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Negociação entre Lula e Trump tem impacto mais simbólico do que econômico, dizem analistas

Expectativas de redução de tarifas pelos Estados Unidos já estavam previstas antes do diálogo entre os dois líderes, segundo relatório da Moody’s Analytics

por Gabriel Monteiro
24/10/2025 às 11h26
em Política
Negociação Entre Lula E Trump Tem Impacto Mais Simbólico Do Que Econômico, Dizem Analistas - Gazeta Mercantil - Política

Negociação entre Lula e Trump tem impacto mais simbólico do que econômico nas relações entre Brasil e Estados Unidos

A negociação entre Lula e Trump ganhou destaque internacional nos últimos dias, despertando atenção de investidores, diplomatas e analistas econômicos. Apesar das expectativas criadas em torno do encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, especialistas avaliam que o impacto da reunião será mais simbólico do que efetivo no campo econômico.

Segundo relatório divulgado pela Moody’s Analytics, as consequências práticas de um eventual acordo bilateral seriam marginais. A agência norte-americana já projetava que o governo Trump poderia reduzir, de forma unilateral, parte das tarifas impostas sobre produtos brasileiros ao longo de 2026 — movimento que independeria das negociações diplomáticas conduzidas por Lula.

Leia também: Supostas Mensagens Revelam Uso do TSE para Investigar Bolsonaristas: O Que Dizem as Novas Alegações.


Reaproximação política, impacto econômico discreto

O encontro entre os dois líderes marca uma tentativa de reaproximação diplomática entre Brasil e Estados Unidos, as duas maiores economias do hemisfério.
O gesto, contudo, não deve provocar transformações estruturais nas relações comerciais.
Para analistas americanos, a redução tarifária tende a beneficiar apenas setores pontuais, como aço, carne bovina e alumínio, sem alterar de forma relevante o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.

A imposição de tarifas de até 40% sobre produtos brasileiros por Washington, em 2024, afetou diretamente a competitividade de exportadores nacionais. Ainda assim, economistas destacam que um eventual acordo resultaria em ganhos reputacionais para o Brasil, ao sinalizar estabilidade diplomática e abertura ao diálogo multilateral.

Leia também: Paulo Guedes entra na Inpasa e leva peso econômico à corrida bilionária do etanol de milho.


Mercado financeiro já previa alívio nas tarifas

De acordo com a Moody’s Analytics, o mercado financeiro já havia precificado uma flexibilização gradual das tarifas comerciais.
Os investidores esperavam que o governo dos Estados Unidos reduzisse as barreiras à importação por motivos internos — entre eles, o controle da inflação e a necessidade de reabastecer cadeias produtivas afetadas por conflitos geopolíticos e restrições de oferta.

Mesmo sem um tratado formal, Trump teria incentivos econômicos domésticos para adotar uma política comercial menos restritiva, de modo a equilibrar custos industriais e reduzir pressões inflacionárias.
Nesse cenário, a diplomacia brasileira apenas acelera um processo que já era esperado pelo mercado internacional.

A Moody’s calcula que o impacto líquido de uma eventual revisão tarifária seria de menos de 0,1 ponto percentual no PIB de ambos os países, o que é considerado estatisticamente irrelevante para as projeções de médio prazo.


Brasil busca protagonismo no Sul Global

Embora o impacto econômico da negociação entre Lula e Trump seja discreto, o episódio fortalece a estratégia de política externa brasileira voltada ao Sul Global.
O Itamaraty vê o diálogo como parte de um movimento para diversificar parceiros comerciais e reduzir a dependência do dólar nas transações internacionais.

Durante sua viagem à Ásia, Lula reforçou o compromisso com o comércio multilateral e com o avanço de acordos em moedas locais, além de propor uma nova arquitetura financeira internacional mais inclusiva e menos concentrada nas economias desenvolvidas.

Diplomatas próximos ao presidente destacam que o diálogo com Trump é um passo estratégico dentro de uma agenda pragmática de cooperação e autonomia política, que busca equilíbrio entre o Ocidente e o Oriente.


Tarifas permanecem como desafio estrutural

As tarifas americanas sobre produtos brasileiros continuam sendo um dos principais obstáculos nas relações comerciais entre os dois países.
O Brasil é o segundo maior fornecedor de carne bovina e minério de ferro para os Estados Unidos, além de ter relevância na exportação de aço, celulose e etanol.

Com o aumento das barreiras tarifárias, parte dos exportadores brasileiros migraram para novos mercados, como China, México e Oriente Médio, para reduzir perdas de competitividade.

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as exportações brasileiras para os EUA somaram US$ 36,4 bilhões em 2024, representando 11% das vendas externas do país.
Apesar da redução do ritmo, os Estados Unidos seguem sendo o segundo principal destino dos produtos brasileiros, atrás apenas da China.


Encontro político e pragmático

Do ponto de vista político, o encontro entre Lula e Trump reflete o pragmatismo dos dois líderes em um cenário global de tensões comerciais e realinhamentos geopolíticos.
Para o governo brasileiro, o diálogo representa uma oportunidade de recompor pontes diplomáticas e reequilibrar as relações bilaterais após um período de distanciamento ideológico.

Já para Trump, o movimento reforça sua imagem de liderança global e de mediador entre potências emergentes, num momento em que busca consolidar sua influência em temas econômicos estratégicos.

O Palácio do Planalto avalia que qualquer avanço na pauta tarifária pode ser interpretado como sinal de estabilidade diplomática, abrindo espaço para futuras negociações comerciais, especialmente em áreas como energia, tecnologia agrícola e infraestrutura.


Análise setorial: ganhos e limitações

Apesar da cautela do mercado, economistas destacam que alguns setores específicos da economia brasileira podem ser beneficiados por uma eventual redução tarifária.
O complexo agroexportador, especialmente o de carnes, açúcar e etanol, tende a recuperar parte da competitividade perdida com as restrições impostas pelos Estados Unidos.

O setor siderúrgico também figura entre os potenciais beneficiados, já que as tarifas sobre aço e alumínio impactaram fortemente as exportações brasileiras nos últimos anos.
Entretanto, especialistas ressaltam que o simples alívio das barreiras não garante aumento imediato das vendas externas, já que fatores como taxa de câmbio, custos logísticos e demanda interna norte-americana continuam determinantes.


Investidores mantêm postura conservadora

No mercado financeiro, a repercussão da negociação entre Lula e Trump tem sido moderada.
O Ibovespa opera com pequenas variações, refletindo a percepção de que os efeitos econômicos do encontro são limitados.
O dólar mantém estabilidade, e os juros futuros seguem mais influenciados pelos indicadores domésticos — como inflação e política fiscal — do que por fatores externos.

Para investidores estrangeiros, o foco permanece na previsibilidade institucional e na sustentabilidade fiscal e monetária do Brasil.
A diplomacia econômica é vista como uma variável de médio prazo, com potencial de melhorar a percepção de risco-país, mas sem impacto imediato nos fluxos de capital.


Cenário global desafiador e volatilidade internacional

O contexto internacional segue marcado por tensões geopolíticas, que limitam os efeitos de qualquer acordo bilateral.
As disputas entre Estados Unidos, China e Rússia continuam desestabilizando cadeias de suprimento e pressionando os preços de commodities.

Analistas apontam que, mesmo que Washington alivie as tarifas sobre o Brasil, o impacto econômico será moderado devido ao enfraquecimento da demanda global e à desaceleração da economia chinesa.

Nesse ambiente, o Brasil tenta reconstruir alianças multilaterais, adotando uma postura equilibrada entre os blocos ocidental e oriental, sem abrir mão de sua autonomia estratégica.


Simbolismo maior que resultado

A negociação entre Lula e Trump é um marco simbólico para a diplomacia brasileira, reafirmando o protagonismo do país no cenário global.
Contudo, especialistas concordam que os efeitos econômicos serão limitados e que o mercado já antecipava parte das possíveis concessões tarifárias.

A reunião reforça o papel do Brasil como mediador no diálogo internacional e defensor do comércio justo e multilateral, mas dificilmente trará impactos relevantes no curto prazo.
Ainda assim, a aproximação pode abrir caminho para futuras tratativas e consolidar o Brasil como uma voz influente na agenda global de desenvolvimento sustentável e integração produtiva.

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