Depois de quase quatro meses com obras paradas por decisão da Justiça Federal, Luciano Hang destrava empreendimento de R$ 80 milhões no Centro Histórico; padrão Casa Branca e Estátua da Liberdade ficaram de fora, fachada adota estilo enxaimel alemão, e abertura está marcada para 9 de maio às 10h.
O empresário Luciano Hang, conhecido nacionalmente como o
Veio da Havan, superou uma sequência de contestações judiciais, exigências de órgãos de patrimônio e forte resistência da sociedade civil para finalmente definir a inauguração da megaloja da rede no Centro Histórico de Blumenau, no Vale do Itajaí catarinense. A abertura ao público está marcada para 9 de maio de 2026, às 10h, encerrando um impasse que durou quase um ano, colocou em xeque uma das estratégias de expansão mais consistentes do varejo
brasileiro e transformou um simples ponto comercial em um dos casos mais debatidos dos últimos anos sobre os limites entre interesse privado, identidade de marca e preservação do patrimônio urbano. O acordo homologado na Justiça Federal em janeiro de 2026 obrigou a varejista a abandonar integralmente o projeto original — que reproduzia o padrão icônico da Havan com fachada inspirada na Casa Branca e uma réplica de 12 metros da Estátua da Liberdade no topo — e a construir uma unidade com linguagem arquitetônica totalmente adaptada à herança germânica da cidade. Com investimento total de R$ 80 milhões, a loja terá 14 mil metros quadrados de área construída, cerca de 350 mil itens em estoque e deve gerar 200 empregos diretos, tornando‑se a 191ª unidade da rede no país e a quarta em operação em Blumenau.
Impasse na Justiça Federal paralisou obras por quase quatro meses
A trajetória conturbada do empreendimento começou no segundo semestre de 2025, logo após a Havan dar entrada no pedido de licenciamento junto à prefeitura. À época, a empresa apresentou um projeto idêntico ao que vem replicando com sucesso em mais de 180 cidades brasileiras: volumetria robusta, cores claras, colunas que remetem à arquitetura oficial norte‑americana e a já famosa Estátua
da Liberdade, marca registrada que funciona como um farol de reconhecimento da marca em qualquer região do país.
Ocorre que o terreno escolhido fica inserido no perímetro do Centro Histórico de Blumenau, área protegida por leis municipal, estadual e federal, com regras rigorosas de ocupação, altura, materiais e alinhamento visual. A região foi edificada a partir de 1850 por imigrantes alemães e mantém até hoje dezenas de construções no estilo enxaimel, com madeira aparente, cores sóbrias e proporções que definem a paisagem urbana e sustentam um dos principais produtos turísticos do estado: a Oktoberfest, que atrai mais de 700 mil visitantes por ano.
A apresentação do projeto padrão da Havan provocou reação imediata do
Conselho Municipal do Patrimônio Cultural Edificado (Cope), da Fundação Catarinense de Cultura (FCC) e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Os três órgãos emitiram pareceres contrários, alegando incompatibilidade total entre a linguagem arquitetônica proposta e o conjunto protegido. A prefeitura negou o alvará inicial. A Havan recorreu à Justiça Federal, obtendo em primeira instância uma liminar para tocar as obras — decisão que foi derrubada pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região em outubro de 2025, determinando a paralisação imediata de qualquer serviço no local até que o projeto fosse totalmente compatibilizado com as regras de preservação. Por quase 120 dias, o terreno ficou parado, com estruturas montadas e operários afastados, enquanto advogados, arquitetos e representantes institucionais negociavam uma saída que permitisse o funcionamento da loja sem ferir a legislação patrimonial.
Padrão Casa Branca e Estátua da Liberdade foram barrados no Centro Histórico
O cerne do conflito não era a existência de uma grande loja de departamentos no centro, mas a imposição de uma identidade visual alheia à memória da cidade. Para o
Veio da Havan, a padronização arquitetônica não é capricho estético: é um dos pilares do modelo de
negócios que levou a rede, fundada em 1986 em Brusque, a faturar R$ 18,5 bilhões em 2025 e a projetar R$ 22 bilhões para este ano, com meta de chegar a 200 megalojas até dezembro. O consumidor, independentemente de estar em Roraima ou no Rio Grande do Sul, entra em uma Havan e sabe exatamente o que encontrar — inclusive a Estátua da Liberdade, que funciona como uma marca‑assinatura reconhecida por 9 entre 10 brasileiros, segundo pesquisa própria da varejista.
Em Blumenau, porém, essa força se transformou no principal obstáculo. Os técnicos do Iphan e da FCC demonstraram em relatórios que a volumetria original, com 18 metros de altura, descaracterizaria a escala do bairro, onde a maioria dos prédios históricos tem entre dois e três pavimentos. A fachada branca com colunas, por sua vez, romperia a unidade cromática da rua, dominada por tons terrosos, marrons e bege. E a Estátua da Liberdade, instalada no ponto mais alto da edificação, funcionaria como um elemento estranho, descolado de qualquer referência cultural local — um símbolo que, na prática, dizia “aqui está a Havan”, sem qualquer diálogo com o entorno.
A decisão judicial de outubro deixou clara a regra do jogo: ou a marca se adaptava ao território, ou o empreendimento não sairia do papel. Para Hang, foi uma escolha difícil. Recuar na arquitetura significava abrir mão de um ativo intangível construído ao longo de quatro décadas. Manter‑se fiel ao modelo, por outro lado, significava perder um ponto estratégico em uma ci
dade onde a Havan já tem raízes profundas — inclusive o famoso Castelinho da Rua XV de Novembro, prédio histórico de 1978, em estilo enxaimel, que funciona como unidade da marca desde 2007 e é hoje um dos cartões postais mais fotografados de Blumenau.
Projeto refeito com arquitetura enxaimel recebeu aval tripartide
A saída veio com a reformulação integral do conceito arquitetônico, conduzida por um escritório local especializado em intervenções em áreas tombadas. O novo plano, apresentado em dezembro de 2025 e aprovado em janeiro seguinte por Cope, FCC, Iphan e prefeitura, praticamente inverteu a lógica original: em vez de o território se curvar à marca, a marca se submeteu às regras do território.
A altura máxima foi reduzida de 18 para 12 metros, compatível com os prédios vizinhos. A fachada ganhou estrutura aparente de madeira, vigas escuras e painéis claros, reproduzindo com rigor o sistema construtivo enxaimel trazido pelos imigrantes alemães. Cores, proporções de janelas, alinhamento de calçada e até o tipo de iluminação noturna foram definidos em conjunto com os técnicos do patrimônio para não destoar do conjunto. E o símbolo mais famoso da rede: a Estátua da Liberdade ficou definitivamente fora, assim como qualquer referência à Casa Branca. Em seu lugar, a empresa criou uma logotipia especial para a unidade, com letras discretas aplicadas sobre a madeira, sem volumes ou iluminação agressiva.
Apenas com essas alterações o acordo foi homologado na Justiça Federal, as liminares foram extintas e as obras puderam ser retomadas em ritmo acelerado para cumprir a data de 9 de maio. Os órgãos de controle emitiram nota conjunta informando que se tratava do primeiro grande empreendimento varejista da história de Blumenau aprovado com 100% de compatibilização arquitetônica ao Centro Histórico. Para a Havan, restou o consolo de inaugurar a unidade mais singular de toda a rede — a única, entre quase 200, que não segue o padrão nacional.
Concessões marcam limite raro à fórmula de expansão nacional da rede
O que faz do caso do Veio da Havan em Blumenau um marco no varejo brasileiro é exatamente esse: pela primeira vez, uma marca de forte apelo nacional, acostumada a ditar suas regras onde chega, encontrou um limite institucional e jurídico claro que a obrigou a rever premissas centrais de sua estratégia. Em quase todas as outras cidades onde atua, a chegada de uma megaloja é recebida com concessões municipais, isenções fiscais e ajustes urbanísticos para receber o padrão Havan. Em Blumenau, o movimento foi o oposto: a prefeitura, os órgãos técnicos e a Justiça disseram “sim” ao investimento, aos empregos e à movimentação econômica, mas “não” à desfiguração da paisagem histórica.
Especialistas em gestão de marcas ouvidos pela reportagem avaliam que a decisão, embora dolorosa no curto prazo, pode trazer aprendizados para a própria Havan. Em um cenário onde cada vez mais capitais e cidades médias aprovam leis de proteção a seus centros antigos, a capacidade de adaptar‑se sem perder a essência será um diferencial competitivo importante. Hang, em nota à imprensa após o acordo, preferiu enxergar o copo meio cheio: “Blumenau é nossa casa, aqui a Havan nasceu e cresceu. Se para estar no Centro Histórico precisamos nos vestir com a roupa da cidade, assim faremos. Esta será a loja mais bonita de todas”.
Ainda assim, não há como negar o recado institucional: força econômica não é argumento suficiente para sobrepor‑se a regras claras de interesse coletivo. E esse recado não vale apenas para a Havan.
Megaloja de 14 mil m² deve gerar 200 empregos diretos
Com o licenciamento em ordem, a empresa agora acelera a fase final de montagem. Os números do empreendimento são típicos do padrão megaloja: 14 mil metros quadrados de área de vendas distribuídos em três pavimentos, cerca de 350 mil itens que vão de eletrodomésticos a vestuário, passando por cama, mesa, banho, brinquedos, autopeças e alimentos, além de praça de alimentação e estacionamento coberto para 280 veículos. O investimento total fechou em R$ 80 milhões, R$ 10 milhões acima do orçamento inicial, em função das alterações de projeto.
A expectativa oficial é de criar 200 postos de
trabalho diretos, entre atendentes, caixas, estoquistas, segurança e gerência, além de cerca de 120 vagas indiretas durante a construção. A prefeitura estima que a nova unidade possa injetar cerca de R$ 1,2 milhão por mês em salários na
economia local, além de ampliar a arrecadação de ISS e ICMS. Para o Centro Histórico, que nos últimos anos vinha sofrendo com o fechamento de lojas de rua e a migração do comércio para shoppings, a chegada da Havan é vista como um importante vetor de revitalização, com potencial para trazer de volta o fluxo de pedestres aos finais de semana e atrair também o turista que hoje só circula pela Rua XV.
A inauguração de 9 de maio deve seguir o ritual que consagrou Hang: presença do empresário, atrações promocionais, descontos expressivos nas primeiras horas e a já tradicional participação da colaboradora de 92 anos, Dona Maria, figura que virou símbolo das aberturas da rede. A empresa projeta receber cerca de 30
mil pessoas apenas no primeiro dia de funcionamento.
Caso cria precedente jurídico para grandes marcas em áreas protegidas
Mais do que uma nova loja abrindo as portas, o desfecho do processo em Blumenau tem potencial para mudar a forma como grandes redes de varejo se relacionam com o patrimônio urbano em todo o Brasil. Até aqui, a regra tácita era simples: marcas fortes chegam, apresentam seu projeto padrão, e as prefeituras se adaptam. O que aconteceu com o Veio da Havan em Blumenau mostra que essa equação não é mais automática — especialmente em locais com legislação patrimonial estruturada, sociedade civil organizada e órgãos técnicos independentes.
Para advogados especializados em direito urbanístico, o acordo homologado na Justiça Federal serve agora como referência em processos semelhantes que tramitam em outros estados, envolvendo redes de fast‑food, supermercados e lojas de departamento que querem se instalar em sítios históricos. A lição que fica é clara: é possível compatibilizar investimento privado de grande porte com preservação, desde que haja disposição de ambas as partes para negociar e, principalmente, desde que a marca entenda que, em certos territórios, ela é a convidada — e não a anfitriã.
Em 2026, ano em que a Havan completa quatro décadas de vida e mira a marca de 200 unidades, a megaloja de Blumenau permanecerá como um caso à parte. Nela, a Estátua da Liberdade não ergue sua tocha sobre o telhado. Lá, quem manda no visual é a madeira escura do enxaimel, a memória dos imigrantes e o acordo que, depois de muita tensão judicial, finalmente permitiu que o negócio avançasse — não porque a marca venceu a cidade, mas porque ambos aprenderam a dividir o mesmo espaço.
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