Irmãos de Toffoli venderam participação milionária em resort a fundo ligado à gestora investigada no caso Master
A negociação envolvendo os irmãos de Toffoli e a venda de uma participação milionária no resort Tayaya, localizado em Ribeirão Claro, no Paraná, passou a chamar atenção de investigadores e do meio jurídico-financeiro após a revelação de que o comprador foi um fundo administrado pela Reag Investimentos, gestora investigada por abrigar estruturas financeiras suspeitas associadas ao Banco Master e a esquemas bilionários de sonegação no setor de combustíveis.
O episódio ocorre em um contexto sensível: o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli é o relator do inquérito que investiga o chamado caso Master, no qual a Reag Investimentos figura como peça central. Embora o ministro não possua participação formal no empreendimento turístico, seus irmãos de Toffoli e outros familiares estiveram diretamente envolvidos na sociedade que controlava o resort.
Venda milionária e estrutura societária do Tayaya
Documentos societários obtidos junto à Junta Comercial do Paraná indicam que empresas ligadas aos irmãos de Toffoli detiveram, ao longo dos últimos anos, uma participação relevante no Tayaya Resort, um complexo turístico de alto padrão construído em uma área de aproximadamente 58 mil metros quadrados.
O empreendimento foi estruturado por meio de duas empresas principais: a Tayaya Administração e Participações e a DGEP Empreendimentos. Ambas receberam aportes significativos do Arleen Fundo de Investimentos, veículo financeiro administrado pela Reag.
O Arleen chegou a investir cerca de R$ 20 milhões nessas empresas, valor que ajudou a viabilizar e expandir o resort. Posteriormente, parte das quotas pertencentes aos irmãos de Toffoli foi vendida ao fundo, em operações formalizadas no mesmo dia e com valores expressivos.
Quem são os irmãos envolvidos
Entre os sócios que integraram a estrutura do Tayaya estavam José Carlos Dias Toffoli e José Eugênio Dias Toffoli, irmãos do ministro do STF. José Carlos é padre e atua na cidade de Marília, no interior de São Paulo, reduto político e familiar de Toffoli. Já José Eugênio é engenheiro e prestou serviços à construtora Queiroz Galvão entre 2008 e 2015, período que coincide com investigações da Operação Lava Jato — embora ele não tenha sido denunciado.
Os registros indicam que a participação dos irmãos de Toffoli chegou a alcançar R$ 1,37 milhão na Tayaya Administração e outros R$ 5,4 milhões na DGEP Empreendimentos, valores considerados elevados para sociedades desse porte fora dos grandes centros turísticos do país.
A entrada do fundo investigado
Em setembro de um dos exercícios societários analisados, a empresa Maridt Participações S.A., que tinha os irmãos do ministro como dirigentes, vendeu parte de sua fatia na Tayaya ao Arleen Fundo de Investimentos. No mesmo dia, realizou operação semelhante envolvendo a DGEP, transferindo quotas milionárias ao fundo administrado pela Reag.
Essas transações colocaram os irmãos de Toffoli no centro de uma cadeia financeira que, anos depois, seria alvo de investigações da Polícia Federal por suspeitas de lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e vínculos com organizações criminosas no setor de combustíveis.
Reag Investimentos e o caso Master
A Reag Investimentos é uma gestora e administradora de recursos financeiros que passou a ser investigada por abrigar fundos ligados ao Banco Master, instituição financeira cujo controlador, Daniel Vorcaro, foi preso pela Polícia Federal sob suspeita de fraudes.
O inquérito aponta que estruturas administradas pela Reag teriam sido utilizadas para ocultar recursos, lavar dinheiro e viabilizar esquemas de sonegação bilionária, alguns deles associados a integrantes do PCC. O Arleen Fundo de Investimentos figura como uma dessas estruturas sob escrutínio.
Toffoli como relator do inquérito
O caso ganhou contornos ainda mais delicados quando o ministro Dias Toffoli assumiu a relatoria do inquérito do caso Master no STF, após aceitar pedido da defesa de Daniel Vorcaro para que a investigação tramitasse na Corte.
Embora não exista comprovação de envolvimento direto do ministro nas operações financeiras, o fato de seus irmãos de Toffoli terem mantido relações comerciais com um fundo hoje investigado levanta questionamentos no meio jurídico e político sobre conflitos de interesse e necessidade de transparência.
Auditorias e suspeitas sobre o fundo Arleen
Pareceres de auditoria entregues à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) indicam que empresas responsáveis pela análise contábil do Arleen se abstiveram de emitir opinião conclusiva sobre suas demonstrações financeiras. O motivo alegado foi a ausência de documentos essenciais para verificar a real situação dos ativos do fundo, entre eles o próprio resort Tayaya.
Em ao menos um desses pareceres, auditores registraram preocupação com os impactos da Operação Carbono Oculto, deflagrada pela Polícia Federal para investigar o uso de fundos da Reag na lavagem de dinheiro ligada ao setor de combustíveis e a organizações criminosas.
Liquidação do fundo após operação policial
O Arleen Fundo de Investimentos foi criado em 2021, com prazo de duração de 20 anos, e possuía apenas um cotista — outro fundo também administrado pela Reag. No entanto, em novembro de 2025, dois meses após a deflagração da Operação Carbono Oculto, uma assembleia de cotistas decidiu por sua liquidação antecipada.
Poucos dias depois, Daniel Vorcaro seria preso, e fundos ligados à Reag passaram a ser formalmente alvo das investigações federais.
Mudança de controle do resort
Atualmente, nem o fundo Arleen nem os irmãos de Toffoli constam formalmente como sócios das empresas que administram o Tayaya. As quotas foram transferidas para o advogado goiano Paulo Humberto Barbosa, que figura hoje como único sócio das companhias.
A mudança encerra, ao menos do ponto de vista documental, a participação direta da família do ministro no empreendimento. Ainda assim, o histórico societário permanece sob análise de investigadores e jornalistas.
Presença frequente de Toffoli no resort
Relatos jornalísticos apontam que o ministro Dias Toffoli frequenta o Tayaya há anos. Em 2019, ele teria participado de eventos no interior de São Paulo e no Paraná, estendendo sua estadia no resort.
Mais recentemente, surgiram informações de que o ministro chegou ao local em helicóptero após viajar em uma aeronave utilizada por um dos investigados da Operação Carbono Oculto, empresário apontado como controlador de uma distribuidora de combustíveis suspeita de sonegação bilionária.
Silêncio dos citados
Procurados para comentar o caso, o ministro Dias Toffoli, seus irmãos de Toffoli, representantes do Tayaya, da Reag Investimentos e o advogado atualmente responsável pelas empresas não se manifestaram até a publicação desta reportagem.
O caso segue repercutindo nos meios jurídico, político e econômico, sobretudo pela intersecção entre investimentos privados, investigações criminais e a atuação de um dos principais ministros do Supremo Tribunal Federal.









