Plataforma aliada a Trump acusa o STF de violar tratados internacionais ao pedir bloqueio de contas no Brasil
A tensão entre as Big Techs americanas e o Judiciário brasileiro voltou a ganhar força após uma nova ofensiva da Suprema Corte do Brasil. No centro da polêmica estão a plataforma de vídeos Rumble e a Trump Media & Technology Group, empresa do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ambas recorreram à Justiça da Flórida para contestar uma decisão recente do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou o bloqueio de uma conta no Brasil associada ao comentarista Rodrigo Constantino.
O embate reacende o debate sobre os limites da jurisdição internacional, o papel das plataformas digitais na liberdade de expressão e a influência geopolítica de decisões judiciais em ambiente digital transnacional. A Rumble, que já havia sido alvo de bloqueio no Brasil por resistir a ordens judiciais, agora ganha apoio direto de uma gigante midiática vinculada a Trump. Juntas, as empresas alegam que o Brasil está excedendo sua autoridade ao impor sanções unilaterais sem seguir protocolos diplomáticos estabelecidos.
STF exige bloqueio no Brasil e plataformas reagem nos EUA
Decisão de Moraes vira alvo de críticas de empresas americanas
Na sexta-feira, 11 de julho, o ministro Alexandre de Moraes determinou o bloqueio integral, em território brasileiro, de um perfil hospedado na plataforma Rumble. O canal em questão é atribuído ao comentarista Rodrigo Constantino, conhecido por seu posicionamento conservador e por críticas frequentes ao Supremo Tribunal Federal. O pedido de bloqueio faz parte de uma série de medidas do STF contra conteúdos considerados desinformativos ou ofensivos à ordem democrática.
Dois dias depois, a Rumble e a Trump Media apresentaram uma petição na Justiça da Flórida alegando que a decisão do ministro foi comunicada apenas por e-mail e não seguiu os trâmites legais previstos em acordos bilaterais e tratados internacionais, como a Convenção da Haia. Segundo as empresas, não houve comunicação prévia ao governo dos Estados Unidos nem qualquer notificação formal via canais diplomáticos oficiais.
Contexto diplomático intensifica o confronto jurídico
Trump havia alertado Lula sobre tratamento dado às empresas de tecnologia dos EUA
A resposta judicial de Rumble e Trump Media também menciona um episódio recente no qual Donald Trump enviou uma carta formal ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva expressando preocupação com o que chamou de perseguição às empresas de tecnologia americanas em território brasileiro. O documento das plataformas aponta que a decisão do STF foi publicada apenas dois dias após o envio da carta, sugerindo uma possível retaliação ou, no mínimo, uma coincidência preocupante.
O uso da Justiça americana como foro para contestar decisões do STF evidencia uma escalada na disputa jurídica internacional. A Trump Media & Technology Group, controladora da rede social Truth Social, demonstra que a questão ultrapassou o campo do direito e agora atinge esferas políticas e diplomáticas mais elevadas.
Histórico de atritos entre Moraes e plataformas digitais
Bloqueios anteriores já haviam gerado tensão entre Brasil e EUA
Essa não é a primeira vez que Alexandre de Moraes entra em rota de colisão com empresas de tecnologia estrangeiras. Em fevereiro de 2025, o ministro já havia determinado o bloqueio da própria plataforma Rumble no Brasil. Na época, a empresa se recusou a desativar a conta do blogueiro Allan dos Santos, que reside nos Estados Unidos e é alvo de investigações no Brasil por disseminação de desinformação.
A Rumble, por sua vez, argumentou que a decisão violava a liberdade de expressão e o devido processo legal, recusando-se a cumprir a ordem. O impasse levou ao bloqueio da plataforma em território nacional, reacendendo o debate sobre a atuação do Judiciário na regulação de conteúdos digitais.
Questão jurídica ou disputa geopolítica?
Especialistas analisam os impactos internacionais das decisões do STF
A atuação do STF, especialmente de Moraes, em decisões relacionadas às plataformas digitais, é vista por alguns especialistas como um esforço para conter a propagação de discursos de ódio, fake news e ataques à democracia. No entanto, para críticos internacionais e para as próprias plataformas, há um excesso de autoridade e uma falta de respeito às normas de cooperação internacional.
A Rumble, com sede no Canadá, mas grande presença nos Estados Unidos, e a Trump Media, com objetivos políticos claros, buscam agora respaldo jurídico e político nos EUA para questionar a validade e o alcance extraterritorial das ordens judiciais brasileiras.
O caso também pode impactar as negociações comerciais e os acordos de cooperação tecnológica entre Brasil e Estados Unidos, num momento em que a regulação de plataformas digitais se tornou tema prioritário nas agendas legislativas de ambos os países.
Brasil e EUA em rota de colisão digital
Tensão entre soberania nacional e liberdade global na internet
A crise entre o STF e as empresas ligadas a Trump evidencia o dilema enfrentado por Estados nacionais no controle do ambiente digital. Enquanto o Brasil, por meio de sua Suprema Corte, tenta impor limites legais a conteúdos considerados nocivos, empresas americanas defendem o direito irrestrito à liberdade de expressão sob a proteção da Primeira Emenda da Constituição dos EUA.
Com o avanço das tecnologias e a crescente internacionalização das redes sociais e plataformas de vídeo, a discussão ganha contornos de uma verdadeira disputa entre soberania digital e regulação transnacional. O impasse envolvendo a Rumble, a Trump Media e o STF pode se tornar um caso emblemático para o futuro da governança da internet.
Expectativas sobre a decisão da Justiça americana
Resposta nos EUA pode definir rumos da regulação digital internacional
A Justiça americana agora deverá avaliar a legitimidade do pedido brasileiro, a forma como ele foi comunicado e os impactos sobre empresas nacionais. Uma decisão contrária ao STF pode abrir precedentes jurídicos que inviabilizam, na prática, o cumprimento de futuras ordens judiciais brasileiras sobre plataformas sediadas no exterior.
Por outro lado, se a Justiça da Flórida reconhecer a validade do pedido, ainda que informal, poderá fortalecer a autoridade de países como o Brasil para regular conteúdos de plataformas digitais, mesmo que sediadas em outras jurisdições.
A resposta poderá redefinir o grau de influência dos tribunais nacionais sobre empresas globais, bem como alterar o equilíbrio entre direitos individuais, liberdade de expressão e soberania nacional no ambiente digital.
Tensão digital global em escalada
O embate entre a Rumble, a Trump Media e o Supremo Tribunal Federal é apenas mais um capítulo em uma narrativa complexa que mistura política, tecnologia, diplomacia e direitos fundamentais. O Brasil tenta reafirmar sua soberania digital diante de plataformas que operam sob outras jurisdições. Já as empresas ligadas a Donald Trump buscam fortalecer o discurso de que estão sendo perseguidas por governos estrangeiros por razões ideológicas.
O resultado dessa disputa poderá influenciar legislações e jurisprudências em todo o mundo, moldando o futuro da internet e da liberdade de expressão em escala global.






