Lula apresenta plano para a reeleição e convoca aliados para ampliar frente política em 2026
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu, neste domingo, um passo decisivo rumo à reeleição de Lula ao usar o encerramento das comemorações dos 46 anos do Partido dos Trabalhadores (PT), em Salvador, como palco para o lançamento simbólico de sua pré-campanha presidencial. Diante de dirigentes, parlamentares, militantes históricos e aliados políticos, Lula adotou um discurso duro contra o sistema eleitoral brasileiro, defendeu o legado econômico de seu governo e deixou claro que pretende liderar pessoalmente a articulação política para a disputa de 2026.
O evento, realizado no Trapiche Barnabé, foi desenhado para ir além da celebração partidária. Funcionou como um ato de mobilização estratégica, no qual o presidente buscou alinhar discurso, narrativa e prioridades programáticas do PT e de sua base aliada. Ao longo da fala, Lula reiterou críticas ao alto custo das campanhas, ao que chamou de “mercantilização da política” e à atuação de forças que, segundo ele, distorcem o funcionamento democrático em benefício de interesses econômicos concentrados.
Desde o início, a mensagem foi clara: a reeleição de Lula será construída como uma disputa política ampla, ideológica e estrutural, apresentada pelo presidente como uma “guerra política” contra a desinformação, o fascismo e a captura do Estado por elites econômicas.
Crítica ao sistema eleitoral e ao custo da política
Em tom incisivo, Lula afirmou que a política brasileira passou por um processo de degradação ao longo das últimas décadas. Segundo ele, o sistema eleitoral tornou-se excessivamente caro e dependente de estruturas profissionais que transformaram candidaturas em produtos de mercado.
O presidente comparou o cenário atual com os primeiros anos do PT, quando, segundo ele, campanhas eram financiadas com contribuições voluntárias, venda de camisetas e engajamento direto da militância. Hoje, afirmou, há uma lógica de mercado que estabelece preços para cabos eleitorais, vereadores e candidaturas, o que, em sua avaliação, afasta a política de sua função pública essencial.
Ao trazer esse tema para o centro do discurso, Lula sinalizou que a reeleição de Lula será sustentada por uma narrativa de resgate da política como instrumento de transformação social, contrapondo-se a modelos que, segundo o Planalto, priorizam interesses financeiros e eleitorais de curto prazo.
Mobilização da militância e ampliação da base aliada
Outro eixo central do discurso foi a convocação explícita de aliados para a construção de uma frente política ampla em 2026. Lula citou nominalmente partidos como PSD, PCdoB, PDT e PSB, deixando aberta a possibilidade de novas alianças com outras siglas que aceitem integrar o projeto governista.
A estratégia indica que a reeleição de Lula será conduzida a partir de uma lógica de governabilidade ampliada, com foco na formação de maioria política e institucional capaz de sustentar o próximo mandato. A leitura interna do PT é de que o cenário de polarização exige não apenas mobilização ideológica, mas também musculatura parlamentar e alianças regionais sólidas.
O presidente reforçou que o PT mantém uma identidade crítica ao “sistema”, mas fez questão de diferenciar essa postura de ataques às instituições democráticas. Segundo ele, o enfrentamento se dá contra grupos que se apropriam do Estado para impedir a ascensão social dos mais pobres, e não contra a democracia representativa.
Agenda programática e bandeiras sociais
A reeleição de Lula também foi apresentada como um plebiscito sobre políticas públicas implementadas desde o início do atual mandato. Entre as principais bandeiras destacadas estão o fim da escala de trabalho 6×1, a regulação do trabalho por aplicativos e a defesa de direitos trabalhistas em um contexto de transformação do mercado de trabalho.
O presidente defendeu que o debate sobre novas formas de emprego precisa ser acompanhado de proteção social, evitando a precarização e a perda de direitos históricos. Essa agenda dialoga diretamente com segmentos urbanos, jovens trabalhadores e eleitores impactados pela economia digital.
Além disso, o discurso reforçou compromissos com políticas de mobilidade urbana, ampliação do acesso à educação infantil e combate à violência contra as mulheres, temas que também constam na nova resolução política aprovada pelo diretório nacional do PT.
Narrativa econômica como pilar da campanha
Um dos pontos mais explorados no evento foi a apresentação de indicadores econômicos usados pelo governo para sustentar a narrativa de retomada do crescimento e inclusão social. Lula destacou a política de valorização do salário mínimo, que elevou o piso nacional para R$ 1.620, valor que, segundo ele, seria significativamente menor sem a correção atrelada ao PIB.
O presidente também ressaltou o crescimento da população economicamente ativa, que alcançou quase 104 milhões de pessoas, e o desempenho do mercado financeiro, com a bolsa de valores atingindo a marca histórica de 185 mil pontos. Para o Planalto, esses números reforçam a credibilidade do projeto de reeleição de Lula junto a investidores, trabalhadores e setores produtivos.
No comércio exterior, o governo enfatizou o recorde de US$ 349 bilhões em exportações e a abertura de mais de 500 novos mercados internacionais, apresentando esses dados como evidência de reposicionamento estratégico do Brasil no cenário global.
Investimentos públicos e papel do Estado
A atuação do Estado como indutor do desenvolvimento foi outro eixo central da narrativa. Lula destacou os investimentos do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que somam mais de R$ 944 bilhões em três anos, além da atuação do BNDES, que contratou R$ 588 bilhões para centenas de milhares de projetos.
Segundo o presidente, a reeleição de Lula está diretamente ligada à continuidade desse modelo de desenvolvimento, que combina investimento público, crédito direcionado e políticas de transformação ecológica. O governo afirmou que a agenda ambiental mobilizou cerca de R$ 400 bilhões, consolidando o Brasil como ator relevante na economia verde.
Na área da saúde, Lula citou o programa “Agora Tem Especialista”, responsável pela realização de milhões de procedimentos eletivos, como exemplo de fortalecimento do SUS e ampliação do acesso a serviços de alta complexidade.
Resolução do PT reforça identidade e metas eleitorais
Paralelamente ao evento em Salvador, o diretório nacional do PT aprovou uma nova resolução política que define diretrizes estratégicas para o próximo ciclo eleitoral. O documento reafirma o partido como democrático, popular e socialista, estabelecendo metas claras para a disputa de 2026.
Entre os pontos centrais estão a defesa da justiça tributária, com foco na reforma do Imposto de Renda, ampliação da isenção para trabalhadores de menor renda e maior tributação sobre bancos, apostas e grandes fortunas. O texto também consolida o compromisso com direitos trabalhistas e políticas de proteção social.
Essa resolução funciona como base programática para a reeleição de Lula, alinhando discurso presidencial, estratégia partidária e propostas legislativas.
Política externa e críticas aos Estados Unidos
Lula também usou o evento para fazer duras críticas à política externa dos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump. O presidente defendeu a soberania nacional e condenou interferências em países como Venezuela e Cuba, argumentando que conflitos internos devem ser resolvidos por seus próprios povos.
No discurso, Lula afirmou que há uma movimentação internacional para isolar a China no mercado de minerais críticos, tema sensível para o Brasil, que possui reservas estratégicas. Segundo ele, a reeleição de Lula também passa pela defesa de uma política externa independente, baseada no multilateralismo e em parcerias estratégicas.
O presidente agradeceu publicamente a atuação diplomática chinesa e indicou que o Brasil não tomará decisões precipitadas sobre blocos comerciais que limitem sua autonomia estratégica.
Reeleição como disputa de modelos de país
Ao final do evento, ficou evidente que a reeleição de Lula será apresentada como uma escolha entre modelos de país. De um lado, o governo aposta em uma narrativa de crescimento com inclusão social, protagonismo internacional e fortalecimento do Estado. De outro, Lula posiciona seus adversários como representantes de um projeto excludente, baseado na mercantilização da política e na concentração de poder econômico.
O discurso em Salvador não apenas marcou o início simbólico da campanha, mas também estabeleceu os principais eixos narrativos que devem orientar o debate eleitoral até 2026, com impacto direto sobre o cenário político, econômico e institucional do país.









