli viu sua ficha ampliada no âmbito penal com uma segunda condenação pelo STF. Desta vez, o trecho judicial trata de um episódio ocorrido durante as eleições de 2022 e envolve armas, constrangimento e câmeras ubiquamente registrando o caos em praça pública. A Segunda Turma fixou pena de cinco anos e três meses de prisão, em regime inicial semiaberto, pelos crimes de porte ilegal de arma de fogo de uso restrito e constrangimento ilegal, com perda do mandato após o trânsito em julgado.
Nas imagens divulgadas tanto nas redes sociais quanto por investigadores da Polícia Civil, Zambelli aparece empunhando uma pistola e perseguindo um homem negro, enquanto outras pessoas o agredem fisicamente. Quadros que circularam em redes por meses mostram a ex‑deputada em situação de ameaça, com arma em punho e discursos confrontantes, enquanto o grupo à sua volta chega a disparar um tiro no ambiente eleitoral. A versão da parlamentar à época afirmava ter sido agredida e de que a arma teria sido usada em situação de defesa própria, mas os ministros entenderam que a conduta extrapolou qualquer limiar de legítima defesa, configurando efetivo dano à ordem democrática e risco social.
Esse contexto torna ainda mais delicada a análise da extradição de Carla Zambelli na Itália, porque faz convergir problemas de direitos processuais, segurança pública e desvio de uso de eleições para finalidades midiáticas extremistas. Para o Judiciário italiano, ponderar a entrega de uma cidadã italiana, embora processada por atos cometidos em território brasileiro, implica avaliar também cláusulas constitucionais e tratados de direitos humanos que disciplinam o estrito teto das penas, o caráter proporcionais e a observância integral das garantias de defesa.
Adiamentos e pressão política em Roma
Após marcar o julgamento de forma sucessiva, a Corte de Apelação de Roma viu o rito deslizar repetidas vezes – quatro adiamentos registrados publicamente desde o segundo semestre de 2025 até o início de 2026. Cada nova data reacendia uma discussão política contemporânea em torno da extradição de Carla Zambelli, alimentando leituras de que interesses de partidos internacionais começavam a influenciar o desfecho técnico da audiência.
A defesa de Zambelli em território europeu afirma nutrir “boa expectativa” em relação à apreciação do caso pelos juízes romanos. No centro do cenário diplomático está o advogado Fabio Pagnozzi, que atua como responsável pela representação da ex‑deputada na Itália, articulando junto a parlamentares e ao Ministério da Justiça italianos alternativas para barrar a extradição.
Um dos protagonistas dessa frente parlamentar italo‑brasileira é o senador Matteo Gelmetti, filiado ao mesmo partido da primeira‑ministra Giorgia Meloni. Segundo Pagnozzi, Gelmetti atua diretamente junto ao Ministério da Justiça italiano para defender que a extradição de Carla Zambelli não seja autorizada, sob argumentos que misturam crítica institucional ao STF e invocações de suposta violação a garantias processuais brasileiras.
Em pronunciamentos públicos, Gelmetti teria caracterizado Alexandre de Moraes como “relator, vítima e acusador” dum processo que levou às condenações de Zambelli, em frase que remete a uma disputa ideológica mais ampla sobre independência judicial e atuação repressiva no Brasil. Essa narrativa é alvo de rejeição pelos opositores políticos da extrema‑direita, que veem no tom usado pelo senador um attempt de deslegitimar decisões soberanas do STF.
Endereço divulgado e intervalo de seguranças
A tramitação italiana sobre a extradição de Carla Zambelli ganhou ainda novo contorno após declarações do deputado italiano Angelo Bonelli, do Partido Verde‑Itália, também presidente da coligação Aliança Verde‑Esquerda, oposição ao governo Meloni. Em julho do ano passado, Bonelli publicou em suas redes sociais que havia localizado Zambelli em um apartamento em Roma e informado o endereço às autoridades policiais. Na mensagem divulgada no X, ele escreveu que “Carla Zambelli está em um apartamento, em Roma. Forneci o endereço à polícia; neste momento, a polícia está identificando Zambelli”.
A defesa de Zambelli, por meio de Pagnozzi, reforçou que Gelmetti solicitou esclarecimentos sobre como Bonelli obteve o endereço da ex‑parlamentar na capital italiana. O senador italiano questionou de que forma um parlamentar de oposição teria acesso a dados de investigação de polícia local, sugerindo possível violação de sigilo e até desvio de finalidades de inteligência policial. Para a defesa, essa via de argumentação “muda muito” o cenário jurídico, porque abriria a possibilidade de contestar tanto a legitimidade do procedimento de prisão quanto o teor da cooperação internacional prestada pelo País europeu.
Segundo apurações de veículos como Estadão divulgadas ao longo de 2025 e início de 2026, a localização efetiva de Zambelli em Roma ocorreu em operação conjunta. Um adido da Polícia Federal cedido à embaixada brasileira em Roma teria trabalhado em conjunto com autoridades italianas, o que estreita o papel do Estado brasileiro na obtenção de dados fora de suas fronteiras. A prisão efetiva coincidiu com o dia em que Bonelli fez a divulgação nas redes, gerando uma sobreposição narrativa entre uso político da informação e uso técnico‑policial do mesmo canal.
Por cima desse estrato factual, cresce o debate sobre o equilíbrio entre transparência política em democracias europeias e o protocolo de investigação criminal internacional. O caso alimenta uma linha de discussão que vai além da extradição de Carla Zambelli: ele toca em limites entre atuação de parlamentares civis, canais oficiais de cooperação judicial e o papel das redes sociais como território de fuga ou captura.
Roma e Brasília: o peso de uma decisão
Independentemente do veredicto de Roma, a tramitação da extradição de Carla Zambelli evidencia um terreno jurídico e político ainda em construção entre Brasil e Itália. Qualquer resolução que saia da Corte de Apelação será, inevitavelmente, lida tanto no âmbito interno brasileiro quanto em palcos diplomáticos europeus, servindo de molde para futuras disputas similares sobre aceitação de condenações em sistemas repressivos diferenciados, mas integrados por tratados.
Para o público brasileiro, a questão central segue sendo a: até que ponto a Justiça italiana reconhecerá como legítimos os processos conduzidos pelo STF e pelos tribunais subordinados, sobretudo quando envolvem figuras políticas de alta polarização? Nesse jogo de expectativas, a decisão em torno da extradição de Carla Zambelli marca mais do que a sorte pessoal de uma ex‑deputada; ele parece testar a resistência institucional de democracias com crises midiatizadas e agendas digitais radicalizadas.









