Mauro Cid: Defesa nega contradições e acusa PGR de traição em delação premiada
A defesa do tenente-coronel Mauro Cid, figura central nas investigações sobre a tentativa de golpe de Estado, apresentou suas alegações finais ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesta terça-feira (29). Os advogados solicitam o perdão judicial para o militar, afirmando que ele foi o responsável por trazer à tona informações cruciais sobre a suposta trama golpista e que cumpriu fielmente o acordo de colaboração premiada firmado com a Justiça.
Mais do que isso, a defesa acusa a Procuradoria-Geral da República (PGR) de ter traído a confiança de Mauro Cid, alegando que houve uma interpretação deturpada dos depoimentos prestados e que a acusação extrapolou os limites do que foi relatado. Em uma disputa jurídica que ganha contornos políticos e institucionais, a discussão sobre a validade, eficácia e consequências do acordo de colaboração entra em uma nova e decisiva etapa.
O que diz a defesa de Mauro Cid
Os advogados de Mauro Cid argumentam que o militar não cometeu crimes, tampouco teve intenção golpista. Eles afirmam que a colaboração com a Polícia Federal foi espontânea e que não houve omissões relevantes, apenas complementações de informações à medida que as investigações avançaram. Para a defesa, isso não constitui mudança de versão, mas sim aprofundamento de elementos apresentados em um contexto complexo.
A solicitação ao STF inclui a manutenção integral do acordo de colaboração, especialmente a proposta de perdão judicial. Em caso de condenação, os defensores pedem que Cid receba a pena mínima, inferior a dois anos de prisão, de modo a evitar sua exclusão das Forças Armadas e eventual retorno à prisão.
Acusações enfrentadas por Mauro Cid
Mauro Cid integra o núcleo principal da investigação sobre a tentativa de golpe contra o Estado democrático de Direito. A denúncia da PGR aponta uma série de crimes graves, incluindo:
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Organização criminosa armada;
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Tentativa de golpe de Estado;
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Tentativa de abolição do Estado democrático de Direito;
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Dano ao patrimônio público;
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Deterioração do patrimônio tombado.
O processo é uma das maiores ações judiciais em curso no STF atualmente, com implicações diretas para dezenas de réus, incluindo ex-assessores e militares que ocupavam posições de destaque na estrutura do governo anterior.
O papel de Mauro Cid na delação
Mauro Cid tem sido peça-chave no processo. Seus depoimentos foram usados para reforçar a tese de que havia um plano articulado para subverter a ordem democrática. Contudo, a PGR, sob comando do procurador-geral Paulo Gonet, alegou que houve contradições e omissões nos relatos do militar.
A delação de Cid foi inicialmente celebrada como uma virada nas investigações. Contudo, a defesa aponta que, após colaborar com os investigadores, o tenente-coronel foi surpreendido pela decisão da PGR de pedir sua condenação, ainda que com proposta de redução de pena.
PGR propõe redução mínima da pena
A manifestação da Procuradoria-Geral da República propôs apenas um terço de redução da pena, justificando que Mauro Cid teria apresentado resistência em alguns pontos e omitido fatos relevantes. A posição representa uma mudança de postura do Ministério Público em relação ao acordo de colaboração que, segundo os advogados, foi firmado dentro dos critérios legais e devidamente homologado.
O procurador-geral Paulo Gonet defende que, embora a colaboração tenha produzido resultados, as incoerências nos depoimentos enfraquecem a confiança no acordo. Segundo ele, a redução da pena deve ser simbólica, e não o perdão judicial total como pleiteia a defesa.
Acusações de traição e disputa jurídica
A defesa de Mauro Cid acusa a PGR de agir com má-fé e de usar seletivamente trechos da colaboração para formular uma acusação que, na visão dos advogados, é infundada. Para eles, a atuação da PGR viola os princípios da boa-fé e da previsibilidade, fundamentos essenciais nos acordos de colaboração premiada.
A peça jurídica enviada ao STF afirma que houve um “fuzilamento jurídico” contra o colaborador, em um claro rompimento do acordo estabelecido. Os defensores destacam que a PF reconheceu a validade das informações repassadas e que não haveria justificativa legal ou ética para desconsiderar os benefícios pactuados.
Postura da defesa: colaboração espontânea e riscos assumidos
Os advogados também ressaltam a coragem de Mauro Cid ao romper com antigos aliados e colaborar com as investigações. Eles sustentam que o militar sabia dos riscos que enfrentaria ao delatar fatos sensíveis, mas ainda assim optou pela colaboração, em nome da verdade e da legalidade.
Segundo a defesa, as supostas omissões apontadas pela PGR decorrem da complexidade do caso e da necessidade de acesso posterior a documentos e cruzamentos feitos pela Polícia Federal. Não haveria, portanto, má-fé ou intenção de enganar os investigadores, mas apenas limitações circunstanciais.
Reação no meio jurídico e político
A controvérsia sobre a validade da colaboração de Mauro Cid e a possível revisão dos benefícios acordados repercute fortemente nos bastidores jurídicos e políticos de Brasília. A possibilidade de o STF desconsiderar ou revisar os termos do acordo pode gerar insegurança jurídica e desestimular futuras delações em investigações de grande porte.
Especialistas em Direito Penal apontam que decisões como essa precisam ser equilibradas, pois afetam não apenas o réu em questão, mas todo o sistema de justiça criminal. O respeito aos acordos de colaboração é visto como essencial para manter a eficácia das investigações em casos complexos e de difícil apuração.
Reta final do processo e próximos passos
Com a entrega das alegações finais pela defesa de Mauro Cid, abre-se o prazo para que os demais réus do processo apresentem suas manifestações ao STF. O prazo final é 13 de agosto. Após isso, caberá ao ministro Alexandre de Moraes definir a data do julgamento do caso na Primeira Turma do Supremo.
A expectativa é que o julgamento ocorra entre o final de agosto e o início de setembro. Até lá, os holofotes continuarão voltados para os desdobramentos do processo e para o destino do tenente-coronel que, mesmo colaborando com a Justiça, agora se vê novamente no centro da polêmica.
Mauro Cid entre a colaboração e a punição
O caso de Mauro Cid revela as complexidades dos acordos de colaboração premiada no Brasil. A linha tênue entre punir e premiar quem coopera com as investigações é constantemente testada, especialmente quando os fatos envolvem figuras públicas e militares de alta patente.
A defesa insiste que Mauro Cid foi fundamental para revelar a tentativa de golpe e que, por isso, merece o perdão judicial. Já a PGR sustenta que a colaboração, embora importante, foi falha e contraditória em pontos essenciais, justificando apenas uma redução simbólica da pena.
Com a palavra, o Supremo Tribunal Federal.






