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Naskar mudou registros antes de crise que pode envolver R$ 1 bilhão

Fintech investigada por suposta captação irregular alterou razões sociais, retirou atividades financeiras de registros e viu sócios abrirem novas empresas antes de ações judiciais de investidores

por Daniel Wicker
17/05/2026 às 20h54
em Empresas
Naskar Mudou Registros Antes De Crise Que Pode Envolver R$ 1 Bilhão - Gazeta Mercantil

A Naskar, fintech investigada pela Polícia Civil do Distrito Federal por suposta captação irregular de recursos, realizou uma série de alterações societárias nos 60 dias anteriores à crise que atingiu cerca de 3.000 investidores e pode envolver entre R$ 850 milhões e R$ 1 bilhão. Entre março e maio de 2026, registros da Junta Comercial do Estado de São Paulo mostram mudanças de razão social, retirada de atividades financeiras de objetos sociais e abertura de novas empresas por controladores ligados ao grupo, em meio à interrupção de pagamentos e à saída do aplicativo do ar.

A empresa oferecia a pessoas físicas contratos de mútuo com promessa de rendimento mensal fixo entre 1,5% e 2%. A operação passou a ser questionada após clientes deixarem de receber os rendimentos contratados, enquanto a plataforma digital ficou inacessível. O caso chegou à Justiça por meio de tutelas cautelares distribuídas em diferentes tribunais e passou a ser apurado formalmente pela Polícia Civil do Distrito Federal.

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As alterações societárias não configuram, por si só, irregularidade. No entanto, a sequência de atos praticados pouco antes do colapso da Naskar tende a ser analisada por autoridades, credores e pelo Judiciário para verificar se houve tentativa de reorganização empresarial legítima, blindagem patrimonial, fraude a credores ou esvaziamento de responsabilidades.

Segundo a reportagem original do Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC, os sócios da Naskar foram procurados para responder a uma lista de questionamentos, mas não haviam se manifestado até o fechamento da apuração.

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Mudanças começaram menos de dois meses antes do colapso

A primeira alteração relevante ocorreu em 17 de março de 2026, quando a Naskar mudou sua razão social de Naskar Instituição de Pagamento Ltda para Naskar Gestão de Ativos Ltda. A modificação foi registrada cerca de 50 dias antes de a fintech deixar de pagar os rendimentos mensais aos clientes.

Em 7 de abril, outra empresa ligada ao grupo também passou por mudança formal. A NextGen Gestão Financeira Ltda alterou sua razão social para NextGen Serviços de Apoio Administrativo Ltda e retirou de seu objeto social atividades auxiliares de serviços financeiros e de correspondente de instituições financeiras.

Uma semana depois, em 14 de abril, a própria Naskar retirou atividades financeiras de seu objeto social junto à Junta Comercial. A alteração foi arquivada 23 dias antes da interrupção dos pagamentos e da comunicação enviada aos clientes sobre uma suposta “perda na base de dados”.

Na prática, a retirada de CNAEs financeiros dos registros societários pode indicar que uma empresa deixou de declarar formalmente determinadas atividades. Em eventual disputa judicial, porém, a análise não se limita ao cadastro. O Judiciário tende a observar a atividade efetivamente exercida, a forma de captação dos recursos, a comunicação feita aos clientes e a estrutura usada para movimentar os valores.

Clientes relatam atraso em rendimentos e aplicativo fora do ar

A crise da Naskar se intensificou em 4 de maio de 2026, quando clientes deixaram de receber os rendimentos mensais prometidos pela fintech. No dia seguinte, o aplicativo Naskar Cliente saiu do ar, o que ampliou a insegurança entre investidores sobre a existência de saldos, a rastreabilidade das operações e a capacidade de devolução dos recursos.

O modelo da Naskar era baseado em contratos de mútuo, instrumento jurídico pelo qual uma parte entrega recursos a outra, com obrigação de devolução futura. No caso da fintech, o atrativo era a promessa de remuneração mensal fixa entre 1,5% e 2%, patamar superior ao retorno de aplicações conservadoras tradicionais.

Esse tipo de promessa, quando oferecida de forma recorrente ao público, costuma aumentar a atenção de reguladores e autoridades policiais, especialmente se houver dúvida sobre autorização, enquadramento jurídico, segregação de recursos e transparência na operação.

De acordo com estimativas citadas em ações judiciais, a operação teria movimentado entre R$ 850 milhões e R$ 1 bilhão de aproximadamente 3.000 clientes em todo o país. Parte desses investidores passou a buscar medidas urgentes na Justiça para tentar bloquear bens, preservar documentos e identificar a cadeia de empresas envolvidas.

Empresas foram abertas no dia da nota aos investidores

Um dos pontos que mais chamam atenção na sequência de fatos ocorreu em 7 de maio. Naquele dia, a Naskar enviou por e-mail sua principal comunicação aos clientes, informando uma suposta “perda na base de dados” e prometendo um posicionamento institucional posterior.

No mesmo dia, registros da Junta Comercial mostram a constituição de duas novas empresas ligadas a nomes associados ao núcleo controlador da Naskar. A primeira foi a Voga Apoio Administrativos Ltda, com capital social de R$ 10 mil e Marcelo Liranço Arantes como sócio único e administrador. A segunda foi a Spy Apoio Administrativos Ltda, também com capital de R$ 10 mil e José Maurício Volpato como sócio único e administrador.

Volpato, também conhecido como Maurício Jahu, é ex-jogador de vôlei e ex-apresentador da ESPN Brasil. Ele aparece, ao lado de Marcelo Liranço Arantes e Rogério Vieira, como integrante do grupo de controladores finais reconhecido pelo Banco Central em comunicado publicado em março de 2026.

A coincidência de datas deve ser tratada com cautela. A abertura de empresas no mesmo dia da comunicação aos clientes não gera consequência jurídica automática. Para que a constituição das companhias seja enquadrada como fraude a credores ou blindagem patrimonial, será necessário demonstrar eventual má-fé, nexo de causalidade e relação direta entre os atos e os prejuízos alegados pelos investidores.

Banco Central já havia apontado controladores da estrutura

O Banco Central publicou, em 11 de março de 2026, o Comunicado 44.862, no qual reconheceu a Next Holding Financeira Ltda como controladora direta da 7Trust Finance Instituição de Pagamento S.A. O mesmo comunicado identificou Marcelo Liranço Arantes, Rogério Vieira e José Maurício Volpato como controladores finais da estrutura.

A 7Trust Finance era apontada como instituição de pagamento parceira da Naskar, responsável pelo processamento das operações financeiras dos clientes. A custódia das contas ficava a cargo da CelCoin Instituição de Pagamento S.A., empresa independente que atuava como infraestrutura tecnológica da operação.

Segundo a apuração, a 7Trust operava em regime de “processo de autorização”, sem ter obtido autorização final para funcionar como instituição de pagamento. Esse ponto tende a ser relevante para delimitar responsabilidades, porque ajuda a mapear quais empresas participaram do fluxo operacional e quais papéis cada uma exerceu na estrutura da Naskar.

O reconhecimento formal de controladores pelo Banco Central pode servir como ponto de partida para ações civis e criminais. Ainda assim, a responsabilização de pessoas físicas depende de decisão judicial e da demonstração de abuso, fraude, confusão patrimonial, desvio de finalidade ou participação direta nos fatos investigados.

Divergência cadastral pode pesar em ações de credores

Apesar das alterações registradas na Junta Comercial, o cadastro federal da Naskar ainda mantinha atividades financeiras vinculadas à empresa. O Cartão CNPJ da Naskar Gestão de Ativos permanecia com CNAE principal de outras atividades auxiliares dos serviços financeiros e CNAEs secundários de factoring, correspondentes de instituições financeiras e atividades de cobrança.

A divergência entre o registro estadual e o cadastro federal pode se tornar um ponto relevante na disputa entre investidores, empresa e controladores. Para credores, a manutenção de atividades financeiras no CNPJ pode reforçar o argumento de que a Naskar continuava se apresentando como empresa ligada ao setor financeiro, mesmo após alterações formais feitas na Junta Comercial.

Para eventual defesa, porém, esse argumento poderá ser contestado. O peso jurídico da divergência dependerá da análise conjunta de contratos, comunicações comerciais, movimentação financeira, registros contábeis, publicidade feita aos clientes e documentos internos da empresa.

O debate também pode alcançar a desconsideração da personalidade jurídica, mecanismo que permite atingir o patrimônio de sócios e administradores quando há indícios de abuso, confusão patrimonial ou desvio de finalidade. A medida, contudo, não é automática e exige decisão judicial fundamentada.

Ações cautelares tentam preservar bens e documentos

No sábado, 9 de maio, foram distribuídas quatro tutelas cautelares antecedentes em três tribunais distintos. As ações citam empresas como 7Trust, Family Office Daytona, Naskar Gestão de Ativos e Next Holding, além de controladores como Marcelo Liranço Arantes e José Maurício Volpato.

A tutela cautelar antecedente é usada para pedir medidas urgentes antes da apresentação da ação principal. Em casos de crise financeira, pode envolver pedidos de bloqueio de bens, preservação de documentos, identificação de contas bancárias, localização de ativos e obtenção de informações sobre a estrutura societária.

Também em 9 de maio, a Naskar enviou uma Carta de Circularização pelo e-mail auditoria@sejanaskar.com.br, solicitando documentos pessoais dos clientes no prazo de dez dias. A comunicação continha cláusula expressa de não reconhecimento automático de saldo, novação ou quitação.

Na prática, a cláusula indicava que o envio de documentos pelos clientes não significaria reconhecimento imediato da dívida pela empresa, tampouco validação automática dos valores declarados. Esse ponto aumentou a insegurança entre investidores, que já enfrentavam falta de acesso ao aplicativo e ausência de informações objetivas sobre saldos e prazos de pagamento.

Venda anunciada por R$ 1,2 bilhão gera dúvidas

Em 14 de maio, a Naskar e a Azara, empresa apresentada como gestora americana, divulgaram nota conjunta anunciando a venda das empresas do grupo por aproximadamente R$ 1,2 bilhão. A promessa era iniciar tratativas para devolução dos recursos aos investidores na semana seguinte.

O anúncio, porém, foi recebido com cautela por investidores e especialistas, especialmente pela ausência de documentação pública capaz de comprovar a estrutura da transação, a capacidade financeira da compradora, a origem dos recursos e as garantias de pagamento aos credores.

Em situações de crise, comunicados sobre venda de ativos, entrada de investidor estratégico ou reorganização societária podem reduzir momentaneamente a pressão de credores. Mas, quando não são acompanhados de documentação verificável, também podem ampliar a desconfiança e gerar novos questionamentos judiciais.

Caso a venda não se concretize ou se revele incapaz de cobrir os prejuízos, investidores poderão buscar responsabilização adicional, sobretudo se ficar demonstrado que medidas judiciais foram suspensas ou adiadas com base na expectativa criada pelo comunicado.

Recuperação judicial pode mudar disputa com investidores

Na sexta-feira, 15 de maio, os três sócios da Naskar teriam se reunido em um escritório de advocacia na Avenida Paulista, em São Paulo, especializado em reestruturação empresarial e recuperação judicial, segundo fonte citada na reportagem original. A possibilidade em análise seria a apresentação de um pedido de recuperação judicial.

Se protocolada e aceita, a recuperação judicial mudaria a dinâmica da crise. O caso deixaria de depender apenas de ações individuais e cautelares dispersas e passaria a seguir um rito concentrado, com apresentação de plano de pagamento, assembleia de credores e fiscalização judicial.

Para os investidores, o impacto pode ser ambíguo. De um lado, a recuperação judicial cria um processo formal de reorganização e apuração de dívidas. De outro, pode alongar prazos, suspender cobranças individuais, impor deságios e submeter credores a uma negociação coletiva.

A eventual recuperação judicial da Naskar também deverá enfrentar discussões sobre a natureza da operação, o tipo de atividade exercida e a legitimidade da empresa para se valer desse instrumento. A existência de investigação por suposta captação irregular tende a ampliar a complexidade do caso.

Caso Naskar aumenta pressão sobre fintechs e plataformas financeiras

O caso Naskar amplia o alerta sobre operações financeiras que prometem retorno fixo elevado a pessoas físicas fora dos canais tradicionais de investimento. A combinação de remuneração mensal acima da média, estrutura societária complexa, empresas de pagamento, dúvidas regulatórias e falha na comunicação com clientes tornou o episódio relevante para investidores, reguladores e autoridades policiais.

A investigação da Polícia Civil do Distrito Federal deverá apurar se houve apenas uma crise empresarial com falhas operacionais graves ou se a estrutura foi usada para captação irregular de recursos, blindagem patrimonial e prejuízo deliberado a credores. Os investigados têm direito à defesa e a responsabilização dependerá da análise de documentos, contratos, fluxos financeiros e decisões judiciais.

Enquanto não houver resposta definitiva sobre os saldos, a venda anunciada e eventual recuperação judicial, os investidores seguem sem clareza sobre o ressarcimento dos valores. A Naskar permanece no centro de uma disputa que combina mercado financeiro, regulação de fintechs, responsabilidade societária e proteção de credores.

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