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MP-SP analisa ligação entre Equatorial, Banco Master e privatização da Sabesp

Representação aponta suspeitas sobre estrutura financeira das privatizações da Sabesp e da EMAE; Equatorial nega irregularidades.

por Alice Nascimento
20/05/2026 às 11h10
em Empresas
Tarcísio De Freitas Comemora Privatização Da Sabesp

O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) analisa uma representação que aponta possíveis conexões entre o Banco Master, a Equatorial Energia (EQTL3) e as privatizações da Sabesp (SBSP3) e da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (EMAE), realizadas pelo governo paulista em 2024. O documento foi protocolado em 20 de março de 2026 pelo deputado estadual Antônio Donato (PT-SP), líder da oposição na Assembleia Legislativa de São Paulo, e está sob análise da Promotoria de Justiça do Patrimônio Público para verificar eventual relação com outro procedimento já atribuído à 5ª Promotoria de Patrimônio Público.

A representação levanta suspeitas sobre a estrutura financeira usada nas operações, o papel de personagens ligados ao Banco Master e a eventual existência de favorecimento na venda de ativos públicos. As alegações ainda estão em fase de análise pelo MP-SP. Não há, até o momento, conclusão formal sobre irregularidades, e os citados têm direito à defesa.

Leia também: Ilha da Paixão: compra envolve ex-executivo do Banco Master e estrutura com fundos chama atenção.

O caso envolve a privatização da Sabesp (SBSP3), concluída em julho de 2024, e a venda da EMAE, realizada em abril do mesmo ano. A Equatorial Energia (EQTL3) tornou-se investidora de referência da Sabesp ao adquirir 15% da companhia por cerca de R$ 6,9 bilhões, segundo comunicado divulgado pelo próprio grupo à época da conclusão da desestatização.

Representação aponta suspeitas sobre Sabesp e EMAE

A representação encaminhada ao MP-SP afirma que o escândalo envolvendo o Banco Master teria conexões com a estrutura financeira das privatizações da Sabesp (SBSP3) e da EMAE. Segundo o documento citado pelo Times Brasil, o Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, teria atuado na estruturação e no financiamento de grupos interessados na aquisição dos ativos públicos.

O texto sustenta que as operações teriam sido organizadas por meio de instrumentos financeiros e societários que, segundo a representação, poderiam dificultar a identificação da cadeia real de comando econômico. Essa é uma das linhas que o Ministério Público deverá avaliar antes de decidir se instaura inquérito civil ou determina novas diligências.

A apuração, neste momento, tem caráter preliminar. O fato de o MP-SP analisar a representação não significa reconhecimento de irregularidade. O procedimento serve para verificar se os elementos apresentados justificam investigação formal, arquivamento ou encaminhamento a outros órgãos de controle.

O documento pede a instauração de inquérito civil, a apuração de eventual improbidade administrativa, o compartilhamento de informações com o Ministério Público Federal e a Polícia Federal em caso de indícios de competência federal, além de eventual ação civil pública.

Equatorial nega irregularidades no processo

A Equatorial Energia (EQTL3) afirmou, em nota enviada ao Times Brasil, que o processo de desestatização da Sabesp (SBSP3) ocorreu em oferta pública estruturada e conduzida com apoio de assessores e instituições experientes, com ampla divulgação, legalidade e transparência.

A empresa foi a única interessada no bloco de controle vendido pelo governo paulista, conforme a representação. O grupo assumiu a posição de investidor de referência da Sabesp (SBSP3), com participação de 15% na companhia. A operação marcou a entrada da Equatorial (EQTL3), tradicionalmente associada ao setor elétrico, em uma das maiores companhias de saneamento do país.

O governo de São Paulo concluiu a desestatização da Sabesp em 23 de julho de 2024, em cerimônia na B3. Na ocasião, a Equatorial informou que o investimento foi de aproximadamente R$ 6,9 bilhões.

A representação questiona o preço e a dinâmica da operação. Segundo o documento, a Sabesp era avaliada em mais de R$ 56,2 bilhões à época, com ações negociadas a R$ 82,00, enquanto o bloco de 15% foi vendido a R$ 67,00 por papel.

Deságio na Sabesp está no centro das suspeitas

Um dos pontos centrais da representação é o suposto deságio na venda da fatia da Sabesp (SBSP3). O documento afirma que especialistas do Observatório Nacional das Águas, da Agência Reguladora dos Serviços Públicos do Estado e da Associação dos Profissionais Universitários da Sabesp estimaram desconto de 44% em relação ao preço de mercado.

A representação também menciona que a oferta pública de outros 17% das ações foi coordenada pelo BTG Pactual, ao mesmo preço de R$ 67,00 por ação. O documento aponta demanda superior a R$ 200 bilhões para uma oferta de R$ 7,9 bilhões e levanta suspeitas sobre eventual favorecimento na alocação dos papéis.

Essas alegações ainda precisam ser apuradas pelas autoridades competentes. Em operações de mercado de capitais, a existência de demanda elevada não significa, por si só, irregularidade na alocação. A análise depende de documentos, regras da oferta, critérios usados pelos coordenadores e eventuais comunicações internas.

A representação também cita que Karla Bertocco presidia o Conselho de Administração da Sabesp durante o processo de privatização e, ao mesmo tempo, ocupava cargo no Conselho da Equatorial (EQTL3), que foi a única empresa interessada no bloco de referência. Esse ponto deve ser avaliado sob a ótica de governança, conflito de interesses e transparência decisória.

Carlos Piani aparece como personagem central

A representação aponta Carlos Piani como figura relevante na sequência de eventos envolvendo Ambipar, Equatorial (EQTL3), Sabesp (SBSP3) e EMAE. Segundo o documento, Piani presidiu o Conselho de Administração da Ambipar entre março de 2023 e setembro de 2024, período que coincide com a valorização expressiva das ações da companhia citada no caso.

Entre junho e julho de 2024, Piani também teria acumulado a presidência do Conselho de Administração da Equatorial, período que coincide com o processo de venda do controle da Sabesp pelo governo estadual, segundo a representação. Em outubro de 2024, assumiu a presidência da Sabesp privatizada.

O documento também afirma que, sob sua gestão na Sabesp, a companhia adquiriu o controle da EMAE em outubro de 2025. Para os autores da representação, essa sequência encerraria um ciclo no qual um ativo público privatizado retornaria ao ambiente societário de um agente que teria participado de fases anteriores da estruturação financeira.

Essa interpretação é uma alegação da representação e dependerá de análise do MP-SP. A apuração deverá verificar se houve irregularidade, conflito de interesses, dano ao patrimônio público ou apenas uma sucessão de operações societárias dentro das regras aplicáveis.

Banco Master é citado como elo financeiro

O Banco Master aparece na representação como suposta peça central da estruturação financeira envolvendo as privatizações. Segundo o documento, a instituição teria atuado na organização e no financiamento de grupos empresariais interessados nos ativos públicos.

No caso da EMAE, a representação afirma que o pagamento da aquisição teria sido viabilizado pelo Banco Master, via Trustee DTVM, em parceria com Nelson Tanure e Tércio Borlenghi Junior, fundador da Ambipar. A operação teria ocorrido por meio de emissão privada de debêntures da Phoenix S.A. no valor de R$ 520,15 milhões, conforme parecer técnico da Superintendência de Registro de Emissores da CVM citado pelo documento.

Após assumir o controle da EMAE, o grupo liderado por Tanure teria aplicado cerca de R$ 160 milhões do caixa da companhia em CDBs emitidos pelo Letsbank, controlado pelo Banco Master, e comprado aproximadamente R$ 300 milhões em debêntures da Light, empresa também sob controle de Tanure, segundo a representação.

Essas operações, caso confirmadas, deverão ser analisadas sob a ótica de governança, conflito de interesses, aplicação de caixa de companhia recém-adquirida e eventual direcionamento financeiro. A existência das transações, porém, não basta para caracterizar irregularidade sem apuração documental e análise jurídica.

Fundo Phoenix foi criado antes do leilão da EMAE

Outro ponto sensível é a constituição do Fundo Phoenix, que venceu o leilão da EMAE em 19 de abril de 2024, com proposta de aproximadamente R$ 1,04 bilhão. Segundo a representação, o fundo foi criado em 20 de março de 2024, menos de um mês antes do certame.

O documento sustenta que ações da Ambipar teriam sido usadas como lastro patrimonial do fundo. A representação cita investigação concluída pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em maio de 2025 e afirma que a Ambipar lançou em março de 2024 um programa de recompra de ações que concentrou cerca de 70% dos papéis em circulação.

Na sequência, fundos vinculados ao Banco Master e à gestora Reag teriam adquirido volume relevante dessas ações, com participação da Trustee DTVM na administração operacional, segundo a representação. O documento afirma que esse circuito teria produzido valorização superior a 800% nas ações da Ambipar entre abril e outubro de 2024.

A representação levanta a hipótese de formação artificial de preço e simulação de liquidez, condutas que podem se enquadrar na Lei 6.385/76, caso comprovadas. A apuração sobre esse ponto dependerá de documentos da CVM, registros de mercado, comunicações entre participantes e análise técnica das operações.

Fabiano Zettel é citado no documento

A representação também cita Fabiano Zettel, pastor, cunhado de Daniel Vorcaro e colaborador do Grupo Master. Segundo o documento, Zettel teria atuado como uma das peças do Banco Master na parceria para aquisição da EMAE.

O texto afirma ainda que Tanure, Zettel, a gestora Reag e a Trustee DTVM são investigados no âmbito das operações Carbono Oculto e Compliance Zero por suspeitas de lavagem de dinheiro e fraudes financeiras, conforme a representação.

Como se trata de investigação, é necessário manter cautela. Os citados têm direito à defesa, e eventuais suspeitas precisam ser comprovadas pelos órgãos competentes antes de qualquer responsabilização.

A presença de nomes ligados ao Banco Master amplia a dimensão política e financeira do caso porque a instituição já está no centro de investigações sobre supostas fraudes no sistema financeiro e operações envolvendo carteiras de crédito, liquidez e negócios com bancos públicos.

MP-SP avalia se abre inquérito civil

O MP-SP ainda analisa a representação. Segundo o Times Brasil, o caso foi inicialmente encaminhado à Subprocuradoria-Geral de Justiça, que o remeteu à Promotoria de Patrimônio Público por entender que os envolvidos não têm foro privilegiado estadual.

A Promotoria informou ao gabinete do deputado Antônio Donato que o documento está sendo analisado para verificar possíveis semelhanças com outro procedimento já atribuído à 5ª Promotoria de Patrimônio Público.

Se o MP entender que há elementos suficientes, poderá instaurar inquérito civil para apurar eventual dano ao patrimônio público, improbidade administrativa ou outras irregularidades. O inquérito civil não tem caráter criminal, mas pode subsidiar ação civil pública ou encaminhamento a órgãos com atribuição penal, caso surjam indícios de crime.

A decisão do MP-SP será relevante para definir se o caso avançará para uma fase formal de investigação ou se permanecerá como análise preliminar de representação.

Caso amplia pressão sobre privatizações em São Paulo

A análise do MP-SP ocorre em um ambiente de forte disputa política sobre privatizações no estado de São Paulo. A venda da Sabesp (SBSP3) foi uma das principais agendas do governo estadual e envolveu uma das maiores companhias de saneamento do país.

Desde 2024, entidades já haviam questionado o preço e possíveis irregularidades no processo de privatização da Sabesp junto a órgãos de controle, incluindo Tribunal de Contas e Ministério Público.

A entrada do Banco Master no debate adiciona uma nova camada de complexidade. A instituição financeira passou a ser associada a suspeitas de operações irregulares, estruturações financeiras controversas e conexões com grupos empresariais envolvidos em aquisições de ativos públicos.

Para investidores, o caso pode afetar a leitura de risco sobre Equatorial (EQTL3), Sabesp (SBSP3), EMAE e empresas citadas na representação. Não se trata, neste momento, de condenação ou prova de irregularidade, mas de um fator de atenção regulatória, jurídica e reputacional.

Investigação pode ter reflexos para empresas e mercado

A eventual abertura de inquérito civil pode trazer efeitos relevantes para empresas citadas, investidores e governo estadual. O MP-SP poderá solicitar documentos, ouvir envolvidos, pedir informações à CVM, ao Tribunal de Contas, à B3, a bancos coordenadores e a órgãos federais.

Para a Equatorial (EQTL3), o ponto central será demonstrar que sua participação na privatização da Sabesp (SBSP3) seguiu regras de mercado, governança e transparência. A nota enviada pela companhia ao Times Brasil reforça essa linha de defesa ao afirmar que o processo ocorreu dentro da legalidade.

Para a Sabesp (SBSP3), o caso recoloca em discussão a formação de preço, a estrutura da oferta, o papel do investidor de referência e a posterior aquisição da EMAE. Já para o Banco Master, a representação se soma a outras frentes de questionamento sobre a atuação da instituição e de personagens ligados ao seu controlador.

O desfecho dependerá da análise do MP-SP e de eventuais diligências. Enquanto isso, o caso mantém sob escrutínio a relação entre privatizações, mercado financeiro, fundos de investimento, governança corporativa e controle de ativos estratégicos de infraestrutura.

O que diz a Sabesp

Em nota enviada à Gazeta Mercantil, a Sabesp afirmou que a aquisição da EMAE foi uma “operação corporativa direta, transparente, aprovada pelo Conselho de Administração e validada pelos órgãos reguladores competentes”. Segundo a companhia, a análise financeira passou pelo CADE e pela ANEEL, e a transação teria lógica operacional e técnica ao integrar a gestão de saneamento ao controle de recursos hídricos, especialmente nas represas Billings e Guarapiranga.

Sobre a desestatização da Sabesp em 2024, a companhia declarou que a Justiça de São Paulo julgou improcedente ação popular que questionava a venda de ações para a Equatorial, descartando irregularidade. A empresa também afirmou que não existiu conflito de interesses envolvendo a conselheira mencionada no caso.

A Sabesp informou ainda que seu diretor-presidente comandava o Conselho de Administração da Equatorial Energia durante o processo de desestatização da companhia, em 2024, e que a Equatorial se tornou acionista de referência da Sabesp ao adquirir 15% das ações. Segundo a empresa, a indicação do executivo para a presidência da Sabesp foi consequência dessa participação acionária.

A companhia negou qualquer relação entre o executivo e a estruturação do fundo citado ou com a valorização das ações mencionadas na reportagem. A Sabesp afirmou que questões relativas à valorização e desvalorização de ações são de competência da CVM e declarou que tanto a empresa quanto seu diretor-presidente não tinham conexão com a EMAE até 2025, quando foi celebrado o acordo de aquisição.

A Sabesp também ressaltou que, por ser empresa de capital aberto listada na B3 e na NYSE, está sujeita a requisitos de compliance e governança corporativa, com nomeações submetidas a avaliação formal de conformidade e atuação de comitês independentes de auditoria e compliance.

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