Ambipar (AMBP3) reestrutura alto escalão em meio à Recuperação Judicial: O que esperar da nova gestão?
O cenário corporativo brasileiro iniciou a semana com movimentações estratégicas relevantes no setor de gestão ambiental e serviços de emergência. A Ambipar (AMBP3), companhia que protagonizou um dos episódios mais complexos do mercado de capitais em 2025, anunciou na noite de ontem (19) mudanças significativas em sua estrutura de governança. O Conselho de Administração aprovou uma reorganização no alto escalão executivo, elegendo Renato Ferreira dos Santos como o novo Diretor de Relações com Investidores (DRI), além de confirmar a reeleição de Tércio Borlenghi Junior como CEO para o triênio 2026-2028.
Estas mudanças não ocorrem em um vácuo administrativo. Elas são a resposta direta aos desafios impostos pelo Plano de Recuperação Judicial aprovado em dezembro, após um segundo semestre de 2025 marcado por escândalos financeiros que abalaram a credibilidade da empresa e dizimaram o valor de suas ações. Para o investidor que acompanha a Ambipar (AMBP3), entender a profundidade dessas alterações é vital para navegar a volatilidade de um ativo que, hoje, luta para deixar a casa dos centavos e recuperar sua reputação no Novo Mercado.
A Dança das Cadeiras: O Novo Guardião da Comunicação com o Mercado
A substituição na Diretoria de Relações com Investidores é, talvez, o sinal mais claro de que a Ambipar (AMBP3) busca uma nova narrativa junto à Faria Lima e aos investidores institucionais. Renato Ferreira dos Santos, eleito para o cargo, não é um forasteiro; ele já atuava como gerente na área, o que sugere uma aposta na continuidade do conhecimento técnico, mas com uma nova abordagem na linha de frente.
Ele substitui Ricardo Rosanova Garcia, que esteve na função durante o período mais turbulento da história da companhia, iniciado em 2023 e culminando na crise de 2025. A função do DRI em uma empresa sob Recuperação Judicial é de extrema delicadeza. Cabe a este executivo a árdua tarefa de explicar aos acionistas minoritários e aos credores como a Ambipar (AMBP3) pretende honrar seus compromissos e voltar a gerar valor.
A administração da companhia, em nota, reforçou a confiança no executivo. No entanto, o mercado sabe que a “confiança” é uma moeda escassa quando se trata da Ambipar (AMBP3) no momento atual. A gestão da comunicação será crucial para estancar a sangria de credibilidade e evitar ruídos que possam pressionar ainda mais a cotação dos papéis, que operam em patamares de “penny stock.
Continuidade no Comando: A Reeleição de Tércio Borlenghi Junior
Enquanto a diretoria de RI muda de rosto, o comando central da Ambipar (AMBP3) permanece inalterado. O Conselho de Administração optou pela reeleição de Tércio Borlenghi Junior para o cargo de Diretor Presidente (CEO). O novo mandato se estenderá de 2026 até 2028.
Esta decisão carrega um peso simbólico e prático imenso. Tércio é a figura central na história da Ambipar (AMBP3), sendo o responsável por sua expansão agressiva via fusões e aquisições (M&A) nos anos que antecederam a crise. Sua permanência sinaliza que os acionistas controladores e o Conselho acreditam que quem construiu a companhia é a pessoa mais indicada para salvá-la, ou que não houve consenso para trazer um gestor de turnaround externo neste momento delicado.
A manutenção da família Borlenghi no poder é reforçada pela eleição de Guilherme Patini Borlenghi como Diretor Operacional. Para analistas de governança corporativa, a concentração de poder familiar em uma empresa de capital aberto que enfrenta graves problemas financeiros e de compliance — decorrentes dos escândalos de 2025 — é um ponto de atenção redobrada. O mercado observará se a gestão da Ambipar (AMBP3) conseguirá separar os interesses dos controladores das necessidades urgentes de desalavancagem e transparência exigidas pelos credores na Recuperação Judicial.
O Time Financeiro e Operacional
Além do CEO e do DRI, a Ambipar (AMBP3) compôs sua diretoria com Thiago da Costa Silva na cadeira de Diretor Financeiro (CFO) e Isabel Cristina Monteiro Souza como Diretora Adjunta. O papel de Thiago da Costa Silva será nevrálgico. Em uma empresa em Recuperação Judicial, o CFO deixa de ser apenas um gestor de fluxo de caixa para se tornar um estrategista de sobrevivência.
A reestruturação da dívida, a negociação com bancos e fornecedores, e a garantia de capital de giro para manter as operações rodando são as prioridades absolutas. A Ambipar (AMBP3) precisa provar que seu modelo de negócios — baseado em resposta a emergências ambientais e gestão de resíduos — continua rentável operacionalmente, apesar do caos financeiro institucional. A eficiência operacional, sob a tutela de Guilherme Patini Borlenghi, precisará ser maximizada para gerar o caixa necessário para cumprir o plano aprovado em dezembro.
O Contexto da Ação: Operando em Centavos
A reação do mercado ao anúncio foi, em um primeiro momento, positiva, mas dentro de um contexto de extrema desvalorização. As ações da Ambipar (AMBP3) operavam em alta de 3,57% por volta das 10h40 da manhã seguinte ao anúncio, cotadas a R$ 0,29.
É fundamental analisar este preço. Quando uma ação como a da Ambipar (AMBP3) atinge o patamar de R$ 0,29, ela entra na categoria de “penny stocks” (ações de centavos). Isso traz riscos adicionais, como a alta volatilidade especulativa — qualquer variação de um centavo representa uma porcentagem enorme de oscilação — e a pressão regulatória da B3. Pelas regras da bolsa brasileira, ações não podem ser negociadas abaixo de R$ 1,00 por longos períodos.
Isso coloca a Ambipar (AMBP3) diante da possibilidade real de ter que realizar um grupamento de ações (inplit) no curto prazo para se adequar às normas da B3. Embora o grupamento seja um evento neutro financeiramente, ele muitas vezes é visto com desconfiança pelo mercado, pois evidencia a destruição de valor pregressa. O desafio da nova diretoria não é apenas subir a cotação, mas restaurar os fundamentos que justifiquem um valuation superior.
O Peso da Recuperação Judicial e os Escândalos de 2025
Não se pode analisar a troca de diretoria da Ambipar (AMBP3) sem olhar para o “elefante na sala”: a Recuperação Judicial. Aprovado no apagar das luzes de 2025, o plano de RJ foi a consequência inevitável de uma série de escândalos financeiros que vieram à tona no segundo semestre do ano passado.
Embora o comunicado oficial da empresa foque na “continuidade do desenvolvimento”, a realidade é que a Ambipar (AMBP3) vive uma crise de confiança. Escândalos financeiros em empresas listadas geralmente envolvem inconsistências contábeis, endividamento oculto ou problemas de governança. Esses eventos afastam grandes fundos de investimento e reduzem a liquidez do papel.
A nova gestão assume com o ônus da prova. O mercado exigirá da Ambipar (AMBP3) um nível de transparência muito acima da média do Novo Mercado. Cada trimestre será um teste de fogo. O sucesso da Recuperação Judicial depende não apenas da renegociação de passivos, mas da capacidade da empresa de manter seus clientes. No setor de serviços ambientais, a reputação é um ativo intangível valioso. Se a crise financeira contaminar a percepção da qualidade do serviço, a receita pode ser impactada, tornando o plano de recuperação inviável.
Governança Corporativa: O “G” do ESG em Xeque
A Ambipar (AMBP3) construiu sua marca e sua tese de investimento apoiada na pauta ESG (Environmental, Social and Governance). Como uma empresa que vende soluções ambientais, o “E” sempre foi seu forte. No entanto, a crise atual expôs falhas brutais no “G” — a Governança.
A manutenção de Tércio Borlenghi Junior e a presença de familiares na diretoria executiva levantam o debate sobre a profissionalização da gestão. Investidores ativistas e credores muitas vezes preferem a entrada de gestores profissionais independentes em processos de reestruturação. A aposta da Ambipar (AMBP3) na continuidade da liderança familiar é arriscada, mas pode indicar um compromisso pessoal dos controladores em reverter a situação, colocando seu próprio patrimônio e reputação na linha de frente.
O novo diretor de RI, Renato Ferreira dos Santos, terá que endereçar essas preocupações de governança em cada call de resultados e em cada reunião com analistas. A Ambipar (AMBP3) precisa demonstrar que os controles internos foram fortalecidos para impedir que os problemas de 2025 se repitam.
Perspectivas para 2026-2028
O mandato da nova diretoria da Ambipar (AMBP3), que vai até 2028, coincide com o período crítico de execução do plano de recuperação. Os próximos dois anos definirão se a empresa sobreviverá como um player relevante ou se será desmembrada para pagar dívidas.
O cenário macroeconômico de 2026, com juros ainda em patamares que encarecem o serviço da dívida, não ajuda empresas alavancadas. A Ambipar (AMBP3) terá que ser cirúrgica na alocação de capital. A era das aquisições desenfreadas acabou; a era da eficiência operacional começou.
Analistas técnicos observam o suporte de preços da ação. A cotação de R$ 0,29 atrai especuladores de curto prazo, o que pode gerar volume, mas não necessariamente qualidade na base acionária. Para que a Ambipar (AMBP3) volte a atrair investidores fundamentalistas — aqueles que miram o longo prazo e os dividendos —, será necessário entregar trimestres consecutivos de geração de caixa livre positiva e redução da alavancagem líquida.
O Setor de Serviços Ambientais
Apesar da crise interna, a Ambipar (AMBP3) opera em um setor promissor. A demanda por gestão de resíduos, resposta a emergências climáticas e créditos de carbono continua crescendo globalmente. O core business da companhia é sólido e necessário. O problema da Ambipar (AMBP3) nunca foi a falta de mercado, mas sim como ela financiou seu crescimento para atender a esse mercado.
Se a nova diretoria financeira, liderada por Thiago da Costa Silva, conseguir sanear o balanço, a empresa tem ativos operacionais valiosos. A capilaridade global da Ambipar (AMBP3) é uma vantagem competitiva difícil de replicar. O desafio é fazer com que essa operação gigante caiba dentro de uma estrutura de capital sustentável.
Um Voto de Confiança ou Mais do Mesmo?
O anúncio das mudanças no alto escalão da Ambipar (AMBP3) deve ser lido com cautela e pragmatismo. A promoção de um gerente interno para a diretoria de RI e a reeleição do CEO fundador indicam uma estratégia de resistência e continuidade, não de ruptura.
Para o acionista que viu seu patrimônio derreter com a queda das ações para a casa dos centavos, a esperança reside na capacidade de execução deste time “da casa. A Ambipar (AMBP3) não tem margem para erros. O ano de 2026 será decisivo. A alta de 3,57% nas ações após o anúncio é um suspiro de alívio, mas a maratona da recuperação apenas começou.
O mercado financeiro tem memória curta para o sucesso, mas memória longa para o fracasso. A Ambipar (AMBP3) tem a chance de escrever um dos maiores turnarounds da bolsa brasileira ou se tornar uma nota de rodapé sobre os perigos da alavancagem excessiva e falhas de governança. A bola agora está com Tércio Borlenghi, Renato Ferreira e toda a nova diretoria. O cronômetro da Recuperação Judicial está rodando, e o placar, por enquanto, mostra R$ 0,29.






