Minuta do golpe: tensão em depoimento expõe embate jurídico e pressão no STF
Durante o mais recente depoimento no Supremo Tribunal Federal (STF) relacionado à tentativa de golpe de Estado investigada pela Polícia Federal (PF), o foco se voltou para a minuta do golpe — documento central que teria sido elaborado por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. A audiência contou com a presença do general da reserva Marco Edson Gonçalves Dias, ex-ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), e expôs não só disputas jurídicas, mas também o ambiente de tensão que ronda as investigações sobre os ataques de 8 de janeiro.
A sessão foi marcada por sucessivas interrupções, repreensões do ministro Alexandre de Moraes ao advogado Jeffrey Chiquini — representante do réu Filipe Martins — e uma constante tentativa de desviar o foco do conteúdo investigado. A minuta do golpe, encontrada na residência de Anderson Torres, ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, segue sendo uma das principais evidências de um plano de ruptura institucional.
O que é a minuta do golpe?
A chamada minuta do golpe é um documento apreendido pela PF que detalharia um plano para reverter os resultados das eleições de 2022 e instaurar um estado de exceção no Brasil. Segundo as investigações, o texto foi elaborado por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro e previa, entre outras medidas, a prisão de ministros do STF, a decretação de estado de defesa e a anulação do pleito que elegeu Luiz Inácio Lula da Silva.
A minuta teria sido escrita com base em dispositivos constitucionais interpretados de forma distorcida, para justificar uma intervenção autoritária. O documento foi localizado na casa de Anderson Torres, e posteriormente atribuído ao núcleo próximo de Bolsonaro, incluindo Filipe Martins, ex-assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República.
Depoimento de Gonçalves Dias: general se isenta e nega conhecer Martins
Durante o depoimento, o general Gonçalves Dias alegou que não conhecia Filipe Martins. Ex-ministro do GSI durante o governo Bolsonaro, Gonçalves afirmou que o setor do gabinete que cuidava da segurança do Palácio do Planalto era composto por cerca de 900 pessoas. Apesar disso, recusou-se a entrar em detalhes sobre funções operacionais ou conhecimento de ações específicas atribuídas aos réus investigados na trama da minuta do golpe.
A insistência do advogado de defesa de Filipe Martins em questionar sobre a atuação das tropas do GSI levou Moraes a intervir por diversas vezes. O ministro deixou claro que o foco da audiência deveria ser a responsabilização dos envolvidos na tentativa de ruptura democrática, não aspectos administrativos ou operacionais secundários.
Moraes endurece tom: “Não são vândalos, são golpistas condenados”
Um dos momentos mais tensos ocorreu quando o advogado Jeffrey Chiquini usou o termo “vândalos” ao se referir aos participantes da invasão do Palácio do Planalto. Moraes foi categórico: “Não são vândalos, são golpistas condenados já, quando os golpistas chegaram.” A fala do ministro reforça a linha firme adotada pelo STF diante dos eventos de 8 de janeiro e suas consequências.
O embate verbal acirrou-se quando o advogado questionou a existência das imagens dos eventos: “Quais imagens? Aquelas que desapareceram ou aquelas disponíveis de forma seletiva?” Moraes retrucou imediatamente: “O senhor desapareceu com imagens, doutor? O senhor está acusando alguém?” O áudio da audiência foi cortado logo após esse momento.
A conexão entre Filipe Martins e a minuta do golpe
Filipe Martins é apontado pela PF como um dos autores intelectuais da minuta do golpe, sendo responsável, segundo a investigação, por editar o documento que embasaria juridicamente o plano golpista. A peça foi localizada na residência de Anderson Torres, mas os indícios apontam para a participação de diversos assessores e militares ligados ao antigo governo.
O nome de Martins aparece no núcleo 2 da investigação, que inclui figuras de bastidores com atuação estratégica na concepção da tentativa de golpe. A polícia trabalha com a hipótese de que a minuta do golpe seria colocada em prática caso as manifestações antidemocráticas tivessem tido êxito no dia 8 de janeiro de 2023.
Reações institucionais e cenário jurídico
O STF tem adotado uma postura firme frente aos envolvidos com a minuta do golpe e os ataques às sedes dos Três Poderes. Além da responsabilização criminal, os ministros têm reforçado que não haverá anistia para os crimes cometidos contra a democracia.
Enquanto isso, figuras do Congresso Nacional evitam comentar a possibilidade de anistia, como fizeram recentemente os presidentes da Câmara, Arthur Lira, e do Senado, Rodrigo Pacheco. O isolamento político de Bolsonaro e seus aliados se acentuou após a exposição da minuta do golpe, considerada uma prova material de que houve articulação consciente para subverter o Estado de Direito.
A importância da minuta do golpe para as investigações
O documento é visto pela PF como a peça-chave da trama. Ele representa a formalização do desejo de setores extremistas de romper com a ordem democrática. Seu conteúdo — mesmo que não tenha sido implementado — revela a existência de planejamento estratégico, jurídico e operacional para um golpe de Estado.
A minuta do golpe ganhou ainda mais relevância com a descoberta de que o texto passou por edições e refinamentos, o que reforça a tese de que não se tratava de um rascunho isolado, mas de um plano discutido entre membros de alto escalão do antigo governo.
As consequências jurídicas e políticas da minuta do golpe
As implicações da minuta do golpe vão muito além do papel. Ela está sendo usada pelo STF e pelo Ministério Público como base para fundamentar denúncias contra políticos, militares e assessores ligados a Bolsonaro.
Além disso, o documento se tornou um símbolo da tentativa de erosão das instituições brasileiras. A Justiça brasileira trata o caso como o mais grave atentado à democracia desde a redemocratização.
A minuta do golpe não é apenas uma prova material. É o ponto central de uma investigação que já resultou em prisões, condenações e uma mudança no discurso político de diversas figuras da direita brasileira. O depoimento de Gonçalves Dias e o embate protagonizado pelo ministro Moraes são reflexos da gravidade dos fatos e da vigilância do STF diante de ameaças institucionais.
A cada nova audiência, mais elementos se somam ao robusto conjunto probatório que visa responsabilizar todos os envolvidos na tentativa de ruptura democrática. A justiça segue avançando para garantir que o Brasil nunca mais reviva ameaças similares.






