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Raízen tem rating rebaixado duas vezes no mesmo dia e entra em zona de alto risco

por João Souza
09/02/2026 às 21h00
em Negócios
Raizen-Raiz4

Em um movimento raro e preocupante no mercado financeiro, a Raízen S.A. (RAIZ4) teve seu rating rebaixado duas vezes no mesmo dia pela Fitch Ratings, nesta segunda-feira (9), o que colocou a companhia brasileira na faixa de alto risco de crédito. O episódio, considerado um alerta vermelho para investidores e analistas, evidencia o momento delicado vivido pela joint venture entre Cosan e Shell.

A primeira decisão da Fitch ocorreu ainda pela manhã, reduzindo os Issuer Default Ratings (IDRs) da Raízen de ‘BBB-’ para ‘B’, sob Observação Negativa. Poucas horas depois, ao revisar informações adicionais divulgadas pela própria empresa — incluindo a contratação de assessores financeiros para avaliar alternativas estratégicas de liquidez e estrutura de capital —, a agência voltou atrás e rebaixou novamente a nota, desta vez para ‘CCC’, sinalizando risco substancial de inadimplência.

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Esse duplo rebaixamento em sequência tornou-se um dos eventos corporativos mais discutidos do dia no mercado brasileiro, refletindo não apenas a gravidade do cenário financeiro da empresa, mas também a perda de confiança das agências de classificação na sua capacidade de reação a curto prazo.


Deterioração acelerada da percepção de crédito

De acordo com o relatório atualizado da Fitch Ratings, a segunda revisão do rating da Raízen foi necessária porque as informações sobre a reestruturação haviam sido ignoradas na primeira análise — ainda que já estivessem publicamente disponíveis. Essa falha fez com que a agência revisse urgentemente a nota, interpretando os movimentos da empresa como indicativo de instabilidade.

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Com isso, os ratings de longo prazo em moeda estrangeira e local da Raízen S.A. e da Raízen Energia S.A. foram rebaixados de ‘B’ para ‘CCC’, enquanto as notas seniores sem garantia da Raízen Fuels Finance S.A. (com vencimentos até 2054) também sofreram corte para a mesma classificação. No mercado nacional, o rating em escala brasileira despencou de ‘BBB-(bra)’ para ‘CCC(bra)’, encerrando um dia de forte turbulência para a companhia.

Em linguagem técnica, a categoria ‘CCC’ significa que a empresa enfrenta alto risco de crédito e pode caminhar para inadimplência caso não haja uma mudança significativa na estratégia financeira.

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Incertezas sobre suporte dos controladores

Segundo analistas da Fitch, o rebaixamento duplo do rating da Raízen reflete incertezas quanto à disposição dos acionistas controladores — Cosan e Shell — em apoiar financeiramente a companhia. O mercado vem monitorando de perto se os controladores estarão dispostos a injetar capital ou renegociar dívidas da empresa, diante da deterioração de fluxo de caixa e pressão sobre a estrutura de capital.

A Fitch foi direta ao classificar o cenário como de “risco substancial”. Isso significa que, embora a empresa ainda não esteja em default, as condições atuais indicam que um evento de crédito adverso é plausível, a depender das decisões tomadas nas próximas semanas.


Rebaixamento em série: S&P também corta nota da Raízen

O aperto sobre a Raízen não veio apenas da Fitch Ratings. Na mesma linha, a S&P Global Ratings também cortou o rating da companhia de ‘BBB-’ para ‘CCC+’, colocando-a em observação negativa. Segundo a agência, há elevado risco de reestruturação da dívida, o que seria equivalente a um evento de default técnico se confirmado.

A S&P ainda ressaltou que há pouco espaço para melhora operacional no curto prazo. Embora o negócio de distribuição de combustíveis apresente margens estáveis e volumes positivos no Brasil, o desempenho fraco do setor de açúcar e etanol deve continuar pressionando resultados.

Com base em projeções atualizadas, a agência estima que o Ebitda da Raízen deverá girar em torno de R$ 11 bilhões em 2026, enquanto a alavancagem (dívida líquida sobre Ebitda) deve permanecer entre 5,0x e 5,5x, patamar considerado elevado para o setor.


Estrutura de dívida sob escrutínio

Os números levantados pelas agências reforçam o diagnóstico de endividamento excessivo. Em novembro do ano passado, a Raízen reportou um prejuízo líquido superior a R$ 2,3 bilhões no segundo trimestre da safra 2025/2026. Já a dívida líquida consolidada, ao fim de setembro, alcançou R$ 53,4 bilhões — um volume que compromete a flexibilidade financeira e expõe a empresa a um ciclo de refinanciamentos contínuos.

Com o novo rating ‘CCC’, os custos de captação devem subir, tornando mais cara a rolagem de dívidas e reduzindo a atratividade dos títulos de crédito privados da companhia. Analistas alertam que, se não houver intervenção dos controladores, a Raízen entrará em uma fase de renegociação complexa, possivelmente envolvendo credores internacionais.


Reação do mercado e perspectivas

A notícia de que a Raízen teve seu rating rebaixado duas vezes no mesmo dia repercutiu imediatamente entre investidores, analistas e credores. As ações da empresa registraram leve queda no pós-mercado, refletindo o receio de que a confiança do investidor institucional se desgaste ainda mais.

Embora o rebaixamento duplo não implique insolvência imediata, ele serve como indicador avançado de vulnerabilidade financeira, sinalizando que a empresa está em um momento crucial para redefinir sua estratégia. O mercado de energia e biocombustíveis, altamente competitivo e volátil, amplia os desafios.

Economistas apontam que a Raízen ainda possui ativos relevantes e presença estratégica no setor sucroenergético e na distribuição de combustíveis, o que pode facilitar uma eventual recuperação caso ocorra um apoio financeiro robusto dos controladores.


Risco sistêmico e cenário macroeconômico

O caso da Raízen também acende um alerta mais amplo sobre o risco sistêmico em empresas com elevado grau de alavancagem no setor de energia. O contexto atual de juros altos, volatilidade cambial e preços mais baixos do etanol e do açúcar pressiona fluxos de caixa, afetando a sustentabilidade de companhias do setor.

A Fitch destacou que os desafios financeiros da Raízen não são isolados, mas refletem um ambiente de negócios mais desafiador na América Latina. Agências e casas de análise já monitoram o impacto desses rebaixamentos sobre outras empresas brasileiras, especialmente em setores de infraestrutura e energia que dependem intensamente de capital de terceiros.


Recuperação depende de estratégia e confiança

Especialistas consultados pelo mercado indicam que a futura evolução da Raízen dependerá de duas frentes principais: a renegociação de parte significativa de sua dívida e a capacidade de restabelecer a confiança junto aos investidores. As decisões estratégicas nas próximas semanas serão determinantes para definir se o duplo rebaixamento será apenas um ponto temporário de inflexão ou o início de uma fase prolongada de vulnerabilidade.

Para retomar a credibilidade, analistas sugerem que a empresa aumente a transparência na comunicação com o mercado, demonstre planos concretos de reforço de liquidez e sinalize apoio explícito de seus acionistas controladores.


Perspectiva analítica: um duplo golpe simbólico

O duplo rebaixamento do rating da Raízen no mesmo dia é mais do que um evento técnico das agências de classificação. É um sinal de perda de confiança generalizada e de que o mercado já questiona a solvência da empresa no médio prazo. A decisão em duas etapas — e no intervalo de poucas horas — evidencia uma mudança brusca na percepção de risco, o que pode impactar não apenas a Raízen, mas todo o setor sucroenergético brasileiro.

Enquanto investidores aguardam novos movimentos da Cosan e da Shell, o caso serve de alerta para outras companhias altamente alavancadas que tentam equilibrar crescimento agressivo e sustentabilidade financeira.

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