Raízen sob Pressão: O Rebaixamento da Fitch e os Desafios da Estrutura de Capital
O mercado de capitais brasileiro recebeu com cautela a notícia de que a Raízen (RAIZ4), uma das gigantes do setor de energia e biocombustíveis, sofreu um duro revés em sua classificação de risco. A agência Fitch Ratings anunciou o rebaixamento dos ratings de inadimplência de longo prazo da companhia e de sua subsidiária, a Raízen Energia S.A., de ‘BBB-’ para ‘B’. Mais do que um ajuste numérico, o corte representa a perda do grau de investimento, posicionando a empresa em uma categoria que sinaliza maior risco de crédito e mantém a observação negativa para futuras revisões.
Este movimento da Fitch reflete uma deterioração rápida nas métricas de crédito da Raízen. O rebaixamento para ‘B’ no mercado internacional e para ‘BBB-(bra)’ na escala nacional é o resultado direto de uma combinação de fatores: falha na capitalização esperada, alavancagem financeira em patamares alarmantes e um cenário operacional que não tem correspondido às projeções anteriores. Para a Gazeta Mercantil, analistas apontam que a perda do selo de bom pagador eleva significativamente o custo de rolagem da dívida da companhia em um momento de juros ainda restritivos.
O Gatilho do Rebaixamento: Capitalização e Governança
O principal catalisador para a decisão drástica da Fitch foi o descumprimento de uma expectativa central de suporte financeiro. Após os ratings da Raízen entrarem em observação negativa em outubro de 2025, o mercado aguardava um aporte de capital relevante por parte dos acionistas controladores, Cosan e Shell. O não cumprimento deste aporte dentro do prazo previsto pela agência de risco minou a confiança na capacidade imediata de desalavancagem da empresa.
A governança da Raízen também atravessa um momento de transição e incerteza. Recentemente, a companhia comunicou a renúncia de membros importantes do conselho de administração, como Brian Paul Eggleston e Sonat Burman-Olsson. Embora a Shell tenha indicado prontamente Jorrit Jan Witte Van Der Togt como novo membro, a rotatividade no conselho em meio a uma crise de crédito gera ruídos sobre a velocidade da tomada de decisão estratégica necessária para reverter o quadro atual da Raízen.
Radiografia da Dívida: Alavancagem em 5 Vezes o Ebitda
Os números que sustentam o rebaixamento da Raízen são contundentes. A agência Fitch projeta que a dívida bruta da companhia se manterá em torno de 5,4 vezes o seu Ebitda (Lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), enquanto a dívida líquida deve oscilar próxima de 5,0 vezes nos próximos dois anos. Para o setor sucroenergético, este patamar de endividamento é considerado extremamente elevado, limitando a capacidade de investimento e aumentando a vulnerabilidade a choques externos de preços de commodities.
A situação de liquidez da Raízen é o ponto de maior atenção para os detentores de debêntures e bônus internacionais. Estima-se que a companhia tenha compromissos financeiros de aproximadamente R$ 10,5 bilhões com vencimento nos próximos 18 meses. Com a dívida líquida total atingindo o montante de R$ 53,4 bilhões no segundo trimestre da safra 2025/26 — um salto de quase 50% em relação ao ano anterior —, o risco de refinanciamento torna-se uma variável crítica para a tese de investimento na Raízen.
Desafios Operacionais: Açúcar, Câmbio e Moagem
Não é apenas o balanço financeiro da Raízen que apresenta sinais de desgaste; a operação industrial também enfrenta ventos contrários. A Fitch revisou para baixo suas projeções operacionais para a companhia, citando preços mais baixos para o açúcar no mercado internacional e um impacto cambial que prejudica as margens de lucro. A estimativa de moagem, indicador vital de produtividade para o setor, foi reduzida de 73 milhões de toneladas para 70,3 milhões de toneladas após a venda de ativos estratégicos.
Essa redução na capacidade produtiva da Raízen reflete diretamente no Ebitda projetado para os próximos anos. A agência estima que o lucro operacional da empresa fique em torno de R$ 10,9 bilhões em 2026 e R$ 11 bilhões em 2027. Diante de despesas financeiras vultosas e da necessidade de investimentos contínuos em manutenção e modernização, o fluxo de caixa livre da Raízen deve permanecer em terreno negativo até, pelo menos, 2027. Como consequência, a distribuição de dividendos torna-se improvável no curto e médio prazo.
Estrutura de Capital e Busca por Assessoria Financeira
Reconhecendo a gravidade do cenário, a administração da Raízen informou ao mercado que iniciou o processo de contratação de assessores financeiros de renome. O objetivo é buscar “opções estratégicas” que permitam o fortalecimento da liquidez e a otimização da estrutura de capital. Embora os trabalhos ainda estejam em fase preliminar, o mercado especula sobre possíveis novos desinvestimentos ou até mesmo uma emissão primária de ações, caso o apetite dos acionistas controladores mude.
A Raízen reforçou, em fato relevante, seu compromisso com a continuidade das atividades e a manutenção do relacionamento com fornecedores e parceiros de negócios. Entretanto, a contratação de assessoria para um diagnóstico de capital é interpretada por analistas como um passo necessário para evitar uma crise de confiança ainda mais profunda. A interação com o mercado agora será pautada pela transparência sobre os ativos que poderão ser alienados e pela velocidade com que a Raízen conseguirá reduzir sua exposição bancária.
Perspectivas para os Acionistas: Shell e Cosan no Centro da Estratégia
O futuro da nota de crédito da Raízen está intrinsecamente ligado ao suporte que seus controladores, Shell e Cosan, estão dispostos a oferecer. A manutenção da observação negativa pela Fitch é um recado claro: se não houver um suporte tangível ou uma venda de ativos rápida e bem-sucedida, novos rebaixamentos podem ocorrer. A agência avalia que uma melhora no rating depende de uma redução consistente da alavancagem, algo que o mercado financeiro vê como improvável de acontecer sem um choque de gestão ou uma injeção externa de recursos.
A Raízen atua em um setor cíclico e de alta intensidade de capital. A transição energética, onde a empresa busca ser protagonista com o etanol de segunda geração (E2G) e biogás, exige investimentos bilionários. O desafio da Raízen é equilibrar a visão de longo prazo como líder em energia sustentável com a necessidade imediata de sanar as contas e reduzir uma dívida que cresceu de forma desproporcional à sua geração de caixa operacional.
Setor Sucroenergético e o Risco Sistêmico do Endividamento
O caso da Raízen serve como um alerta para todo o setor sucroenergético brasileiro. Em um cenário de taxas de juros globais e locais que permanecem em patamares elevados para combater a inflação, o custo da dívida corrói a competitividade de empresas excessivamente alavancadas. A perda do grau de investimento da Raízen retira a companhia do radar de grandes fundos globais que só podem investir em ativos com nota ‘BBB’ ou superior, o que reduz a demanda pelos papéis da empresa e pressiona as cotações das ações RAIZ4 na B3.
A confiança dos investidores agora depende da capacidade da Raízen em apresentar um plano de reestruturação crível. A agência de risco destacou que a posição de liquidez atual é desafiadora, e o cronograma de amortizações de R$ 10,5 bilhões nos próximos 18 meses não permite complacência. A execução operacional impecável na próxima safra e a disciplina rigorosa na alocação de capital serão os pilares para que a Raízen comece a trilhar o caminho de volta ao grau de investimento.
Estratégias de Recuperação e o Papel do Mercado de Capitais
Para reverter o atual cenário de desconfiança, a Raízen deve focar na eficiência de suas usinas e na maximização do retorno sobre o capital empregado. A assessoria financeira contratada terá o papel de redesenhar o perfil da dívida, possivelmente buscando alongar prazos e reduzir o custo médio do passivo. No entanto, sem a geração de caixa operacional positiva (FCL), qualquer renegociação de dívida será apenas paliativa.
A Raízen permanece como um player fundamental na matriz energética brasileira, mas sua saúde financeira é agora a prioridade zero. O mercado aguarda os próximos passos da assessoria e, principalmente, um sinal mais forte de Cosan e Shell. A resolução do impasse sobre o aporte de capital e a clareza na execução do plano de venda de ativos não-estratégicos serão os marcos que determinarão se a Raízen conseguirá estabilizar sua nota de crédito em ‘B’ ou se novos reveses virão no horizonte de curto prazo.
Vigilância Rigorosa sobre a Liquidez e o Refinanciamento
O monitoramento contínuo das métricas de crédito será a tônica dos próximos trimestres para todos os stakeholders da Raízen. A fragilidade demonstrada pelo salto na dívida líquida para R$ 53,4 bilhões exige que cada real gerado pela operação seja direcionado prioritariamente para o serviço da dívida. O sucesso da companhia em navegar por este período de escassez de liquidez definirá não apenas o futuro de sua classificação de risco, mas sua capacidade de continuar liderando a agenda de transição energética no Brasil.









