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Resort Tayayá: A crise política por trás do investimento de Dias Toffoli

por Gabriel Monteiro
13/02/2026 às 01h44
em Política
Resort Tayayá: A Crise Política Por Trás Do Investimento De Dias Toffoli - Gazeta Mercantil

Participação societária de Toffoli no Resort Tayayá acentua pressão sobre ética no Judiciário e uso de benefícios fiscais

A confirmação de que o ministro Dias Toffoli, integrante do Supremo Tribunal Federal (STF), mantém-se no quadro societário da Maridt Participações S.A. — holding que capitaneou as operações do Resort Tayayá — estabeleceu um novo patamar de tensão política na Praça dos Três Poderes. O caso, que transita entre o direito empresarial e a ética pública, ganha contornos de crise institucional ao revelar o uso de renúncia fiscal federal por um empreendimento vinculado a um magistrado de cúpula. Nesta quinta-feira (12), o ministro admitiu sua posição na empresa, tentando antecipar-se aos desdobramentos de uma investigação que une o mercado imobiliário de luxo paranaense a fundos de investimento com trânsito intenso no setor bancário.

A crise política não se sustenta apenas na posse do ativo, mas na cronologia das transações e no acesso a subsídios públicos. O Resort Tayayá, localizado em Ribeirão Claro, no Paraná, tornou-se o epicentro de um debate sobre a independência da magistratura frente a interesses econômicos. Enquanto o ministro alega que sua participação na Maridt Participações S.A. é estritamente patrimonial e declarada, a oposição no Congresso Nacional e setores da sociedade civil questionam a moralidade do uso do Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse) pelo complexo hoteleiro. O benefício, que resultou em uma economia tributária de pelo menos R$ 680,5 mil para o Resort Tayayá, é visto agora como um ponto de fragilidade para a imagem de imparcialidade do STF.


A engenharia societária da Maridt Participações e o controle do Resort Tayayá

Para compreender a magnitude da crise, é necessário destrinchar a arquitetura financeira montada em torno do Resort Tayayá. A Maridt Participações S.A. funcionou como o veículo de investimento que permitiu ao ministro Toffoli e seus sócios manterem uma posição de relevância em um dos ativos turísticos mais valorizados do Sul do país. O Resort Tayayá não é apenas uma propriedade rural convertida em lazer; trata-se de um complexo de multipropriedade estruturado para gerar liquidez através da venda de cotas a terceiros, um modelo que pulveriza a propriedade mas centraliza os ganhos na holding controladora.

A saída gradual da Maridt do capital do Resort Tayayá revela uma estratégia de desinvestimento calculada. Em 2021, o mercado financeiro registrou a primeira movimentação significativa, com a venda de parte das ações para fundos geridos pela Reag Investimentos. Essa transação conectou o Resort Tayayá ao ecossistema do Banco Master, uma instituição que tem apresentado crescimento exponencial e que, frequentemente, possui causas sob julgamento nas cortes superiores. A alienação final do restante das cotas ocorreu em fevereiro de 2025 para a PHB Holding. O timing dessas operações, coincidente com o acirramento do debate sobre o Perse no Legislativo, sugere uma tentativa de distanciamento entre o magistrado e o ativo antes que a crise política atingisse seu ápice.

O Programa Perse: A renúncia fiscal no centro da tempestade política

O componente mais explosivo desta matéria jornalística reside no acesso do Resort Tayayá aos benefícios do Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse). Criado pela Lei nº 14.148/2021 para socorrer empresas duramente atingidas pela pandemia, o Perse concede isenção de IRPJ, CSLL, PIS e Cofins. Dados oficiais apontam que o Resort Tayayá usufruiu de uma renúncia fiscal consolidada em R$ 680,5 mil até março de 2025.

A crise política é alimentada pela dicotomia ética: como um ministro da Suprema Corte, responsável por julgar a constitucionalidade de programas de ajuste fiscal, pode ser sócio de uma empresa beneficiada diretamente por uma política de desoneração tributária? O Ministério da Fazenda tem travado uma batalha hercúlea para extinguir o Perse, alegando que o programa se tornou um ralo de recursos públicos com baixa contrapartida social. A revelação de que o Resort Tayayá — um destino de luxo onde diárias de fim de semana podem custar R$ 9,8 mil — é um dos beneficiários, fornece munição para que parlamentares questionem os critérios de seletividade do governo federal e a isenção de Toffoli em processos correlatos.

Modelo de multipropriedade: A blindagem técnica do Resort Tayayá

O Resort Tayayá opera sob o regime de multipropriedade, regulamentado pela Lei 13.777/2018. Este modelo permite que um imóvel seja dividido em frações de tempo, vendidas a diferentes compradores. Atualmente, o complexo conta com 1,5 mil condôminos, distribuídos entre 70 unidades fixas e dezenas de apartamentos, villages e áreas denominadas “ecoview”. Na prática, o Resort Tayayá funciona como uma “cidade hoteleira”, onde a gestão profissional oferece serviços de alto padrão, mantendo a valorização constante do patrimônio.

Esta pulverização de proprietários serve, tecnicamente, como uma camada de proteção para os sócios da holding principal. Ao diluir a titularidade entre centenas de cidadãos, a Maridt Participações S.A. consegue operar o Resort Tayayá com menor exposição direta, até que transações de grande porte ou auditorias fiscais tragam à tona os nomes dos controladores. Para o leitor interessado em economia popular, o Resort Tayayá é o exemplo máximo de como o setor imobiliário brasileiro se sofisticou, utilizando instrumentos jurídicos para atrair capital de pessoas físicas enquanto mantém uma estrutura de decisão restrita a grandes players e investidores institucionais.

Impacto regional e a economia de Ribeirão Claro

Situado na região de Angra Doce, o Resort Tayayá é o pilar econômico de Ribeirão Claro. O empreendimento aproveita o potencial da Represa de Chavantes e transformou uma área anteriormente rural em um enclave de turismo de elite. A estrutura conta com 120 apartamentos, 66 flats e um complexo gastronômico que inclui pizzarias, choperias e temakerias. A presença do Resort Tayayá elevou o preço do metro quadrado na região e gerou centenas de empregos diretos, o que cria um dilema para as autoridades locais diante da crise política.

A infraestrutura do Resort Tayayá é comparável aos melhores destinos internacionais, contando com marina, quadras de beach tennis, praia artificial e trilhas. Contudo, essa pujança econômica regional agora é confrontada com a realidade dos benefícios federais. O debate em Brasília foca na seguinte questão: o Resort Tayayá, com seu faturamento robusto e público de altíssima renda, realmente precisava de R$ 680 mil em renúncia fiscal? Ou o programa Perse está sendo utilizado para turbinar lucros de ativos ligados a figuras de poder?

O Banco Master e as conexões do sistema financeiro

Um desdobramento crucial desta crise política envolve a ligação indireta do Resort Tayayá com o Banco Master. A alienação das cotas da Maridt para fundos controlados pela Reag Investimentos — empresa que possui parcerias recorrentes com o banco — levanta suspeitas sobre a formação de uma rede de influência mútua. Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, aparece como figura central na estrutura de fundos que adquiriu participação no Resort Tayayá.

O ministro Toffoli foi taxativo ao afirmar que não possui relação de amizade com Vorcaro e que não recebeu dinheiro diretamente do banqueiro. No entanto, no mundo do “hard news” financeiro, a percepção de proximidade é tão relevante quanto a realidade dos fatos. O Banco Master tem interesses vastos em diversos setores da economia brasileira, e a circulação de ativos de um ministro do STF para a órbita de influência de grupos financeiros cria um cenário de vigilância constante por parte de órgãos como o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) e a Receita Federal. O de=”21″ data-index-in-node=”585″>Resort Tayayá deixa de ser apenas um local de descanso para tornar-se uma peça em um tabuleiro de xadrez corporativo de alta voltagem.

A Lei Orgânica da Magistratura (Loman) sob teste

A defesa do ministro sustenta que a participação na Maridt Participações S.A. respeita a Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman). A lei brasileira proíbe juízes de exercerem o comércio ou a gerência de empresas, mas permite a condição de acionista. Toffoli argumenta que o Resort Tayayá era um investimento passivo. Entretanto, juristas consultados para esta análise apontam que a participação em holdings que interagem com o poder público para obter benefícios, como o Perse, desafia o espírito da lei, se não a sua letra.

A crise política em torno do Resort Tayayá pode precipitar uma reforma na Loman. Parlamentares já discutem a criação de impedimentos automáticos para juízes cujas empresas recebam subsídios ou isenções fiscais federais. O objetivo é evitar o “capitalismo de compadrio”, onde o acesso a autoridades facilita a obtenção de vantagens competitivas no mercado privado. Enquanto o Resort Tayayá segue operando normalmente em Ribeirão Claro, em Brasília, o nome do empreendimento tornou-se sinônimo da necessidade de atualização dos códigos de conduta ética do Judiciário brasileiro.

Gastronomia e Serviços: A rentabilidade do Resort Tayayá

A operação comercial do Resort Tayayá é desenhada para a máxima extração de valor. Com acomodações que variam de flats a casas para 16 pessoas, o resort pratica preços que acompanham a inflação do setor de luxo. A presença de três bares “molhados” e uma programação de recreação diária garante que o hóspede gaste a maior parte do seu orçamento dentro do complexo. Essa eficiência operacional é o que torna o Resort Tayayá um ativo tão desejado por holdings como a PHB, que finalizou a compra das cotas da Maridt em 2025.

O complexo gastronômico do Resort Tayayá é um capítulo à parte na sua saúde financeira. Restaurantes à la carte e unidades de fast-food premium garantem uma receita recorrente que independe da taxa de ocupação hoteleira, uma vez que os 1,5 mil condôminos utilizam esses serviços como se estivessem em seus próprios bairros. Essa robustez econômica é o que faz a renúncia fiscal do Perse parecer ainda mais injustificada aos olhos dos críticos políticos, transformando o Resort Tayayá em um exemplo de “ajuda governamental para quem não precisa”.

Análise de Desdobramentos: O papel do TCU e da Receita Federal

O próximo estágio da crise política envolvendo o Resort Tayayá deve ocorrer nas instâncias de fiscalização administrativa. Espera-se que o Tribunal de Contas da União (TCU) e a Receita Federal recebam representações para auditar os lançamentos contábeis da Maridt Participações S.A. e do próprio Resort Tayayá. A investigação deve focar se houve qualquer tipo de aceleração indevida no processo de concessão do Perse ou se as informações prestadas para a obtenção do benefício fiscal condizem com a realidade operacional do empreendimento.

Além disso, a saída de Toffoli da sociedade do Resort Tayayá em fevereiro de 2025 não encerra sua responsabilidade sobre os anos em que foi sócio e o benefício foi usufruído. Na política brasiliense, o “vínculo histórico” é frequentemente utilizado para fustigar autoridades em comissões parlamentares de inquérito (CPIs). O Resort Tayayá, portanto, permanecerá como uma sombra sobre a trajetória do ministro, servindo de argumento para aqueles que defendem uma separação total entre a toga e os negócios imobiliários de alta rentabilidade.

O futuro do Resort Tayayá após a alienação total das cotas

Com a PHB Holding agora no comando das cotas remanescentes da Maridt Participações S.A., o Resort Tayayá busca uma fase de “despolitização”. A estratégia dos novos controladores é focar na expansão das unidades de village e na modernização da marina para consolidar Ribeirão Claro como a “Angra brasileira”. Para os 1,5 mil condôminos, a saída do ministro do quadro societário pode ser vista com alívio, visando diminuir a exposição midiática negativa que o complexo vem sofrendo.

Contudo, para o mercado de capitais e para os observadores da economia popular, o caso do Resort Tayayá deixa lições permanentes. Ele demonstra a importância da transparência em estruturas de multipropriedade e a necessidade de critérios mais rígidos para a concessão de renúncias fiscais. A crise política pode até arrefecer com o tempo, mas o Resort Tayayá já está marcado na história do jornalismo econômico brasileiro como o ponto de intersecção onde o luxo paranaense encontrou os dilemas éticos do Supremo Tribunal Federal.

 

Resort Tayayá: A Crise Política Por Trás Do Investimento De Dias Toffoli - Gazeta Mercantil - Política

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