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STF amplia responsabilização das redes sociais e impõe dever de cuidado às plataformas digitais

Supremo decide que plataformas devem agir ativamente contra conteúdos criminosos

por Gabriel Monteiro
05/11/2025 às 18h18
em Tecnologia
Supremo Decide Que Plataformas Devem Agir Ativamente Contra Conteúdos Criminosos - Gazeta Mercantil

STF amplia responsabilização das redes sociais e redefine os limites da liberdade digital no Brasil

O Supremo Tribunal Federal (STF) publicou o acórdão do julgamento que muda de forma profunda o papel das plataformas digitais no Brasil. A decisão amplia a responsabilização das redes sociais por publicações de usuários consideradas criminosas ou ofensivas, exigindo que empresas como Facebook, Instagram, X (antigo Twitter), YouTube e TikTok passem a adotar medidas proativas de monitoramento e remoção de conteúdos ilegais.

O documento, com mais de 1.100 páginas, reúne os votos dos ministros e as discussões realizadas durante o julgamento do Marco Civil da Internet, concluído em junho. A partir dessa publicação, as partes envolvidas podem recorrer, mas a tese fixada pela Corte já estabelece um novo marco para a regulação das plataformas no país.

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Um novo paradigma de responsabilidade digital

Com oito votos a três, o STF decidiu que as empresas de tecnologia devem atuar preventivamente diante de conteúdos que violem a lei. Isso significa que não basta mais aguardar uma decisão judicial para remover postagens criminosas — as plataformas agora têm o dever de cuidado em relação ao que é publicado.

A decisão altera o entendimento do artigo 19 do Marco Civil da Internet, que antes limitava a responsabilidade das empresas apenas aos casos em que descumprissem uma ordem judicial de retirada. Agora, esse artigo será aplicado apenas a crimes contra a honra (como calúnia, difamação e injúria).

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Para os demais conteúdos criminosos, passa a valer o artigo 21, que obriga a remoção de postagens assim que a plataforma for notificada, sob pena de punição caso a Justiça entenda que o material era ilícito.


Os crimes considerados graves pelo STF

O Supremo listou uma série de condutas que exigem atenção imediata das plataformas. Entre os chamados “crimes graves”, estão:

  • Atos antidemocráticos;

  • Terrorismo e crimes preparatórios de terrorismo;

  • Induzimento, instigação ou auxílio a suicídio ou automutilação;

  • Incitação à discriminação por motivos de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, sexualidade ou identidade de gênero;

  • Crimes contra a mulher;

  • Crimes sexuais contra vulneráveis;

  • Pornografia infantil;

  • Crimes contra crianças e adolescentes;

  • Tráfico de pessoas.

Caso as plataformas não retirem postagens que contenham esse tipo de conteúdo, poderão ser responsabilizadas civilmente, mesmo que não exista notificação ou ordem judicial.


O “dever de cuidado” e o impacto sobre as big techs

A principal inovação da decisão é o chamado “dever de cuidado”, que impõe às redes sociais a obrigação de monitorar e agir contra conteúdos potencialmente criminosos. O STF entendeu que, em casos de grande circulação de postagens ilegais, a omissão das plataformas caracteriza falha de controle e gera responsabilidade civil.

Esse entendimento marca um ponto de inflexão na relação entre liberdade de expressão e responsabilidade digital. As plataformas passam a ser cobradas não apenas por reagirem a ordens judiciais, mas também por atuarem preventivamente, de forma semelhante ao que ocorre em legislações europeias, como a Digital Services Act (DSA) da União Europeia.

Empresas que mantiverem anúncios ou impulsionamentos pagos relacionados a conteúdos ilícitos, ou que tolerarem a existência de robôs e perfis automatizados com práticas criminosas, poderão ser punidas mesmo sem notificação prévia.


Regulação e transparência digital

O acórdão do STF também determina que as plataformas criem mecanismos internos de autorregulação, com regras claras sobre moderação, relatórios de transparência e canais de atendimento específicos para denúncias.

Essas medidas devem incluir:

  • Sistemas de notificação acessíveis aos usuários;

  • Procedimentos de apuração e retirada de conteúdo;

  • Relatórios anuais sobre notificações extrajudiciais, impulsionamentos e anúncios;

  • Representação legal obrigatória no Brasil, com sede e responsável jurídico constituído no país.

O objetivo é fortalecer a transparência das redes sociais, exigindo delas mais clareza sobre os critérios usados para remoção de conteúdo e mais responsabilidade em casos de dano coletivo.


O fim da neutralidade passiva das plataformas

Ao longo dos últimos anos, as redes sociais vinham sendo vistas como meras intermediárias da comunicação entre usuários. Essa visão, reforçada pelo artigo 19 do Marco Civil, sustentava que as empresas não poderiam ser responsabilizadas pelo que seus usuários publicavam.

Com a decisão do STF, esse paradigma se rompe. As plataformas passam a ser reconhecidas como agentes ativos na circulação de informação — com deveres semelhantes aos de empresas de mídia, no sentido de moderar e impedir a disseminação de conteúdo ilegal.

A medida também impõe que marketplaces respondam civilmente de acordo com o Código de Defesa do Consumidor, estendendo a responsabilização para o comércio digital e serviços intermediários.

Serviços de mensageria privada, como o WhatsApp e o Telegram, continuam sujeitos ao artigo 19, mas apenas no que se refere a comunicações interpessoais — o que significa que conversas privadas continuam protegidas, exceto em casos de investigação judicial.


Reações e desafios da decisão

A ampliação da responsabilização das redes sociais reacende o debate sobre liberdade de expressão e censura. Para especialistas, a decisão traz avanços na proteção de direitos fundamentais e no combate à desinformação, mas também impõe desafios técnicos e jurídicos complexos.

Empresas do setor de tecnologia alegam que o monitoramento ativo pode resultar em excesso de moderação, removendo conteúdos legítimos por medo de punição. Por outro lado, juristas e entidades civis destacam que o novo modelo é necessário diante da escalada de discursos de ódio, crimes virtuais e campanhas coordenadas de desinformação.

O STF, em sua decisão, ressaltou que o objetivo não é restringir o debate público, mas garantir responsabilidade social e integridade digital em plataformas com bilhões de usuários.


Apelo ao Congresso Nacional

Além de fixar novas regras, o Supremo também apelou ao Congresso Nacional para que avance na criação de uma lei específica para plataformas digitais, capaz de preencher as lacunas do atual Marco Civil da Internet.

Os ministros reconheceram a existência de um “estado de omissão parcial”, no qual a legislação vigente já não é suficiente para lidar com o volume e o impacto dos conteúdos disseminados online.

Essa manifestação reforça a necessidade de atualização das leis brasileiras diante da nova realidade digital, marcada por inteligência artificial, robôs, algoritmos de recomendação e propaganda direcionada.


Responsabilidade digital e soberania jurídica

A decisão do STF posiciona o Brasil entre os países que buscam reafirmar sua soberania digital, impondo regras próprias às big techs que atuam no território nacional. A obrigatoriedade de manter sede e representante legal no país garante maior controle jurídico sobre as empresas e fortalece o sistema de responsabilização civil.

Ao estabelecer a responsabilização das redes sociais, o Supremo cria um precedente que pode influenciar outros tribunais da América Latina e consolidar um novo modelo de governança digital na região.

Mais do que uma decisão judicial, trata-se de um marco histórico para o direito digital brasileiro, com impactos que ultrapassam o campo jurídico e se estendem à economia, à comunicação e à democracia.

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